Nações Unidas, 31/03/2006 – O presidente do Haiti, René Préval, visitou Washington e a Organização das Nações Unidas esta semana em busca de apoio da comunidade internacional e de investidores privados para enfrentar os urgentes problemas sociais e econômicos de seu país. O Haiti necessita de US$ 1,3 bilhão para atender as necessidades imediatas de sua população, segundo o Banco Mundial. "O apoio e a ação concreta da comunidade internacional são extremamente importantes para abordar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio", disse Préval no Conselho de Segurança.
Estes objetivos foram aprovados por chefes de Estado e de governo na Cúpula do Milênio realizada em Nova York em 2000. Entre eles figura reduzir até 2015, em relação aos níveis de 1990, pela metade o número de pobres e famintos do mundo, assim como educação primária universal, igualdade de gênero e redução da mortalidade infantil em dois terços e da materna em três quartos. Os líderes mundiais também se comprometeram a combater a propagação da aids, malária e outras doenças, assegurar a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre Norte e Sul.
Falando perante o Conselho de Segurança, o embaixador dos Estados Unidos na ONU, John Bolton, disse que seu país está comprometido a ajudar o Haiti em seu processo de reconstrução. "Até o final de 2006, Washington comprometerá quase US$ 500 milhões na reconstrução do Haiti e no regresso à democracia", afirmou. Há dois anos, organizações internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a ONU e o Banco Mundial, bem como doadores governamentais, entre eles a União Européia, destinaram pouco mais de US$ 1 bilhão à recuperação do Haiti.
Mas Préval pediu esta semana urgência "para um rápido desbloqueio dos fundos". Somente US$ 324 milhões do US$ 1 bilhão comprometidos chegaram ao Haiti, pois os doadores afirmaram carecer de garantias de que o dinheiro chegaria aos seus legítimos destinatários. Segundo o presidente haitiano, a reconstrução deve acontecer em três fases, a primeira delas concentrada na geração de empregos e distribuição de ajuda alimentar. "As pessoas estão em uma situação alimentar desesperadora. Têm de receber assistência de emergência", afirmou.
As segunda e terceira fases serão dedicadas à criação de infra-estrutura para apoiar as instituições políticas do Haiti, como o Congresso e a polícia, e incentivar os investimentos privados. Préval também exigiu uma ampliação das forças da ONU em seu país. Desde 2004, cerca de nove mil soldados das Nações Unidas estão no Haiti. Seu atual mandato expira em agosto, mas o Conselho de Segurança decidiu estendê-lo por mais seis meses. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, enfatizou perante o Conselho a importância do apoio internacional ao Haiti. As recentes eleições "deveriam nos animar a fazer esforços ainda maiores nesse país, que começa sua longa viagem para um futuro estável e democrático. Necessita e merece nossa ajuda para chegar a esse destino", afirmou.
Préval manteve, na terça-feira, uma reunião rápida em Washington com o presidente George W. Bush, que o felicitou e lhe garantiu que deseja trabalhar em conjunto com ele. O mandatário haitiano também se dirigiu à Organização dos Estados Americanos para descrever os desafios que sua presidência enfrenta e pedir apoio a esta instituição. "Devemos reformar o Estado para construir a nação, restaurar a produção nacional, desenvolver os recursos humanos e restabelecer um clima favorável para os investimentos", disse ao Conselho Permanente da OEA.
A presidente do Conselho, embaixadora Sonia Johnny, de Santa Lucía, disse que, "mais do que nunca, a comunidade internacional e continental necessita manifestar em termos políticos, econômicos e financeiros seu compromisso a longo prazo com a reconstrução social e econômica da república do Haiti". Na semana passada, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, se reuniu com líderes do Caribe para convencê-los a apoiar o novo governo haitiano. A Comunidade de Nações do Caribe (Caricom), que se negou a reconhecer o governo interino do Haiti liderado por Gerard Latortue depois da queda do presidente Jean Bertrand Aristide há dois anos, decidiu voltar a admitir este país em suas fileiras.
Segundo o último informe sobre Desenvolvimento Humano publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Haiti é o país mais pobre de toda a América. Também é um dos mais pobres do mundo, em 153º lugar entre 177 países avaliados por seu desenvolvimento humano. Mais de 48% da população é analfabeta, apenas 34% têm acesso regular a serviços sanitários e 23% das crianças pesam menos do que o peso correspondente às suas idades. Estes e outros indicadores do Haiti refletem décadas de exploração e corruptos governos elitistas.
Entretanto, este país se distingue por ser a primeira república negra independente do mundo, depois da revolta dos escravos africanos que derrubou o regime colonial francês em 1804. Mas os Estados Unidos ocuparam o território entre 1915 e 1934. Em 1957, um golpe militar levou François Duvalier (conhecido como Papa Doc) ao poder, com apoio de Washington. Seu filho, o igualmente brutal Jean Claude Duvalier (Baby Doc) ocupou o poder entre 1971 e 1986. A esperança voltou em 1991, com a eleição democrática de Jean Bertrand Aristide. Mas um ano depois, foi deposto pelo general Raoul Cedras, que estabeleceu um regime militar.
O Haiti foi então submetido a uma série de sanções econômicas, sendo a principal delas o embargo estabelecido pela ONU em maio de 1994 sobre todas as mercadorias que entravam no país, menos as correspondentes à ajuda humanitária, como alimentos e remédios. O setor de montagem industrial, dependente do mercado norte-americano, empregava quase 80 mil trabalhadores nos anos 80. Mas durante o embargo o emprego caiu gravemente. Os investimentos privados, tanto nacionais quanto estrangeiros, demoraram a retornar ao Haiti. Em julho de 1994, a ONU enviou uma missão de manutenção da paz ao país, com forte presença norte-americana. Três meses depois, Aristide voltou a assumir o poder.
Desde aquela restauração democrática, o setor de montagem industrial se recuperou gradualmente. Hoje emprega cerca de 20 mil pessoas, mas o crescimento ficou paralisado pela preocupação dos investidores quanto à segurança e confiabilidade dos fornecimentos. Préval, que foi presidente no período 1995-2000, entre os dos governos de Aristide, assumiu novamente no dia 7 de março. Porém herda um país afetado por severa pobreza, gangues violentas e agitação política. O trabalho de reconstruir o Haiti é "tão grande", disse Préval na OEA, que requer um diálogo nacional com todos os setores políticos do país para forjar um plano de desenvolvimento para o próximo quarto de século. (IPS/Envolverde)

