Eleições na Itália: A hora da centro-esquerda

Roma, 10/04/2006 – Os italianos se prepararam para votar neste domingo com uma certeza: a direita foi incapaz de responder às exigências de trabalho, segurança e bem-estar que Silvio Berlusconi havia interpretado nas eleições de 2001 que ganhou ao passar a imagem de um governo que melhoraria as condições de vida da população. Este governo fracassou por sua incapacidade de renovar o país e de torná-lo mais moderno e competitivo porque não soube mobilizar suas melhores aptidões: a cultura, a criatividade, o trabalho, a solidariedade. Com seus desacertos colheu o que, talvez, seja o mais grave efeito de sua política: a divisão da sociedade italiana.

O resultado está à vista: um país lacerado por conflitos e não só debilitado social e economicamente, mas, também, decaído no cenário internacional. O governo de Berlusconi se afastou da tradicional política de paz da Itália. Essa política que, por exemplo, converteu este país durante longo tempo no centro do diálogo entre os povos do Mediterrâneo, não é uma política de esquerda. É uma política italiana e foi compartilhada durante décadas pela Democracia Cristã, pelo Partido Socialista e pelo Partido Comunista.

Cabe agora à nossa coalizão de centro-esquerda enfrentar o grande desafio de promover a justiça social, a inovação, a mudança e restituir dinamismo à sociedade italiana mediante a construção de uma aliança entre as forças do mundo empresarial, trabalhista e da cultura. Diante das eleições de 1996 a mensagem de nosso candidato Romano Prodi foi clara e simples: a Itália enfrentava o risco de se distanciar da Europa. Nesse quadro, o governo de centro-esquerda, ao realizar esforços e sacrifícios para avançar junto com seus sócios continentais e formar parte da vanguarda de países que criaram a moeda única européia, deu um impulso à modernização do país.

Vemos hoje na Europa uma realidade mais problemática. Agora temos de nos perguntar menos com a Europa pode ajudar a Itália e mais o que podemos fazer para dotar a Europa das condições para estimular o crescimento inovador e a competitividade em toda a região. Necessitamos de uma Europa mais forte e capaz de coordenar as políticas econômicas de seus integrantes, pois sem isso é insustentável a longo prazo uma área com uma moeda comum. Necessitamos uma Europa liberada de um monetarismo ortodoxo, não por oposição ao indispensável rigor orçamentário, mas porque esse rigor deve distinguir entre o gasto público corrente e os investimentos. E no contexto dos investimentos deve-se privilegiar a qualidade, a inovação e a produção de riqueza.

Essa Europa não existe hoje em dia. Portanto, a questão fundamental que deve ser encarada por um governo de centro-esquerda é colocar a Itália na primeira linha da reflexão para retomar o caminho da carta constitucional européia, estimulando o diálogo com base nos princípios e nas grandes opções constitucionais. Ao mesmo tempo, temos de projetar novas experiências no campo da cooperação e, em especial, temos de intensificar a aproximação com a Grã-Bretanha, interlocutor indispensável para a formação de uma política externa e de uma política de defesa que convertam a Europa em uma grande potência de paz. Trata-se de um requisito para o estabelecimento de uma ordem mundial multilateral, já que, enquanto não aparecerem novos protagonistas com a capacidade de assumir responsabilidades no cenário global, este objetivo continuará sendo matéria de debate, mas não de uma prática política concreta.

As mudanças aqui enunciadas devem constituir os primeiros sinais de uma virada com relação a uma política que marginaliza a Itália da Europa e contribui para a divisão da Europa em lugar da busca de soluções comuns, e foi obstáculo nos processos de integração comunitária em diversos planos e particularmente nos da justiça e segurança comuns. Identifico nestas esferas os erros mais graves e as opções mais negativas do governo da direita, já que comprometeram e afetaram o perfil internacional da Itália.

O objetivo da coalizão de centro-esquerda é o de trabalhar para unir a sociedade italiana com passo indispensável para que nosso país volte a caminhar rumo ao progresso e à inovação, e participe como ator de uma globalização que tenha um sentido diverso da guerra e das injustiças que presenciamos nestes anos. Como o governo da globalização mediante a política implica o fortalecimento das grandes instituições supranacionais – as Nações Unidas e a União Européia, em primeiro lugar – a política externa italiana deve operar para que essas instituições desempenhem um papel de protagonistas no ordenamento mundial (IPS/Envolverde)

(*) Massimo D'Alema, ex-primeiro-ministro da Itália e presidente do Partido Democráticos de Esquerda, que integra a coalizão de centro-esquerda.

Correspondentes da IPS

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