Biodiversidade: Satélite vai atrás de mistérios do gelo polar

PARIS, 03/04/2006 – É verdade que o gelo derrete no Pólo Norte mas aumenta no Pólo Sul? A missão européia Cryosat 2 promete responder esta e outras perguntas e, assim, aprofundar o conhecimento sobre a mudança climática. O satélite europeu Cryosat 2, que irá ao espaço em março de 2009, determinará pela primeira vez qual o ritmo de derretimento do gelo nos pólos, o que é vital para o conhecimento atual das alterações sofridas pelo clima do planeta, disse ao Terramérica o diretor da missão, Volker Liebig. O fracasso do lançamento do primeiro Cryosat, em outubro de 2005, foi um considerável tropeço para a comunidade científica mundial interessada em estudar o impacto do efeito estufa nas massas de gelo dos pólos.

No entanto, a Agência Espacial Européia (ESA), que dentro de seu programa de Observação da Terra havia organizado seu lançamento, não renunciou à missão e a relançará com nova tecnologia para garantir seu sucesso. "A missão do Cryosat, de medir as taxas de mudança do volume das massas de gelo dos pólos durante três anos, é crucial para compreender as conseqüências do aquecimento atmosférico", disse Liebig, diretor do programa de Observação da Terra da ESA. Até agora, as estimativas sobre o volume do gelo nos pólos está baseada em medições isoladas e com resultados contraditórios.

Por exemplo, algumas indicam que enquanto a superfície do Ártico, no Pólo Norte, diminuiu 9% em 30 anos, aumentou de maneira praticamente equivalente no mesmo período na Antártida. A missão do Cryosat 2, que foi aprovada em fevereiro, deverá fornecer informações definitivas a este respeito. "O Cryosat 2 deverá medir a espessura do gelo, tanto nos pólos quanto nos mares, para analisar o vínculo entre o derretimento dessas massas glaciais e o aumento do nível do mar, e como isso contribui para a mudança climática", disse Liebig.

O cientista explicou que para a ESA é importante examinar como estes fenômenos modificam a natureza da Corrente do Golfo, que determina o clima na Europa setentrional. "O clima em regiões européias, como as ilhas britânicas e os países escandinavos, é determinado pela Corrente do Golfo, que o torna muito diferente de zonas situadas a igual distância do Equador na América do Norte, como Canadá e Alasca. O degelo nos pólos seguramente mudará a natureza da Corrente do Golfo, afetando o clima da Europa do norte", disse Liebig.

Diferentes instâncias científicas estabeleceram que o degelo polar é constante há anos. Em setembro, o Centro Nacional de Informação sobre a Neve e o Gelo dos Estados Unidos (NSIDC) estimou que o gelo no Pólo Norte derrete ao ritmo de 8% a cada dez anos e que, mantida esta tendência, até o final do século XXI o gelo poderia desaparecer do Ártico durante o verão boreal. Segundo medições do NSIDC, a superfície gelada do Pólo Norte cobre 5,32 milhões de quilômetros quadrados, o menor registro desde o início das medições via satélite, em 1978.

Para confirmar e precisar tais medições, a partir de março de 2009 e durante três anos, o Cryosat 2 vai girar ao redor da Terra com inclinação muito alta e incomum para satélites meteorológicos, a fim de atingir 88 graus de latitudes Norte e Sul. "Para os satélites meteorológicos normais existe um ângulo cego, que os impede de observar determinados pontos da Terra. Para o Cryosat 2, este ângulo não existe", explicou Liebig. Além disso, um radar especial (Siral), que é o principal instrumento do satélite e operável sob todas as condições climáticas, terá a tecnologia mais avançada para obter medidas exatas da espessura das massas de gelo polar.

O Siral dispõe de duas antenas que enviam sinais de radar e recebem seus ecos refletidos pela superfície gelada dos pólos. As duas antenas funcionam como os olhos humanos, permitindo uma visão tridimensional das massas polares. O Siral opera em coordenação com o programa do Cryosat de medição de órbitas e posicionamento por rádio de alta precisão chamado Doris, complementado por um sistema alimentado por raios laser de retro-reflexão. Este complexo sistema de medições permitirá ao Cryosat 2 obter imagens milimétricas das superfícies inclinadas irregulares das massas de gelo polar, bem como do que flutua nos mares. Também será possível medir exatamente a velocidade de fluidez do gelo, permitindo conclusões sobre a intensidade da mudança climática.

Liebig esclareceu que a tecnologia de medições do satélite meteorológico não foi questionada pelo fracasso da primeira missão. "A queda do Cryosat deveu-se a um erro no foguete de lançamento. Sua tecnologia de observação funciona perfeitamente e é a mais avançada disponível", assegurou.

* O autor é correspondente da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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