Ho Chi Minh, Vietnã, 05/04/2006 – Os dirigentes comunistas do Vietnã estão enterrando suas diferenças com vistas ao X Congresso Nacional entre os dias 18 e 25 deste mês, cujo propósito é criar um plano capaz de tirar o país do subdesenvolvimento, mantendo o controle político total. O Congresso é convocado a cada cinco anos para eleger os líderes do Comitê Central e do Politburo (direção executiva) do governante e único Partido comunista (PCV), bem como os altos cargos de governo, presidente, primeiro-ministro e presidente da assembléia nacional legislativa.
O Congresso acontecerá enquanto o Vietnã negocia seu ingresso na Organização Mundial do Comércio e realiza esforços para acompanhar o passo da economia global. Este país também se prepara para ser anfitrião da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) formada por 10 nações, algumas com economias solventes, como Malásia, Cingapura e Tailândia. Outros membros são Brunei, Birmânia, Camboja, Filipinas, Indonésia e Laos.
Os membros do Comitê Central e do Politburo e o PCV estão divididos. Todos concordam quanto à necessidade de reformas econômicas, mas alguns se inclinam pelo modelo chinês, uma economia aberta controlada por uma ditadura política dura, enquanto outros acreditam que os bons resultados serão obtidos com uma economia de mercado em um contexto mais democrático. A controvérsia é tão grande dentro do Comitê Central que este decidiu consultar o povo, ou alguns de seus cidadãos, em busca de idéias que fariam parte de um rascunho do informe político a ser apresentado no Congresso.
Desde fevereiro, funcionários de primeiro escalão, quadros médios, veteranos revolucionários, intelectuais, estudantes e cidadãos residentes no exterior participam com entusiasmo da geração de mais de 1.500 idéias. Algumas foram publicadas em jornais e sites da Internet oficialistas. O Comitê Central as incluirá em um informe de 22 páginas que poderia ajudar o Congresso a desenhar políticas e medidas capazes de superar a pobreza e eliminar a corrupção. Apesar dos êxitos dos últimos cinco anos, como o crescimento do produto interno bruto de 7,5% anual e o progresso na erradicação da pobreza e da fome, o Vietnã continua sendo um dos países mais pobres do mundo, e, também, conhecido por sua burocracia, corrupção e falta de transparência.
Para enfrentar estes problemas o rascunho do informe sugere que nos próximos cinco anos sejam feitos esforços para "melhorar a capacidade de liderança do partido e seu espírito de luta, desenvolver o poderio de todo o país e acelerar o processo de reforma". O objetivo é assentar as bases de um país industrializado até 2020. Algumas propostas foram muito audazes a ponto de questionar a legitimidade da liderança do PCV e a racionalidade do "socialismo voltado ao mercado". A debilidade dos dirigentes se deve ao seu afastamento do marxismo-leninismo", explicou em um artigo publicado no órgão oficial partidário Nhan Dan, um ex-membro do politburo e importante teórico, Ngyen Van Binh. Os líderes mais destacados perderam seu espírito revolucionário e a perspectiva comunista, afirmou.
Em lugar de incentivar o setor estatal da economia, os dirigentes favoreceram o desenvolvimento do setor privado e permitiram que os quadros partidários estabelecessem seus próprios negócios, argumentou Binh. Para que o partido cumpra sua "missão histórica?, deve "seguir firmemente o caminho do marxismo-leninismo e continuar sendo a força que abre novos caminhos para a classe trabalhadora. Os quadros comunistas não devem se transformar em capitalistas", afirmou. A opinião de Binh não é compartilhada por muitos comunistas. Os argumentos conservadores se perdem rapidamente em um monte de comentários progressistas, alguns reclamando o aprofundamento do processo "doi moi" (de reestrutura). Outros sugerem abandonar o socialismo por considerá-lo um entrave ao desenvolvimento.
O PCV deve primeiro se renovar, segundo Nguyen Trung, ex-embaixador na Tailândia e Austrália e membro do grupo assessor sobre economia estrangeira do primeiro-ministro. "Esta é uma oportunidade sem igual para o partido", afirmou à imprensa. Trung acusou os líderes de carecerem de "virtudes e capacidades intelectuais para levar adiante a missão do partido e conduzir o povo pelo caminho do rejuvenescimento do país. A burocracia, a corrupção e o negativismo são os sinais mais evidentes da falta de virtude de nosso partido", escreveu Trung, exortando o Congresso a assumir o valor de "enfrentar a verdade" e democratizar a força governante.
Muitos observadores concordam com Trung, reclamam mais dinamismo e criatividade. Do seu ponto de vista, não há nada novo no informe e, como sempre, faltam medidas concretas para os problemas de corrupção, burocracia e atraso. "Para ser franco, tinha muitas esperanças de que haveria mudanças. No título do informe pode-se ler "plano de inovação totalmente melhorado", fazendo crer que o sistema ideológico e o enfoque da liderança seriam renovados e aprofundados", disse Says Phan The Hai, ex-correspondente de economia da revista Notícias Econômicas do Vietnã. As palavras são "muito bonitas", mas não correspondem com o que há em seu interior, acrescentou.
No relatório abundam frases com "socialismo voltado para uma economia de mercado" e "democracia centralizada (ou socialista)", que levam os críticos a qualificá-lo de "vago e contraditório". Afirmações como "construindo um país socialista voltado ao mercado" simplesmente não têm sentido porque o país não é socialista nem está voltado ao mercado, disse Le Hong Ha, ex-membro destacado o PCV. Uma das expressões recorrentes que surgiram das consultas foi "democracia", que aparece também em vários artigos do ex-primeiro-ministro Vo Van Kiet, que acusou o PCV de práticas antidemocráticas afastadas do ideal do herói nacional e fundador do partido, Ho Chi Minh (1890-1969) para transformar o Vietnã em um país democrático. Reclamou que inicialmente o país se chamou República Democrática do Vietnã, para depois passar a República Socialista do Vietnã.
Muitos sugerem que o PCV analise a realidade do marxismo-leninismo no mundo de hoje. "O marxismo-leninismo é como uma luz que se apaga, e não é lógico que uma tocha agonizante guie nosso país", disse Dang Van Viet, legendário herói de guerra. "Se a abertura teve grandes resultados quanto ao desenvolvimento econômico, por que não aplicá-la à política? É tempo de abertura política", argumentou o advogado Le Cong Dinh, residente em Ho Chi Minh.
Os observadores dizem que em comparação com idéias subversivas de dissidentes políticos (como revogar o artigo 4 da Constituição que assegura a liderança absoluta do PCV), as contribuições dos cidadãos foram, em geral, tímidas, reservadas e razoáveis para fomentar a linha "doi moi". Os pessimistas dizem que não é a primeira vez que o partido faz consultas públicas, mas nunca as leva em conta. "É apenas propaganda. Não acontecerá nada enquanto o PCV for o dono da verdade", disse o escritor Tran Manh Hao, ex-membro do partido.
Alguns observadores recordaram que em 1956 o PCV fomentou as críticas públicas ao partido para depois cortá-las abruptamente, reprimindo a liberdade de expressão e se tornando mais conservador. Outros desconfiam da presença de uma delegação do Partido Comunista Chinês nas reuniões preliminares do Congresso, interpretada como um sinal de que o PCV está se voltando para uma linha política dura. Não é a primeira vez que os chineses enviam delegados às sessões prévias do Congresso para apoiar seus favoritos. A sorte está lançada. O X Congresso decidirá o caminho. (IPS/Envolverde)

