Karachi, 23/01/2005 – Após mais de quatro anos de casamento, Meeran Harchand, de 26 anos, conseguiu engravidar, mas deu à luz uma menina morta. "Nunca cheguei a tê-la nos braços. E veja como me deixou", lamenta a jovem. Meeran ainda se lembra da dor atroz que sentiu durante o trabalho de parto, há quatro anos. "Minha sogra chamou a 'dia? (parteira tradicional), que me deu uma injeção. Depois de algumas horas, pedi à minha família que chamasse um médico. Como não havia nenhum na aldeia, meu marido conseguiu transporte na manhã seguinte e me levou para a localidade mais próxima. Estava sofrendo tanto que queria morrer", contou à IPS.
O trabalho de parto foi tão demorado que provocou uma fístula obstétrica, isto é, sua vagina ficou comunicada com a bexiga e o reto, o que a impedia de controlar suas funções excretoras. "Implorei ao meu marido para me levar de volta ao hospital. Finalmente, me levou, porque já estava cansado da situação. Fui operada duas vezes, mas continuava tendo problemas", contou. Por fim, o médico Shershah Syed, chefe do departamento de ginecologia do Hospital Geral do Qatar, na cidade portuária de Karachi, a operou pela terceira vez e reparou a fístula.
No Paquistão, com uma população total de 145 milhões de pessoas das quais 33 milhões de mulheres em idade fértil, a cada 20 minutos morre uma mulher ao dar à luz. Para cada parturiente morta, outras 40 ficam com lesões permanentes, afirmou Imtaiz Kamal, secretária-geral do Comitê Nacional para a Saúde Materna e vice-presidente da Associação do Paquistão para o Bem-Estar Materno-Infantil. "Nos esquecemos daquelas que não morreram, mas desejariam ter morrido", disse Kamal, de 86 anos. Entre esse grupo estão as mulheres que sofrem incontinência, como Meeran, prolapso uterino (condição em que o útero desce para dentro da vagina ou mais abaixo), enfermidade inflamatória pélvica ou infertilidade devido a abortos realizados em más condições.
"Muitas das mulheres que vejo todos os dias contam histórias trágicas de rejeição por suas famílias", afirmou Syed, do Hospital Geral do Qatar. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a População (Fnuap), 80% de um total de 4,5 milhões de nascimentos anuais no Paquistão acontecem no lar . "Mais de 90% desses partos são atendidos por dais", destacou Sadiqua Jafarey, médico presidente do Comitê Nacional para a Saúde Materna e professor de obstetrícia e ginecologia da Universidade Médica de Ziauddin. "Mesmo nos centros urbanos, as mulheres se negam a se consultar com médicos homens, e isso contribui para promover a proliferação de parteiras não capacitadas", explicou.
Assim, não surpreende que a mortalidade materna no Paquistão chegue a 533 em cada cem mil nascimentos, segundo dados oficiais. Como em outros países em desenvolvimento, a alta mortalidade materna se deve a três demoras, destacou Syed. A primeira diz respeito à busca de ajuda médica por parte da família da parturiente. "Em nossa sociedade, a sogra tem um papel importante. é uma poderosa instituição matriarcal, e não apenas nos lares pobres. É ela quem decide quando se deve pedir ajuda", explicou o ginecologista. "Existe uma clara diferença entre como ela trata sua filha grávida e a nora grávida. Vejo isso todos os dias no hospital", afirmou.
A segunda demora ocorre na identificação de uma instituição médica e a chegada até ela. "Já a terceira, tem lugar no próprio hospital, onde não se dá o tratamento adequado. Muitos centros não oferecem cuidados 24 horas por dia e carecem de insumos e pessoal suficientes", acrescentou Syed. Além disso, há as barreiras de gênero, como a ignorância masculina a respeito dos problemas de saúde das mulheres e resistência destas em consultar médicos ou enfermeiros homens, explicou Nabila Zaka, funcionária de projeto de saúde feminina do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). "Necessitamos criar consciência em homens, mulheres, famílias e comunidades", além de capacitar melhor as parteiras, ressaltou Zaka. (IPS/Envolverde)

