Remansos de Kerala em perigosa deterioração

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Mais de um milhão de pessoas vivem às margens do lago Vembanad. Foto: Samson Alapuzha/IPS

 

Kerala, Índia, 10/3/2014 – A agricultura, o turismo e as más práticas pesqueiras, junto com políticas oficiais erradas, degradam os famosos remansos de Kerala, um dos mais populares destinos turísticos da Índia. Essa contaminação é particularmente visível no lago de Vembanad, de 95 quilômetros de comprimento. Os mais afetados são os membros das pequenas comunidades pesqueiras, que sofrem a redução das capturas, degradação da qualidade da água e ocupação da costa – que tradicionalmente usam para desembarcar – por parte de operadores turísticos.

“Até há oito ou dez anos conseguia esta quantidade de peixes em apenas três horas. Agora tenho que trabalhar o dia todo para conseguir”, disse à IPS o pescador Ashokan, apontando para uma pilha de almeja negra (uma espécie de molusco) em sua canoa. Os remansos do Estado indiano de Kerala são uma rede de canais de 1.500 quilômetros que conectam lagoas, lagos e rios paralelos ao Mar Arábico, e que se nutrem tanto de água salgada quanto doce.

Muitas áreas estão abaixo do nível do mar, o que permite a entrada de água salobra devido à ação das marés. Na área estão localizados importantes povoados e cidades, como o histórico porto de Alleppey, agora chamado Alappuzha, onde o marajá de Travancore supervisionou a construção dos canais no século 17. No coração desse habitat se encontra o sistema de mangues de Vembanad, que cobre uma superfície de 36.500 hectares e é alimentado por seis grandes rios e pela própria água do mar. Seus recursos são vitais para os mais de 1,6 milhão de pessoas que moram nas margens do lago.

Há mais de 150 espécies de peixes, mas o Horadandia atukorali só é encontrado em torno da ilha Pathrimanal, dentro do lago. A importância ecológica e a rica biodiversidade de Vembanad o converteram no maior sítio do país, amparado pela Convenção de Ramsar, sobre conservação de mangues. Porém, isso não lhe garantiu nenhuma proteção até agora. O lago está dividido pela barreira de Thanneermukkom, construída em 1975 para deter o avanço da água salgada e assim proteger as plantações de arroz próximas.

A entrada de água marinha pela ação das marés tradicionalmente contribuiu para a eliminação de dejetos e a contenção das inundações. Agora, a falta de uma mescla correta de água salgada e água doce, vital para a criação de peixes, afetou algumas espécies. “Os ovos de camarão na boca do estuário e os camarões são levados para dentro do lago com a maré, mas agora ficam presos na barreira”, explicou à IPS T. D. Jojo, do Fundo Ashoka para a Ecologia e o Ambiente (Atree).

As substâncias químicas de terras de cultivo recuperadas, os efluentes das casas flutuantes turísticas, ilegalmente lançados no lago, e as indústrias próximas, como as de extração de fibra de coco, contribuem enormemente para a contaminação. A barreira de Thanneermukkom, construída na parte mais estreita do lago, fecha suas portas todos os anos entre 15 de dezembro e 31 de março, e isto é suficiente para criar um obstáculo à criação de peixes e causar a decomposição de nutrientes no lago.

Conforme diminuem as existências, os pescadores começam a usar métodos daninhos. A sobrepesca agora é um problema em Vembanad. Cientistas da Atree vêm trabalhando nos últimos seis anos para conservar o lago. “Agora contamos com 13 grupos de proteção, treinados para verificar a qualidade da água”, disse Priyadarsanan Dharmarajan, chefe de uma das equipes.

Os pescadores, cujas queixas sobre a deterioração do lago foram ignoradas por anos, agora se sentem atendidos pela nova informação, que mostra que os períodos de baixa salinidade e de alta acidificação correspondem exatamente ao período em que a barreira é fechada. “Precisamos tanto da água salgada quanto da doce para a agricultura e a pesca, assim, pedimos que a barreira seja aberta um pouco antes”, disse Murlidharan, de 30 anos, membro de um fórum conjunto de cultivadores e pescadores.

Mas essa agrupação está integrada por pequenos produtores, cujas vozes não são ouvidas pelos ricos interesses agrícolas. “Nossa principal preocupação são os arrozais. Não é possível abrir a barreira antes”, disse o chefe do Escritório de Distrito, N. Padmakumar, a principal autoridade em Alappuzha.

“A relação entre o número de agricultores e pescadores é de dez para um. Interesses de quem devo proteger?”, ponderou Padmakumar, evitando assumir qualquer responsabilidade pela deterioração na área. A degradação “sempre ocorreu. Não tenho uma varinha mágica para corrigir as coisas. Deve haver vontade política do governo para fazer algo”, afirmou.

Os centros de férias nas margens do lago acusam as casas flutuantes pela contaminação, mas seus proprietários rechaçam toda responsabilidade. “As casas flutuantes não representam um problema para o lago”, disse o operador Dilip Kumar, que também negou que a pesca esteja diminuindo. “É possível conseguir camarões grandes assim (mostra o tamanho com a mão) por 80 rúpias (US$ 1,15) o quilo”, afirmou. Envolverde/IPS

Keya Acharya

A journalist with over 20 years of experience in in-depth writing and researching environment and development issues in Asia, Africa, Europe and Latin America. Keya has travelled widely, covering assignments in various areas of the world. Her research has included climate change, urban solid waste management, rural alternative energy systems, implementation of laws on industrial hazardous wastes, human rights, ecotourism, wildlife issues, transgenic cotton, corruption and environment, population and gender, e-governance, agribiotech and forests and encroachments, among other topics. Keya is vice chair of the Forum of Environmental Journalists of India, and has organised several media-training workshops, convened international media meetings and undertaken media study tours. Keya has won several research and media fellowships and is the recipient of the Press Institute’s award for Excellence in Human Development Reporting; the Prem Bhatia Award for Environmental Reporting, and the Green Globe Foundation award for Outstanding Media Contribution by a Media Individual. Keya has also conducted development journalism studies as visiting faculty, chaired media and international conference panels, and edited ‘The Green Pen’, an anthology of essays on environmental journalism, the first of its kind in South Asia, featuring the region's most prominent and respected environmental journalists.

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