Nepal: Oposição ao rei se consolida em meios às balas

Katmandu, 11/04/2006 – Mais de um ano depois do golpe de Estado do rei Gyanendra do Nepal, a oposição obteve apoio maciço em razão da indignação que causou a morte a tiros de três manifestantes nos protestos do final de semana. Os manifestantes, liderados por dirigentes juvenis da aliança dos sete principais partidos de oposição, desafiaram o toque de recolher na capital e outras cidades, declararam "zonas republicanas" e incendiaram propriedades do governo. Pela primeira vez se destacou a presença nos protestos de funcionários do Estado, com faixas negras nos braços. A polícia reprimiu as manifestações, o que resultou na morte de três manifestantes no sábado e no domingo, os dois últimos dias da greve convocada pela oposição.

Domingo é dia de trabalho no Nepal, único reino hindu do mundo, localizado entre Índia e China, nas montanhas do Himalaia. "Todos apóiam o movimento de oposição. Nas manifestações de domingo houve, inclusive, funcionários do governo", disse à IPS o diretor de uma organização não-governamental radicado na cidade de Ilam, no extremo oriental do país. "Os moradores acreditam que se isto continuar acontecerá o mesmo que em 1990", segundo o ativista. Na época, o rei Birendra se viu obrigado, após meses de manifestações populares, a restaurar a democracia multipartidária, explicou.

Birendra morreu em junho de 2001, junto com sua mulher, quatro filhos e outros três membros da família real nas mãos do então príncipe herdeiro Dipendra, também morto no incidente. O atual monarca ainda não mostrou nenhuma reação pública à greve da semana passada. Em todo o Nepal houve dezenas de feridos em choques entre manifestantes e policiais, no domingo. Os presos pelos incidentes somam centenas. Em Chitwan, 150 quilômetros ao sul de Katmandu, perto da fronteira com a Índia, Tulasi Chhetri, de 32 anos, foi atingida por uma bala disparada por policiais enquanto observava um protesto, no sábado, e morreu no dia seguinte. Outro disparo feito por um soldado também tirou a vida de Bhimsen Dahal, na manhã de sábado na cidade turística de Pkhara.

Duas pessoas ficaram feridas quando as forças de segurança abriram fogo contra a manifestação. As mortes de Chhetri e Dahal desataram a ira da população. Milhares de pessoas invadiram, no domingo, as ruas de grandes cidades e poeirentos povoados, apesar do toque de recolher em vigor desde as 10 horas da manhã. Outra manifestante morreu e dois ficaram feridos, também no domingo, quando os policiais dispararam contra a multidão que acompanhava o funeral de Dahal, em seu distrito natal de Kavre, perto de Katmandu, onde foi declarado o toque de recolher entre 5 horas da tarde e 4 horas da manhã. Outras quatro pessoas ficaram feridas quando a polícia disparou para reprimir um protesto no distrito de Nawalparasi.

No domingo, em Pokhara, onde o toque de recolher vigorava desde as 9 horas da manhã, duas pessoas ficaram feridas quando a polícia abriu fogo contra uma manifestação. "Os partidos políticos estão nas ruas", disse à IPS por telefone o empregado de um hotel em Pokara. "Os dirigentes estão escondidos e repentinamente aparecem e atacam a polícia", acrescentou, garantindo que "ninguém mais sai de casa". Ao mesmo tempo em que reprimem os protestos, as forças de segurança devem vigiar eventuais ataques da insurgência maoísta. Os rebeldes controlam 80% das áreas rurais, mas desde janeiro lançam ataques contra cidades, incluindo postos de polícia do bastante vigiado Vale de Katmandu.

Na sexta-feira, dois soldados, um policial e dois civis morreram quando milhares de rebeldes atacaram bases de segurança e repartições governamentais em dois distritos do sul do país. Na operação morreram 14 rebeldes, segundo informe oficial. No décimo-primeiro ano de levante para pôr fim ao regime monárquico e acabar com a discriminação contra mulheres, indígenas e dalits (nível mais baixo do regime de castas hindu), os rebeldes controlam boa parte do interior do Nepal.

Há mais de um ano, em 1º de fevereiro de 2005, o rei Gyanendra praticou um golpe de Estado, alegando que o governo civil não dava sinais de acabar com a rebelião. O conflito armado já fez mais de 13 mil vítimas em dez anos. Porém, o monarca ainda não deu mostras de acabar com a insurgência e sua estratégia de mão dura provocou queixas por parte de Estados Unidos, Grã-Bretanha e Índia, o que o privou da vital assistência militar. A polícia e os soldados dispararam balas de borracha contra os manifestantes do final de semana, mas, em alguns casos, foi usada munição comum. O escritório da Organização das Nações Unidas condenou a repressão em Pokhara.

"Os disparos feitos por um soldado de um edifício contra manifestantes que atiravam pedras contra a polícia na rua, matando uma pessoa, constituem uma clara violação dos princípios internacionais de manutenção da lei", diz uma declaração divulgada pelo escritório das Nações Unidas. "De nossas investigações resulta claro que o soldado recorreu à força excessiva em uma situação sem ameaça direta à vida", acrescenta o comunicado. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, havia advertido o regime de Gyanendra que não deveria negar aos cidadãos o direito de protesto pacífico.

Diversos governos com influência sobre Katmandu, incluindo os da Índia, Estados Unidos, Japão e União Européia, também condenaram as prisões preventivas, o toque de recolher e a proibição de manifestações. A força antimotins havia detido, na quinta-feira, 400 pessoas no Vale de Katmandu, vizinho à capital, e outras 250 no resto do país, segundo a imprensa. No domingo, cerca de 20 ativistas e jornalistas ficaram feridos pelos golpes desferidos por policiais no distrito de Doti. Um hospital de Katmandu informou no domingo que estava tratando de uma dezena de pessoas feridas com balas de borracha. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *