México, 13/04/2006 – Governos e políticos latino-americanos advogam por seus compatriotas, que se mobilizam como nunca antes, em favor de seus direitos nos Estados Unidos, onde formam a maior coletividade de imigrantes. O presidente do México, Vicente Fox, disse na terça-feira que as maciças manifestações registradas no vizinho do norte, reclamando leis de imigração em benefício de milhões de ilegais, representam "uma expressão democrática de um tema que deve ser resolvido" rapidamente.
Centenas de milhares de pessoas realizam, desde o final de março, manifestações de rua em várias cidades norte-americanas, exigindo dos legisladores e do governo uma reforma migratória integral. Somente entre domingo e segunda-feira, essas manifestações reuniram mais de dois milhões de pessoas. O Senado suspendeu, na semana passada, por 15 dias, seus debates sobre um projeto de reforma migratória, depois de não conseguir um acordo sobre propostas acertadas previamente entre líderes do governante Partido Republicano e do opositor Partido Democrata.
Esse projeto estabelece, entre outras coisas, conceder residência e direito de pedir a cidadania aos estrangeiros que vivem no país há mais de cinco anos, enquanto os que moram entre dois e cinco anos podem pretender um visto de trabalho temporário, mas tendo de retornar aos seus países e seguir o trâmite como qualquer outra pessoa que busca entrar legalmente nos Estados Unidos. A iniciativa também contém medidas de reforço da segurança na fronteira e um novo programa de trabalhadores convidados (um visto de trabalho temporário sem direito a reivindicar residência).
O presidente de El Salvador, Antonio Saca, pediu aos seus compatriotas paciência sobre o debate em curso nos Estados Unidos. Porém, se declarou otimista e disse que "é bom ter amigos congressistas (nesse país) para conseguir que resolvam os problemas de nossa gente". No Equador, o presidente do Congresso, Wilfrido Lucero, enviou uma carta ao líder da maioria republicana no Senado dos Estados Unidos, Bill Frist, pedindo apoio a normas que regularizem a condição migratória das pessoas sem documentos.
Também familiares de imigrantes nos Estados Unidos colocaram mordaças e se acorrentaram pelos pés em uma sede religiosa de Quito, em solidariedade às marchas realizadas. Por outro lado, várias crianças se colocaram diante da embaixada de Washington na capital equatoriana portando cartazes que diziam: "queremos ver nossos pais" e "não somos criminosos". Este último, uma referência a outro projeto de reforma migratória, defendida pelos republicanos e aprovado em janeiro pela Câmara de Representantes, no qual se estipula que serão consideradas criminosas as pessoas sem documentos de residência no país, bem como quem as empregar ou ajudar. Além disso, determina ampliação do muro na fronteira com o México, entre outras medidas.
Na Colômbia, a senadora liberal Piedad Córdoba, chefe do movimento Poder Cidadão Século XXI, exortou para que se trabalhe no sentido de os imigrantes ilegais "não serem vistos como criminosos". Se os Estados Unidos "querem tratados de livre comércio para nos inundar com seus produtos subsidiados às custas da produção nacional, também deveriam liberar a circulação de mão-de-obra e começar a fortalecer uma cidadania global", afirmou. Bogotá e Washington estão em plena negociação de um acordo comercial desse tipo.
Na América Latina acompanha-se com atenção o debate sobre as reformas migratórias. Aproximadamente 40 milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos são latino-americanos por nascimento ou ascendência, o que faz com que sejam a maior coletividade de imigrantes nesse país. Os latino-americanos nos Estados Unidos são responsáveis pelo envio para suas famílias de cerca de US$ 45 bilhões em 2004, o dobro do que era transferido há uma década. Trata-se de recursos que ajudam em muito a economia regional e resgatam da pobreza mais de 2,5 milhões de pessoas, segundo estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
O escritório de censos dos Estados Unidos prevê que a população "latina" (por sua origem latino-americana) aumentará em 200% até 2050, enquanto a população geral o fará somente em 50%. Entre janeiro e março, delegados dos governos de cinco países da América Central, mais Colômbia, República Dominicana e México, se reuniram em três oportunidades para analisar a questão migratória e buscar em conjunto uma reforma que beneficie seus compatriotas nos Estados Unidos. O presidente da Guatemala, Oscar Berger, indicou que esses encontros buscam "unir esforços" para defender os interesses dos imigrantes, que "com seu trabalho colaboram com a economia norte-americana e com o desenvolvimento de nossos países".
Entre dez milhões e 12 milhões de estrangeiros que moram nos Estados Unidos não têm os documentos necessários para legalizar sua situação. A maioria é de latino-americanos que trabalham em empregos mal remunerados e, em muitos casos, sem direitos trabalhistas. Além disso, cerca de 400 mil burlam anualmente todo tipo de controle de entrada no país e se somam à população norte-americana. Para 1º de maio, os imigrantes, que se autodenominam "o gigante adormecido", prometem sair novamente às ruas e realizar uma paralisação total de atividades.
"As marchas dos imigrantes é um fenômeno histórico que possivelmente derive em uma reforma migratória. O que não sabemos ainda é qual será seu alcance", disse à IPS o analista Sergio Peláez, da Universidade Nacional Autônoma do México. O caminho ainda é longo para qualquer iniciativa. A proposta apresentada no Senado ficou paralisada pelo menos por duas semanas e, se prosperar, deverá conciliar-se com a da Câmara de Representantes. A última reforma migratória significativa nos Estados Unidos, que favoreceu com uma anistia aos estrangeiros ilegais, grande parte deles mexicanos, foi promulgada em 1986 pelo então presidente Ronald Reagan (1981-1989), após ser discutida durante cinco anos no Congresso. (IPS/Envolverde)

