Palestina: Colaboracionistas de Israel entre a morte e o limbo

Jerusalém, 06/04/2006 – Quando Rashid Abu Shabak assumiu as forças de segurança da Autoridade Nacional Palestina (ANP), no ano passado, a imprensa o chamou de "caçador de colaboracionistas", porque havia prendido mais de cem suspeitos de passarem informação de inteligência para Israel. Muitos foram presos ilegalmente e executados. Mas muitos mais foram assassinados por milícias da resistência palestina, segunda organizações de direitos humanos. Desde que começou em 2000 a segunda Intifada (levante contra a ocupação israelense), pelo menos 72 palestinos foram fuzilados, esfaqueados e atacados com granadas por trabalharem para as forças de Israel, um crime tão velho quanto os 58 anos do Estado judeu.

"Os palestinos nem mesmo podem apresentar denúncias penais contra concidadãos acusados de espionar para as forças de segurança de Israel", disse à IPS Hamdi Shaqqura, diretor da unidade de desenvolvimento democrático do Centro Palestino para os Direitos Humanos em Gaza. Nem todos os colaboracionistas são assassinados. Os partidos políticos costumam dar-lhes oportunidade de se reabilitarem para que "virem a página de suas vidas", disse à IPS Shawan Jabarin, diretor-geral interino da al-Haq, uma organização de direitos humanos de Ramalá.

Outro sinal positivo é que há cada vez mais os suspeitos de espionagem que vão a julgamento. Shaqqura disse que no ano passado houve apenas cinco assassinatos extrajudiciais, uma notória redução em relação aos 22 de 2004 e os 12 de 2003. O respeito ao devido processo "é uma de nossas demandas à ANP", acrescentou. "Definitivamente, dá frutos. Mas isto não significa que estamos a favor da pena de morte". O Centro Palestino para os Direitos Humanos considera que os colaboracionistas são criminosos de guerra e merecem penas de prisão. Seu propósito é pressionar o novo governo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) para que tome esse caminho legal.

Julgamentos justos com sentenças adequadas podem salvar vidas inocentes. Nasser Nushtaha, por exemplo, foi seqüestrado pelo Hamas em 2004 e assassinado durante o interrogatório a que foi submetido. No final, ficou comprovado que era inocente. Azzam Azzam, um operário têxtil druso israelense, proclamou sua inocência ao ser acusado pelo Egito, em 1997, de ser espião de Israel. Seus oito anos na prisão são uma amostra da sorte que podem ter os colaboracionistas. Seus raptores egípcios o penduraram de cabeça para baixo e lhe aplicaram choque elétrico e submarino, contou Azzam em um encontro com estudantes da Universidade de Hebron em Jerusalém.

Azzam perdeu 18 quilos em uma semana e foi transferido para uma diminuta cela de 3,5 metros quadrados conhecida como "o túmulo". Dormiu no chão frio e foi obrigado a fazer suas necessidades em um balde. Azzam atribui o que passou ao começo do governo de Benjamin Netanyahu naquele ano. "Os egípcios não gostaram que o (direitista) Likud governasse. Fui vítima disso", afirmou. Os verdadeiros traidores freqüentemente são obrigados pelas circunstâncias, disse Jabarin. Os palestinos que passam por dificuldades econômicas, e, sobretudo os que não podem trabalhar por causa das restrições de circulação impostas na fronteira pelo governo israelense, se vêem tentados por recompensas econômicas, explicou.

Muitas vezes, os palestinos também são torturados e extorquidos para que renunciem aos seus princípios e espionem para Israel, uma situação documentada por várias declarações juramentadas, afirmou Jabarin. "Os israelenses os colocam em perigo. Os obrigam a fazer o trabalho sujo. Não apenas que forneçam informações, mas que matem outros". Há opiniões coincidentes com relação à posição em que ficam as famílias dos colaboracionistas palestinos, já que alguns de seus delitos as afetam injustamente. Alguns consideram que o delito é um ato individual e não compromete o bom nome de todos os integrantes. Mas há famílias que denunciam hostilidades de sua comunidade, que vê todos seus membros como culpados.

Claro que nem todos os palestinos são compreensivos com os motivos dos informantes e se alegram quando o governo de Israel os leva. Isto aconteceu muitas vezes. Em 2002, militares israelenses invadiram prisões e campos de detenção e resgataram seus ex-espiões. Uma vez em Israel, o problema é se integrar à sociedade. Os serviços de segurança intercedem junto aos tribunais para que consigam documentos de identidade e dinheiro, e procuram garantir-lhes direitos cidadãos e serviços básicos. Mas estas tentativas nem sempre dão resultado. "Nenhuma sociedade do mundo respeita os colaboracionistas. Os consideram lixo", disse Jabarin. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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