Água: Uma mensagem infantil para os governos

México, 20/03/2006 – A cada dia morrem no mundo 4.500 meninos e meninas menores de cinco anos por doenças ligadas à falta de saneamento e água potável. Para falar desse drama, expor suas experiências e buscar soluções, cem crianças de 30 países se reúnem no México. O Fórum Mundial da Água das Crianças, que começou na quinta-feira, conta com meninos e meninas que protagonizam histórias comoventes, líderes ou integrantes de projetos sobre água e higiene em escolas e comunidades, e que terão a oportunidade de expressar seus pontos de vista a vários ministros. "Nos ouvirão, porque nós as crianças somos os mais afetados pela crise da água e se não fizermos alguma coisa agora o futuro será difícil, pois as próximas gerações não terão água suficiente", disse à IPS a colombiana Anyeli González, de 16 anos. A jovem participa de um projeto sobre conservação de água e meio ambiente no qual estudantes de diferentes escolas organizam apresentações artísticas em suas comunidades com marionetes e música para criar consciência sobre os problemas relacionados aos recursos hídricos. Anyeli, do departamento colombiano de Caldas, e outras crianças da Ásia, África e América Latina, chegaram ao México a convite do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), do não-governamental projeto Water Education for Teachers, dos Estados Unidos, e do Fórum Japonês da Água.

O encontro infantil é paralelo ao IV Fórum Mundial da Água, aberto na quinta-feira na capital mexicana com participação de mais de 13 mil delegados de governos, ongs, empresas e funcionários da Organização das Nações Unidas. Como o Fórum, a reunião das crianças vai até quarta-feira. Segundo o Unicef, "os primeiros e mais afetados pela água imprópria para o consumo e a higiene são as meninas e os meninos. Trata-se de problemas com efeitos devastadores sobre todos os aspectos da vida de uma criança, desde a sobrevivência e o desenvolvimento até a educação".

Mais de quatro bilhões de casos de diarréia são registrados a cada ano no mundo por insalubridade e falta de água adequada que colocam os menores "à beira da morte", alerta o Unicef. Do mesmo modo que em outros assuntos ligados à saúde, os mais afetados são os pobres. Uma criança nascida nos Estados Unidos ou na Europa tem 520 menos probabilidades de morrer vítima de uma enfermidade diarréica do que um recém-nascido da África subsaariana, onde apenas 36% da população têm acesso ao saneamento, afirma o Unicef. Existem mais de 220 milhões de crianças enfermas por parasitas intestinais, o que as impede de crescer adequadamente e ir à escola regularmente. Definitivamente, esses problemas são uma barreira para superar a pobreza.

As mulheres e os menores dos países mais pobres caminham uma média diária de seis quilômetros transportando 20 litros de água para levá-los para casa. O tempo que essa tarefa toma as tira de outras atividades produtivas e de educação. "As crianças têm muito a fazer a favor da água. Podemos ser melhores apenas aprendendo a lavar as mãos, o que evitará que muitos de nós ficassem doentes, mas também ajudando nossos amigos e vizinhos a usar melhor a água", afirmou González. A jovem compartilha no México sua experiência com outras como Dolly Akhter, de 15 anos, que vive em um bairro pobre de Dhaka, em Bangladesh, e faz parte de um grupo que orienta seus vizinhos sobre como melhorar a higiene e o uso de latrinas.

Também está presente a queniana Charlotte Akoth, de 13 anos, moradora em Nairóbi, encarregada de ensinar em sua escola de dois mil alunos conceitos básicos de higiene e uso adequado das 18 latrinas disponíveis. Outro participante do encontro é Suresh Baral de 13 anos, que vive no povoado de Pumbi Bhumbi, no Nepal, e preside um clube de higiene e para financiar pequenos créditos destinados à construção de latrinas. Para a colombiana González, "só o fato de estar aqui no México, no Fórum, já nos compromete muito. Daqui voltaremos para trabalhar com mais compromisso e ensinar aos adultos a importância de cuidar da água", acrescentou.

Segundo o Unicef, as crianças se reunirão com vários ministros que participam do Fórum Mundial da Água para analisar como podem ajudar a resolver a crise da água. "Esse é um dos atos mais importantes desta reunião de crianças, pois vários dos ministros presentes irão ouvi-las e dialogar com elas", disse à IPS Donna Goodman, especialista do Unicef em água e saneamento. Embora no mundo exista água suficiente para todos, 1,1 bilhão de pessoas não conta com esse recurso básico para a vida e 2,6 bilhões carecem de acesso a latrinas mais rudimentares.

Em 2000, os governos do mundo se comprometeram a reduzir pela metade a proporção de pessoas sem água potável, até 2015, como um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O IV Fórum Mundial da Água se segue aos realizados no Marrocos (1997), Holanda (2000) e Japão (2003). Embora não se trate de um encontro organizado pela ONU e não tenha mandato para adotar medidas obrigatórias, é o contexto mais importante para discutir os problemas dos recursos hídricos. (IPS/Envolverde) –

Diego Cevallos

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