Dubai, 30/03/2006 – Enquanto se processa o debate sobre a democratização do mundo árabe, o público e numerosos intelectuais do Oriente Médio se opõem à imposição do modelo ocidental e enfatizam que as reformas devem respeitar as especificidades da região. "A crença de que um modelo democrático pode ser exportado para qualquer lugar é um disparate e carece de credibilidade moral, depois da tragédia causada pelos Estados Unidos no Iraque", disse Omro Hamzawi, especialista do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, com sede em Nova York. "A democracia é uma demanda popular em alguns países árabes, mas não tanto no Golfo, pois o povo não sofre problemas econômicos severos e tem preocupações diferentes", explicou Hamzawi, em visita a Dubai, Emirados Árabes Unidos. "A situação deve ser manejada separadamente em cada caso. A democracia é inaceitável se afeta de maneira negativa a cultura que se supõe deve ser governada", acrescentou.
"Teremos maior êxito quanto mais duro trabalharmos para encontrar soluções próprias para as crises regionais, evitando nos mostrarmos como que cedendo às reformas por pressão estrangeira", disse o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), Abdul Rahman bin Hammad Al-Attiyah. "Deve haver um modo de implementar eficazmente uma política de modernização e combate aos problemas sociais como pobreza e analfabetismo ao mesmo tempo em que embarcamos na democratização e ativamos as organizações da sociedade civil", acrescentou Al-Attiyah, durante conferência que fez no Centro de Estudos estratégicos dos Emirados Árabes Unidos. No passado, o debate estava vinculado invariavelmente à resolução do conflito palestino-israelense, mas agora é o Iraque o exemplo do fracasso dos modelos estrangeiros de democracia na região.
A guerra no Iraque e a pressão de Washington sobre o Oriente Médio têm um impacto negativo, afirmou Bourhan Ghalioun, diretor do Centro para Estudos Orientais Contemporâneos da Universidade de Sorbonne em Paris. "Desde que o governo norte-americano lançou seu plano de promoção da democracia e desenvolvimento econômico no Oriente Médio como meio de enfrentar a "cultura" que alimenta o terrorismo, cometeu erros mortais, pois vincula seu projeto com a proteção dos interesses israelenses", acrescentou.
"A guerra para democratizar o Iraque foi o presente mais valioso que o governo dos Estados Unidos poderia dar aos ditadores do mundo árabe. É um exemplo prático do que significa a democracia para os norte-americanos. As nações árabes, por sua vez, vêem a guerra no Iraque como uma tentativa de assegurar o fornecimento de petróleo da região e a destruição de um país em benefício de Israel", explicou Ghalioun. Inclusive os cidadãos comuns acreditam que as condições sociais e culturais devem ser consideradas no projeto de uma reforma para a região, além de idéias e opiniões inovadoras.
"Muitos países da região têm novos líderes e tomam passos construtivos na melhoria do sistema político", disse Amer Moustafa, empregada em uma companhia de petróleo. "Mas a democracia não pode ser alcançada no curto prazo. Terá êxito se for planejada por etapas e levar em conta nossa cultura. Seria desastroso continuar, pura e simplesmente, o modelo ocidental", acrescentou. Alguns especialistas, entretanto, insistem em afirmar que é possível combinar de maneira equilibrada valores ocidentais e reformas domésticas. Nesse sentido, exortam os governos a manterem a mente aberta ao implementá-las.
Ao mesmo tempo em que advertiu que a pressão não funciona, o acadêmico Dawood Al-Azdi reiterou que os países árabes devem cooperar com o Ocidente mais do que se envolverem em um conflito. "O sucesso de nossa democratização estará na criação de um fórum para o diálogo multilateral, que pode criar um clima de confiança mútua", afirmou. Al-Azdi sugeriu que os árabes podem adaptar o sistema democrático da Índia mais do que o ocidental. "Os indianos têm seus problemas e os enfrentam, e nós também deveríamos atacar os nossos. Deveríamos começar arrancando a raiz da corrupção e estabelecendo critérios de transparência", afirmou.
Por sua vez, Ghalioun introduziu um matiz sobre a "pressão" ocidental. "É crucial para as reformas do mundo árabe, porque as organizações da sociedade civil são frágeis. Mas seria mais aceitável que a pressão sobre os regimes árabes procedesse de organizações internacionais como a ONU, mais do que dos Estados Unidos. O atual debate também sugere que, embora as reformas tenham melhores resultados ao serem implementadas pelos próprios governos, devem ser duramente rechaçadas se imposta de fora para dentro".
Os especialistas alertam que o processo enfrentará numerosos obstáculos. Alguns consideram que os reformistas deveriam concentrar seus esforços na educação, pois a população árabe desenvolveu uma "injustificada paranóia" contra todo tipo de reforma. O diretor-geral da Organização Árabe do Trabalho, Ebrahim Guider, afirmou que a região também deve alcançar o desenvolvimento econômico e acabar com o crescente desemprego. "É uma bomba de tempo que pode explodir a qualquer momento. O problema está nos governos corruptos, que impedem a integração dos países árabes", afirmou Guider. (IPS/Envolverde)

