Curitiba, 23/03/2006 – A Comunidade Taba é formada por quatro tendas indígenas ao estilo brasileiro, feitas de madeira e palha em chão de terra. Nas mais amplas e abertas, trabalhadores camponeses, florestais, pescadores e indígenas trocam experiências e discutem como defender a riqueza natural do planeta. São representantes de comunidades que desenvolveram técnicas inovadoras e sustentáveis que podem ser replicadas, mas cujo impacto ainda é limitado por falta de divulgação, disse à IPS Sean Southey, organizador do encontro paralelo à oitava Conferência das Partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica (COP-8), que acontece em Curitiba (PR) até o próximo dia 31. A taba (aldeia indígena) é uma atividade da Iniciativa Equatorial, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) associado com vários governos e instituições não-governamentais. Este é o oitavo encontro promovido durante as conferências internacionais para desenvolver capacidades de comunidades rurais pobres de países equatoriais. "A idéia e juntá-las para que façam intercâmbio de tecnologias e influam nas decisões oficiais da conferência", elevando sua repercussão e visões "do local para o global", explicou Southey, gerente do Escritório de Políticas de Desenvolvimento do Pnud. Estas são reuniões importantes por suas quatro dimensões: "celebrar êxitos, expor e conhecer experiências, expandir a influência e capacitar as pessoas", disse à IPS Donato Bumacas, um camponês das Filipinas.
A participação de Bumacas pela segunda vez em um encontro semelhante é produto do prêmio que seu povo indígena ganhou por suas práticas em Kalinga, norte das Filipinas. Trata-se de um sistema integrado de produção de arroz orgânico, pescado e hortaliças, conservando o ecossistema montanhoso, com manejo florestal, irrigação e fertilização sustentáveis, explicou. Sua comunidade tem apenas 108 famílias, mas a tecnologia já beneficia 132 mil núcleos familiares da região, destacou. O princípio é que "povo, natureza, cultura e espíritos são um só".
O Convênio sobre a Diversidade Biológica pode conter e adotar boas decisões, mas será "uma estrutura vazia" sem a implementação nos países e a convergência entre suas decisões globais e as boas práticas, acrescentou Bumacas, ressaltando que as metas do tratado não serão atingidas sem a participação das comunidades locais. Empresas comunitárias de biodiversidade constituem uma alternativa tanto para conservar o meio ambiente quanto para combater a pobreza, segundo a Iniciativa Equatorial que decidiu financiá-las junto com o Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF, sigla em inglês), administrado pelo Banco Mundial.
Das florestas localizadas em países em desenvolvimento, 22% estão sob gestão de comunidades locais. O México se destaca com mais de mil comunidades manejando florestas em suas terras, segundo uma publicação da Iniciativa que descreve 30 experiências de sucesso na América Latina. A Comunidade Taba vem desenvolvendo variadas atividades durante a COP-8. Esta quarta-feira foi dedicada às pequenas ilhas, com palestras sobre a luta contra espécies invasoras nas equatorianas ilhas Galápagos e a importância da biodiversidade nas ilhas, entre outros temas.
O governador do Paraná, Roberto Requião, visitou a taba e destacou sua importância como "contraponto à visão das empresas multinacionais que vêem o planeta como espaço de negócios e não de vida". Requião convidou os participantes para um almoço no palácio de governo quando oferecerá uma comida típica, o barreado, carne assada durante 24 horas com raízes em panelas e barro. Manoel Yawanawa, da Associação Vida Nova na Floresta, da Amazônia brasileira, levou à taba a experiência de resgate cultural indígena. O projeto consiste em ensinar aos jovens do povo apurinã, de aproximadamente cinco mil pessoas, o conhecimento ancestral de plantas medicinais, artesanato, pintura, música e dança.
Esta é uma cultura que foi considerada pelos yawanawa, de apenas 700 membros, que agora a transmitem para seus vizinhos que a perderam. Os objetivos são constituir uma farmácia que no futuro produzirá medicamentos para as comunidades locais, capacitar os jovens em técnicas de artesanato e resgatar as artes tradicionais, explicou à IPS o líder indígena do Estado do Acre. Os jovens reagiram negativamente, no início do projeto, em janeiro, mas depois aderiram "assumindo boa participação", contou.
Para Yawanawa, os indígenas encontram dificuldades para participar da COP-8 "por causa do inglês dominante. Queremos dialogar, transmitir idéias, mas a língua é um obstáculo", lamentou. Se fala muito de conhecimentos tradicionais dos quais "nós somos os provedores sem voz", acrescentou. Também lhe pareceram raras as referências aos "povos tradicionais", desconhecendo as diferenças entre os indígenas e outros grupos rurais, como os ribeirinhos, pescadores, camponeses e extratores de produtos florestais.
Entre estes últimos estão os seringueiros Luiz Ferreira Albuquerque e Lorival Monteiro, que se queixaram do baixo preço do produto, essencial para os automóveis caros, mas pelo qual "nos pagam apenas R$ 1,50" por quilo, disseram. "Seria necessário um preço de R$ 10,00" para garantir a sobrevivência dessa atividade que evita o desmatamento, afirmou Albuquerque. Mas esses baixos preços fizeram com que muitos seringueiros abandonassem a extração para se dedicar à agricultura, que exige o desmatamento de áreas crescentes, acrescentaram os trabalhadores. Eles também deixaram a borracha e hoje se dedicam à produção de plantas medicinais.
Aumentar o preço a esses níveis exigiria subsídios governamentais para competir com a melhor borracha natural importada, da qual a Malásia é o maior produtor. Nosso "leite" é melhor do que o da Malásia, disse Monteiro, se referindo ao látex extraído da grande árvore amazônica que se revelou mais produtivo nesse país asiático, para onde foi levado há cerca de cem anos. (IPS/Envolverde)

