Água: A tecnologia não basta

México, 22/03/2006 – Depois de trocar as bombas a motor para extrair água em zonas rurais da Nicarágua por outras à base de corda e manivela, mais baratas e de fácil instalação, o abastecimento hídrico aumentou 23% nesse país, três vezes mais rápido do que seus vizinhos. Esse exemplo, entre outros, foi divulgado no IV Fórum Mundial da Água, que acontece no México, onde 320 empresas de 27 países apresentaram seus produtos e serviços, muitos dos quais estão nas zonas mais pobres do mundo, mas sempre com êxito. "Há tecnologias para enfrentar os problemas de água e saneamento que são baratas e sustentáveis, mas não funcionam para todos os casos, pois não consideram o contexto e as pessoas", disse á IPS o peruano Fernando Chanduvi, um ex-funcionário da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Chanduvi promoveu no Fórum o uso de bombas movidas a pedais para extrair água de poço, cujo custo é de aproximadamente US$ 100. Em um pequeno espaço nos corredores do local onde acontece o Fórum, o peruano explica a centenas de visitantes o funcionamento da bomba, instalada em 500 mil pontos de regiões pobres de Bangladesh.

Alice Bouman, presidente do não-governamental Women for Water Partnership, com sede na Holanda, disse à IPS que os avanços na tecnologia relacionada à água e ao saneamento são "incríveis", mas advertiu que não servem de nada "se não forem parte de planos definidos pelas próprias comunidades". No mundo, quatro em cada 10 pessoas carecem de acesso a uma latrina e duas em cada 10 não contam com água potável. Além disso, somente a metade da população tem água própria para beber dentro de suas casas e entre 30% e 40% desse recurso se perde nas redes por vazamentos nas tubulações.

A falta de acesso à água e ao saneamento é um drama para os pobres. Oitenta por cento das doenças que se apresentam em países em desenvolvimento estão vinculadas á água, como cólera, tifo, doença do verme da Guiné e diarréia. Mais de um milhão de pessoas morrem por ano somente por causa da malária, enfermidade transmitida por mosquitos que incubam seus ovos em água parada. Com as técnicas existentes se poderia fazer muito para minimizar esses problemas, mas estas nem sempre chegam e, quando chegam, podem não ser úteis.

As bombas de corda e manivela que funcionaram muito bem na Nicarágua, extraindo água de até 35 metros de profundidade, não tiveram sucesso em países da África, como reconhece em documento divulgado no México a Netherlands Water Partnership da Holanda, que promove o uso desta tecnologia. A organização informou que na Nicarágua, nos anos 90, foram instaladas 50 mil bombas de corda fabricadas pelos próprios moradores, que substituíram as importadas movidas a motor. Graças a essa mudança, a extração de água em zonas rurais aumentou 23% na última década, três vezes mais rápido do que nos demais países centro-americanos.

Segundo essa organização, "um dos obstáculos para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio no tocante à água e a redução da pobreza está na escolha errada das tecnologias", que podem ser muito caras ou complexas para os usuários. Entre esses objetivos, adotados pela Organização das Nações Unidas em 2000, os governos do mundo se comprometeram a reduzir pela metade a proporção de pessoas sem água potável, até 2015. Chanduvi, aposentado da FAO que agora promove uma bomba semelhante à usada na Nicarágua, mas não com pedal, não concorda totalmente com o ponto de vista da Netherlands Water Partnerships.

Não é uma questão relacionada apenas à tecnologia que se usa, disse. "Se não se adaptarem os avanços, sejam quais forem, à realidade de cada comunidade e as pessoas participarem, o fracasso está garantido", afirmou. O stand de Chanduvi, que trabalha para a organização não-governamental suíça Água para o Terceiro Mundo, foi um dos mais concorridos no Fórum. Camponeses e delegados governamentais se juntavam periodicamente em torno dele para ver sua demonstração da bomba de pedal instalada em volta alguns recipientes de água.

Outro stand muito visitado foi o dos chamados banheiros inteligentes, da empresa norte-americana Waterless. Esta companhia é pioneira na fabricação de sanitários que não precisam de água, os quais, segundo a firma, economizam mais de cem mil litros de água, que é o que consome um sanitário normal em um ano. "Quando a urina cai no recipiente atravessa o líquido especial (biodegradável e com uma gravidade específica) este flutua sobre a urina, a qual é expulsa pelo sistema normal de drenagem sem necessidade de água", explicou Chirstoph Kubtiza, gerente de vendas internacionais da empresa.

"Nos Estados Unidos demoramos sete anos para convencer as pessoas de que estes sanitários são ecológicos, higiênicos e não necessitam de água. Agora, estamos fazendo isso em outras partes do mundo", disse. No Fórum Mundial da Água foram divulgadas tecnologias como essa, e outras, bem como purificadores solares, banheiros que não precisam de água e latrinas que são instaladas em duas horas. Também houve novidades duvidosas, como sistemas digitais para determinar vazamentos e outros problemas na rede de água, tubulações especiais de grande resistência e sistemas automatizados de purificação e análise da água. Participaram do Fórum, que começou quinta-feira passada e termina nesta quarta-feira, cerca de 13 mil pessoas entre delegados de governos, empresários e especialistas da ONU. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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