América Latina: Nacionalismo complica negócios brasileiros

Belo Horizonte, 05/04/2006 – O nacionalismo, que ganha força em novos governos da América do Sul, parece se converter em obstáculo à integração regional através dos negócios como pretende o Brasil, conforme indicam discussões da 47ª Reunião Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que termina hoje em Belo Horizonte. "A exploração de gás natural não pode ser um negócio privado, tem de ser um serviço público; o governo boliviano necessita de sócios, não de patrões", afirmou o presidente da Bolívia, Evo Morales, ao participar da inauguração oficial do encontro, na segunda-feira.

Seu discurso em defesa da nacionalização dos recursos naturais como solução para os problemas econômicos e sociais de seu país ameaça as grandes empresas de petróleo que operam na Bolívia, incluindo a Petrobras, maior investidor nesse país. A presença de Morales na reunião do BID permitiu o reinício da negociação sobre a presença da Petrobras, que já investiu US$ 1,5 bilhão na Bolívia e é a única empresa com forte participação em toda a cadeia produtiva de petróleo e gás natural, desde a exploração e o refino até o transporte e a comercialização.

Dos 40 milhões de metros cúbicos de gás consumidos diariamente no Brasil, 27 milhões chegam da Bolívia, através de um extenso gasoduto construído e controlado por empresas da Petrobras. Mas o novo governo boliviano pretende aplicar a Lei de Hidrocarbonetos, recentemente aprovada nesse país, e impor a propriedade estatal das jazidas de hidrocarbonetos, convertendo a empresas estrangeiras em prestadoras de serviços. As negociações com o Brasil estão centradas nos efeitos práticos dessa decisão. São negociações a portas fechadas, já que o governo brasileiro, representado por diplomatas e pelo assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, rejeitou um debate "através da imprensa", argumentando que declarações públicas de dirigentes bolivianos estão criando tensões.

Em 10 dias, uma missão boliviana deverá discutir questões mais concretas e técnicas com a direção da Petrobras no Rio de Janeiro. "Foram destravadas" as negociações, afirmou Garcia, adiantando que a Petrobras não poderá ser tratada com simples prestadora de serviços, já que se trata de uma produtora de energia. Morales assegurou que não vai expropriar os ativos das empresas instaladas em seu país, mas não irá tolerar o "saque" dos recursos naturais e ainda que está aberto a alianças que implementem políticas energéticas comuns na América do Sul.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é outro governante mencionado por economistas, ministros, banqueiros e funcionários internacionais que participam da reunião do BID como um representante da esquerda ou, para muitos, do "populismo" que está chegando ao poder em alguns países sul-americanos. O Brasil enfrenta com a Venezuela outro tipo de bloqueio aos seus negócios. Chávez confirmou que havia cancelado a compra de 24 aviões de treinamento Super tucano, fabricados pela Embraer, por causa de um veto do Estados Unidos.

Alguns componentes dos aviões brasileiros contêm tecnologia norte-americana, por isso sua exportação está sujeita a autorização prévia de Washington. "Sinto pelo Brasil", mas a operação teve de ser cancelada, disse Chávez na segunda-feira na base aérea Joaquín Veroes, a 200 quilômetros de Caracas. Para o veto norte-americano contribuíram as relações entre Venezuela e Estados Unidos, que consideram o governo Chávez como "uma força desestabilizadora" na América Latina. Assim, o Brasil perdeu um negócio estimado em US$ 200 milhões.

De todo modo, o Brasil cumpre a função de "desdramatizar" as tensões entre Washington e Caracas, segundo Garcia. O atual governo brasileiro, apesar do passado esquerdista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu Partido dos Trabalhadores, tem boa acolhida nos Estados Unidos e nas instituições financeiras internacionais, o que lhe permite mediar nas relações com governos latino-americanos situados mais à esquerda do espectro político. Os ministros brasileiros presentes ao encontro do BID, Guido Mantega, da Fazenda, e Paulo Bernardo, do Planejamento, reiteraram que o País continuará buscando a integração regional e manterá a política econômica, com suas metas inflacionárias e fiscais, num discurso esperado pelos banqueiros.

É uma orientação que prosseguirá, não importando o resultado das eleições presidenciais de outubro, nas quais Lula tentará a reeleição, já que "os valores de responsabilidade fiscal e estabilidade monetária foram incorporados pela sociedade brasileira" e não há razões para mudanças, pois os fundamentos econômicos são sólidos, afirmou Mantega. Mas não faltaram advertências de que a situação mundial favorável às economias latino-americanas logo possa evaporar. A excessiva liquidez no mercado financeiro internacional reduziu o custo de captação de recursos, mas "a era do dinheiro fácil está terminando", segundo William Rhodes e Charles Dallara, do Instituto de Finanças Internacionais, uma associação mundial de bancos. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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