Bagdá, 14/03/2006 – A anarquia que reina no Iraque diante da lentidão para a formação de um novo governo torna particularmente difícil a vida das mulheres. "Existe o caos no país e há perigo para todos os lados", disse à IPS Nora Ahmed, uma jovem de 27 anos. A situação "vai de mau a pior, e só com o fim da ocupação as mulheres do Iraque estarão melhor", disse, por sua vez, Fátima al Naddaf, da organização não-governamental Womens?s Will (Vontade das Mulheres), em Bagdá. Este é o sentimento da maioria das mulheres deste país, principais vítimas dos ataques de milícias rebeldes e de criminosos, que operam com liberdade diante da ausência de um governo central firme. As negociações para formar o novo governo estão paralisadas desde as eleições realizadas em 15 de dezembro, cujo resultado tornou impossível qualquer partido assumir o poder, o que torna imperiosa a busca por acordos no parlamento. "Antes, o Iraque estava sob sanções internacionais, mas pelo menos era um país livre, não ocupado. Agora, está sangrando por causa da ocupação", disse Al Naddaf à IPS. Uma das principais preocupações da Women?s Will se referem às mulheres detidas em prisões norte-americanas como a de Abu Ghraib. A maioria foi presa sem evidências e ainda não foram julgadas.
"A questão mais preocupante para as mulheres iraquianas é que muitas delas são detidas pela ocupação. Há muitas em Abu Ghraib", acrescentou Al Naddaf. As mulheres exigem o fim da prisão e consideram que a formação de um governo é necessária para consolidar a autoridade e melhorar sua segurança. O Dia Internacional da Mulher passou incólume no último dia 8 no Iraque, embora algumas mulheres de Bagdá, como Jinan Jabbar, acreditem que poderão comemorá-lo no futuro. "As mulheres do Iraque querem que as forças de ocupação vão embora. Querem que haja um novo e forte governo no país. Então, poderemos celebrar o 8 de março", afirmou.
A Organização para a Libertação das Mulheres no Iraque divulgou um comunicado dizendo que "os crimes da ocupação são a maior ameaça aos direitos das mulheres iraquianas. Antes, elas podiam ir trabalhar e estudar com segurança, mas hoje estão expostas a perigos, como seqüestros, assassinatos e violações", acrescenta. A Womens?s Will acusou os Estados Unidos de causarem uma situação de caos no Iraque. "Acusamos as forças de ocupação de provocarem uma guerra civil no Iraque, e pedimos que deixem de violar os direitos do povo iraquiano", disse Al Naddaf à IPS.
"Um de meus filhos foi assassinato há dois anos, e agora sinto que o Iraque se converteu em uma grande prisão", contou Asmaa Ali, de 63 anos. "Antes da ocupação, meus filhos eram soldados do exército e eu estava preocupada com eles por causa da guerra do Golfo. Agora, também estou preocupada, porque há assassinatos por toda a parte", disse. As mulheres temem em especial "os soldados iraquianos, fanáticos e ignorantes. E por esse medo as mulheres deixam de estudar", afirmou. Asmaa apelou ao apoio das mulheres de todo o mundo. "Quero convidá-las a vir ao Iraque ver como vivíamos antes e como vivemos agora", acrescentou.
Mas outras mulheres dizem que estes problemas não são novos, e falam das dificuldades que viviam sob o regime de Saddam Hussein (1979-2993) e durante as sanções internacionais. Outras são otimistas. Jinan Jabbar afirmou que a situação atual é preocupante, mas acredita que "o Iraque vai melhorar". Por sua vez, a jornalista Ahrar Zalzali disse que o novo governo poderia abrir novas possibilidades para as mulheres. (IPS/Envolverde)

