Religião: Uma visita remota, mas não impossível

Havana, 21/03/2006 – As relações entre o Estado cubano e a Igreja Católica (formais e de diálogo, mas não ideais) poderiam melhorar com uma não descartada visita papal que parece interessar mais a Havana do que ao Vaticano. Embora remota, ninguém em Cuba se atreve a descartar a visita do papa Bento 16, depois de dois convites verbais do presidente Fidel Castro. "Ele não é um papa viajante", lembram os católicos, e os analistas consideram que o momento é "favorável". Castro reiterou seu desejo de receber o papa ao cardeal Renato Martino, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, que passou por Havana em fevereiro, durante viagem por vários países do Caribe para apresentar o Compêndio da doutrina social da Igreja Católica. "Foi um gesto de cordialidade, em um contexto no qual Castro se referiu com palavras elogiosas ao santo padre", explicou á IPS o secretário-adjunto da Conferência de Bispos Católicos de Cuba (Cocc), José Félix Pérez Riera. O prelado recordou que é a igreja nacional que convida oficialmente o papa a visitar um país, embora a visita seja preparada em conjunto com as autoridades civis. "Um convite ao papa é algo muito complicado", lembrou o pároco da Igreja de Santa Rita, no bairro de Miramar, na capital cubana.

Ainda sem rechaçar totalmente a possibilidade ("tomara que o papa possa ir a muitos países, incluindo o nosso", disse), o sacerdote disse que se deve anotar as "possibilidades reais" da agenda do pontífice de 78 anos. "O papa viajará à Alemanha, depois à Turquia e no próximo ano ao Brasil, por ocasião da V Conferência do Episcopado Latino-americano (Celam). Uma passagem por Cuba não parece algo real que possa acontecer, pelo menos, em um futuro próximo", acrescentou. O pesquisador Jorge Ramírez Calzadilla concorda que é "difícil" a comparação com o falecido João Paulo II em matéria de viagens. O papa polonês (1978-2005) começou seu pontificado muito mais jovem do que Bento 16, e em janeiro de 1998 acrescentou esta nação caribenha de governo socialista à sua extensa lista de países visitados.

"Tampouco creio que Cuba esteja nas prioridades de Bento 16. Talvez lhe interesse um país mais povoado, com maior quantidade de católicos do que o nosso", disse à IPS Ramírez Calzadilla, chefe do departamento de estudos sócio-religiosos do governamental Centro de Pesquisas Psicológicas e Sócio-Religiosas (CIPS). Ramón Torreira, também dessa entidade, afirma que as relações entre o Estado cubano e a Igreja Católica nacional, complexas nas últimas quatro décadas, passam agora por um de seus momentos mais favoráveis.

Nesse contexto, outros analistas acreditam que uma visita do pontífice daria bons frutos ao Vaticano, ao governo e à igreja cubana, que ao calor dos preparativos reativaria uma campanha de evangelização semelhante à que precedeu a viagem de João Paulo II, que permaneceu cinco dias neste país. "Em todo caso, me parece que Cuba se mostra mais interessada do que a Santa Sede nessa eventual viagem, sugerida verbalmente por Castro em duas oportunidades em meses recentes", disse à IPS o secretário do capítulo cubano da Comissão para o Estudo da História da Igreja na América Latina, Enrique López Oliva. No final de 2005, Castro recebeu o cardeal Tarcisio Bertone, a quem também teria transmitido o convite.

A preparação da viagem de João Paulo II requereu um árduo e sistemático trabalho entre autoridades do governo e da Igreja, que foi "excelente" e teve êxito, segundo Riera. "Se é preciso preparar uma visita papal, será preparada", afirmou. O diálogo aberto então se mantém até hoje. "Aspiramos que a fluidez aumente. As relações entre a Igreja Católica e o Estado são formais nas quais se tende a uma maior comunicação", acrescentou. Não se vive uma "situação idílica" em que todos os problemas estejam resolvidos, mas "tampouco é de confronto e rechaço mútuo. Estamos entre pessoas que conversam e o fazem sobre temas a respeito dos quais nem sempre há coincidência", ressaltou.

Um dos propósitos da nova presidência da Cocc, liderada desde fevereiro pelo arcebispo Camagüey, Juan García Rodríguez, é tornar mais sistemático o diálogo e tratar questões de interesse para a vida da Igreja e da sociedade. "Um tema profundo que poderia interessar a todos é o da família, ver o que podemos fazer que a família permaneça unida, diminuam os conflitos dentro dela, bem como o divórcio e a separação de pais. São preocupações comuns que não necessariamente nos colocam no âmbito de confronto", disse Riera.

Nas pesquisas feitas pela Igreja Católica em todas as dioceses do país para preparar o plano global de pastoral 2006-2010, que regerá seu trabalho nos próximos cinco anos, se assinalou a família com a prioridade a ser atendida, pois se considera que "atravessa por situação de vida muito difíceis". Segundo o resultado dessas pesquisas, os problemas que pesam no contexto familiar incluem salário insuficiente, escassez de moradia, crescente permissividade sexual, agravamento das uniões consensuais, longa tradição de divórcio e separação das famílias seja por imigração, estudos ou trabalho.

Entre as demandas não atendidas da Igreja Católica em Cuba figuram o acesso aos meios de comunicação e aos centros educacionais, todos em mãos do Estado, bem como a autorização para construir mais igrejas, pois todas as existentes datam de antes de 1959, quando começou o governo encabeçado por Castro. Cerca de 1.200 "casas-missão", abertas em lares católicos de regiões afastadas ou urbanizações posteriores a 1959, cobrem, de alguma forma, o déficit de paróquias. Segundo a Cocc, em Cuba há 330 sacerdotes, dos quais 155 são cubanos, e 646 religiosas, 130 nascidas neste país.

As casas-missão surgiram depois do Encontro Nacional Eclesial Cubano (Enec) de 1986, que junto com a visita de João Paulo II é considerado por Riera um dos acontecimentos mais importantes do século XX para o catolicismo cubano. O Enec esteve precedido de um processo de reflexão que incluiu todas as dioceses do país, no qual a Igreja Católica tomou consciência da realidade social, aceitou sua "durabilidade" e assumiu diante dela o que é próprio dela: a missão evangelizadora.

"Do que até então havia sido como uma pastoral de conservação, de entendimento, de reflexão sobre nós mesmos, no interior das igrejas, passamos para uma pastoral mais de portas abertas. Até fisicamente os templos abriram suas portas depois dos horários das missas", disse o pároco. A igreja cubana chegará ao V Celam falando a mesma linguagem que dos demais bispos da região, "em uma certa paridade de situações evangelizadoras", ao contrário dos encontros de Medellín, em 1968; Puebla, em 1979, e Santo Domingo, em 1992, disse Riera. Pelo atípico de seu contexto, a igreja cubana não se sentia identificada com as análises e as respostas ali apresentadas. "Diria que a peculiaridade de nossa realidade sempre nos colocava em uma espécie de marginalidade involuntária", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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