Nações Unidas, 18/04/2006 – A Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas parece disposta a acompanhar os Estados Unidos e Israel em sua campanha de isolamento da Palestina, em um giro político que pode desatar novo ciclo de violência, segundo analistas e observadores independentes. Apesar de contradizer a posição majoritária da Assembléia Geral e do Conselho de Segurança, os contatos políticos de funcionários da ONU com autoridades palestinas deverão ser autorizados pelo secretário-geral, Kofi Annan.
"A situação não ficou igual depois das eleições" que deram o governo da Palestina ao Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), afirmou, na semana passada, o porta-voz de Annan, Stephane Dujarric. Os funcionários da ONU deverão pedir permissão ao secretário-geral antes de conversarem com representantes do governo palestino eleito em janeiro, explicou Dujarric. O Hamas é considerado uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos e alguns países europeus. Em sua carta constitutiva, o movimento nega o direito à existência do Estado de Israel.
A decisão da ONU de boicotar o Hamas não se justifica, pois nem a Assembléia Geral, nem o Conselho de Segurança, aprovou alguma resolução declarando esse movimento como terrorista, segundo críticos da posição das Nações Unidas. "Uma coisa é os Estados Unidos tratarem a legalidade internacional sem atenção, e outra totalmente diferente é a ONU, nossa última esperança de um sistema mundial baseado sobre o estado de direito, seguir seus passos", disse Nasser Aurir, autor de vários livros e professor de Ciências Políticas da Universidade de Massachusetts.
A decisão de Annan, de manter distância do novo governo palestino, parece ser uma reação à negativa do Hamas em reconhecer o Estado de Israel. Contudo, observadores a consideram uma atitude injusta, porque Israel, que viola acordos internacionais, tampouco reconhece a Palestina nem renuncia à violência como enfoque para a resolução do conflito. "A adesão da União Européia e da ONU a uma variante do boicote imposto (por Estados Unidos e Israel) contra o governo palestino democraticamente eleito, bem como sobre um povo que sofre uma brutal ocupação, é surpreendente", acrescentou Aruri.
Apesar de ter decidido restringir as relações com funcionários palestinos, a ONU assegurou que continuará fornecendo assistência humanitária nos territórios árabes ocupados por Israel. De todo modo, os observadores do conflito advertem que os cortes na ajuda européia e norte-americana já têm impacto sobre as condições de vida da população palestina. Os palestinos registrados na agência das Nações Unidas para os Refugiados na Cisjordânia e Gaza (UNRWA) conseguem acesso à ajuda alimentar, mas os estoques estão diminuindo por causa do bloqueio israelense aos territórios ocupados, segundo ativistas humanitários.
A Autoridade Nacional Palestina deve salários a cerca de 150 mil funcionários públicos, que representam, junto com suas famílias, um terço da população. "Estão deslizando rapidamente para a pobreza", disse Nadia Hijab, do Instituto de Estudos Palestinos, organização acadêmica árabe independente. "A situação piora com o clima de medo e incerteza que reina nas organizações humanitárias, cujos integrantes não sabem até que ponto poderão tratar com funcionários palestinos sem que sejam acusados pela justiça norte-americana", acrescentou Hijab.
A organização humanitária católica Oxfam Internacional questionou, na sexta-feira, a União Européia por ter suspendido a entrega de US$ 37 milhões já destinadas à Autoridade Nacional Palestina. A entidade advertiu que a decisão afeta a população e não as autoridades. Segundo diversas versões, o chanceler da Palestina, Mahmoud Zahar, enviou na semana passada uma carta a Kofi Annan para manifestar o compromisso de seu governo com uma solução para o conflito árabe-israelense que contemple a existência de dois Estados.
"Se Israel evacuar a Cisjordânia e Jerusalém oriental, reconhecer o direito dos exilados palestinos retornarem e destruir o muro (de segurança que constrói ao redor da Cisjordânia) posso garantir que o Hamas estará pronto para tomar atitudes sérias", disse o dirigente do movimento islâmico, Khalid Meshaal, ao jornal francês Le Figaro. Essas medidas se basearão "Na justiça e igualdade, com vistas a uma paz permanente com os israelenses", acrescentou. As posições de Meshaal, ao contrário das de Israel e seus simpatizantes, se apóiam no direito internacional, afirmou Aruri. "A ONU não deveria ser a garantia do direito e da legalidade internacionais? A campanha contra o Hamas é essencialmente a última fase do desconhecimento dos direitos palestinos", afirmou o especialista.
O porta-voz de Annan justificou a mudança da política da ONU em relação à Palestina pelo fato de agora existir "um governo diferente com uma política diferente". O embaixador palestino junto às Nações Unidas, Riyad Mansour, disse que conversou "com os escalões mais altos (da ONU) e me disseram que não há mudanças na política" em relação à Palestina. No entanto, um porta-voz insistiu em dizer que "existe, sim, uma mudança na política". Na última quinta-feira, Riyad apresentou um projeto de resolução ao Conselho de Segurança questionando os crescentes ataques israelenses contra objetivos palestinos, mas os Estados Unidos a rejeitaram por considerá-lo "desproporcionalmente" crítico a Israel. (IPS/Envolverde)

