No mundo árabe, a mulher ainda caminha dois passos atrás do homem

tunisian women 640 629x472 No mundo árabe, a mulher ainda caminha dois passos atrás do homem

Mulheres protestam em Túnis para exigir respeito por seus direitos. Foto: Giuliana Sgrena/IPS

 

Nações Unidas, 10/3/2014 – Em boa parte do mundo árabe, a participação das mulheres na força de trabalho é a menor do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e é raro encontrá-las na política no Oriente Médio e na África. Talvez, uma das poucas exceções seja a Argélia, disse Lakshmi Puri, diretora-executiva adjunta da ONU Mulheres. Essa nação do norte da África alcançou a massa crítica de 30% de mulheres no parlamento, enquanto a Arábia Saudita lhes deu as boas-vindas no Conselho da Shura.

De todo modo, a média regional de mulheres legisladoras supera pouco os 12%, o que indica que o mundo árabe está muito longe da média mundial, que já é baixa, de 20%, de acordo com a ONU. Perguntada se isto se deve a fatores culturais ou religiosos, Puri disse à IPS que “não é fácil apontar uma só causa para a baixa participação das mulheres na força de trabalho e na política no mundo árabe e, mais amplamente, em todo o mundo”.

Segundo Puri, não há dúvidas de que arraigados estereótipos de gênero e normas sociais que perdoam a discriminação contra as mulheres têm um papel negativo, mas destacou que também devem ser considerados outros fatores. Entre eles, por exemplo, o acesso à educação e à qualidade da mesma, as oportunidades para conciliar a vida profissional ou a política com as responsabilidades familiares, a estrutura geral do mercado profissional e a prevalência da violência contra as mulheres.

Quando representantes de organizações femininas estiverem reunidos nesta semana em Nova York, um dos muitos assuntos a serem tratados na Comissão da ONU sobre o Status da Mulher será a baixa participação delas na força de trabalho e na vida política e social em todo o mundo. A Comissão, que realizará suas sessões anuais a partir de hoje e até o dia 21, é o principal órgão político intergovernamental sobre igualdade de gênero e promoção dos direitos das mulheres.

Este ano, suas reuniões se centrarão nos desafios e êxitos na implantação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, especialmente para as mulheres e as meninas. “Não devemos dar como certo que a baixa participação nos espaços públicos (político e econômico) se deve a valores culturais ou religiosos arraigados”, pontuou à IPS Sanam Anderlini, cofundadora da Rede de Ação pela Sociedade Civil (Ican) e integrante do Centro para os Estudos Internacionais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“Não há dúvida de que a cultura e a religião desempenham algum papel, mas o fato é que nos últimos 30 anos, e particularmente na última década, vimos uma crescente maré de forças muito conservadoras na região – em grande parte apoiadas pelos próprios governos regionais – que estão promovendo uma agenda regressiva em relação às mulheres”, afirmou Anderlini. E não se deve esquecer que o Egito teve um movimento feminista no século 19, acrescentou.

Puri listou vários fatores que prejudicam mulheres e meninas. Entre eles destacou os códigos familiares e sistemas paralelos tradicionais, tanto legais como de justiça, que negam às mulheres os direitos de propriedade e herança, impedem seu acesso a recursos produtivos, sancionam a poligamia e o casamento precoce, e as deixa em desvantagem diante do casamento e do divórcio. Ao mesmo tempo, é essencial abordar as interpretações negativas da religião ou da cultura que não só perdoam, mas perpetuam os mitos sobre a desigualdade inerente entre homens e mulheres, e justificam a discriminação de gênero.

“Como assinalamos na ONU Mulheres, junto com muitas organizações religiosas e de outro tipo, a igualdade entre mulheres e homens foi defendida há séculos na região árabe”, apontou Puri. Além disso, governos e demais atores, entre eles a sociedade civil, têm que implantar um contexto que permita aumentar a participação das mulheres em todas as esferas da vida, acrescentou.

Anderlini afirmou à IPS que no mundo árabe, como em qualquer outra parte do planeta, sempre há diferentes forças culturais que operam simultaneamente: as conservadoras e as progressistas. Mas no mundo árabe as forças conservadoras buscam eliminar ou desacreditar os êxitos obtidos no passado. “Gostam de associar direitos femininos com imoralidade e ocidentalização. Trata-se de uma agenda política clara que se fomenta e não devemos sucumbir à noção de que é cultural ou religiosa”, disse Anderlini, que no ano passado foi nomeada à frente do Grupo de Trabalho sobre Gênero e Inclusão da Rede de Desenvolvimento Sustentável para a agenda econômica posterior a 2015 da ONU.

Anderlini também disse que o Islã reclama direitos iguais à educação para mulheres e homens, bem como igual pagamento e o direito feminino à herança e à participação na vida pública. “O que se propaga são interpretações extremas do Islã que podem estar arraigadas em países como a Arábia Saudita, mas que são mais novas para Egito, Tunísia ou Líbano”, acrescentou.

Em resposta à pergunta sobre como se pode promover a participação feminina no mundo árabe, Puri respondeu à IPS que, “como em qualquer outra parte, conseguir promover a participação das mulheres nas esferas política, econômica e social nos Estados árabes exige intervenções em múltiplos níveis”.

Primeiro é necessário implantar uma reforma das constituições e leis, bem como dos sistemas legal e judiciário, e criar um contexto político propício, baseado nas normas e nos instrumentos internacionais sobre direitos femininos, como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e a Plataforma para a Ação apresentada em 1995, em Pequim.

Esse contexto deveria não só permitir mas também incentivar as mulheres a participarem da força de trabalho e da vida pública. Deveria incluir medidas especiais temporárias, como cotas em todas as instituições públicas. Educação, capacitação e criação de habilidades também são essenciais.

Na força de trabalho, conciliar as responsabilidades familiares com a vida profissional é algo que se deve abordar, pois as mulheres ainda assumem a maior parte do trabalho doméstico e de cuidados no lar, afirmou Puri. Isso deve incluir práticas e disposições efetivas em matéria de licença-maternidade, bem como cuidados infantis baratos e acessíveis e outras estruturas de cuidado, além de incentivos para que homens e meninos tenham um papel maior nas tarefas domésticas, como uma licença paternidade obrigatória, acrescentou.

O contexto político também deve centrar-se em prevenir a violência contra as mulheres dentro de casa, bem como o assédio nos locais de trabalho e nos espaços públicos, a fim de que tanto elas como as meninas não temam nenhuma repercussão negativa por participação na vida pública.

Em segundo lugar, continuou Puri, é preciso produzir uma mudança vertical a partir das bases. “Isso significa mudar as arraigadas mentalidades patriarcais, e se afastar de atitudes e crenças que se centram no papel reprodutivo das mulheres para passar aos papéis femininos produtivos e públicos”, ressaltou. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *