População: Brasileiros repovoam o interior de Portugal

Lisboa, 16/05/2006 – As quatro famílias brasileiras que se instalaram em Portugal este mês são a ponta-de-lança de outras 250 decididas a realizar o sonho europeu e, por outro lado, contra-atacar a desertificação humana que afeta as regiões do interior desse país. Chegaram extenuadas pela longa viagem desde Maringá, no Paraná. Mas isso não impediu que com expressivo otimismo marcassem o início de uma nova vida em Vila de Rei, remoto município da região de Beira Baixa, no centro-leste de Portugal. Cinco séculos depois da chegada da esquadra do almirante português Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500, à enseada onde fundou Porto Seguro, na exuberante costa que chamou de Terras de Santa Cruz, depois Santa Cruz e, mais tarde, Brasil, ocorre o início de um fluxo migratório inverso.

O objetivo dos repovoadores da "terra queimada" é fazer reviver o município de Vila de Rei, a cerca de 300 quilômetros de Lisboa, onde as mortes superam os nascimentos desde 1981. Começarão pela aldeia de São João de Peso, em um inédito programa da prefeita de Vila de Rei, Irene Barata, que conta com apoio unânime de todos os partidos representados no parlamento unicameral português. A cidade de Maringá, de 500 mil habitantes, e o pequeno Vila de Rei, onde vivem 3.250 pessoas em 90 aldeias e vilas, têm um passado comum. Nas décadas de 40 e 50, muitos portugueses emigraram para o Brasil por causa da precária situação econômica de seu país, incluindo os habitantes mais pobres de Vila de Rei, que se estabeleceram em Maringá e prosperaram.

No século XX, especialmente entre 1940 e 1985, houve grande fluxo migratório português para o Brasil, Estados Unidos, África do Sul, França, Venezuela e Alemanha. Com a inversão do fluxo e por geminação histórica, agora são os brasileiros de sobrenomes portugueses castiços, como os 15 membros das famílias Oliveira, Padilla, Ramos, Duarte e Faria, que tentarão salvar o futuro de Vila de Rei, com a vontade de trabalho trazida de Maringá. Beira Baixa é apreciada por seus queijos de cabra e ovelha, seus vinhos e embutidos. O turismo representa uma importante fonte de renda. Mas a região sofre pela constante queda de sua população por causa da emigração dos jovens.

A deputada pelo Partido Ecologista Verde Isabel de Castro fez para a IPS um balanço do impacto ambiental vivido nas duas últimas décadas na região, fenômeno chamado de "terra queimada", em referência ao abandono pela população e aos grandes incêndios que desde 2003 afetam o país. A realidade mais visível "é a perda de biodiversidade, tanto de fauna quanto de flora, o empobrecimento dos solos chegou a tal ponto que mais da metade do território está ameaçado de desertificação e um terço sobre erosão grave, um panorama marcado pelo desequilíbrio demográfico, com um quarto dos portugueses "expulsos" dos campos para as cidades", disse a parlamentar.

Este processo derivou em que "cerca de 25% da população do interior foram empurradas para o litoral, onde se concentram 90% da atividade econômica", explicou Isabel de Castro. "Mais de dois terços da população portuguesa mora em duas áreas metropolitanas: Lisboa e Porto (ao norte)", acrescentou. Por sua vez, Barata explicou à agência de notícias Lusa e a vários jornais que a idéia de combater o despovoamento do município, que "há muitos anos me preocupa", começou a se concretizar no final do ano passado.

"É quase impossível atrair gente disposta a se estabelecer e trabalhar em Vila de Rei, ganhando o salário mínimo (385 euros, cerca de US$ 480,00), que é o que será pago ao pai e à mãe que chegam", explicou a prefeita. Este salário não é menor do que o de 20% da população lusa, e será financiado pela prefeitura pelo prazo máximo de seis meses. As primeiras famílias já têm trabalho garantido no asilo de idosos de São João de Peso, que serve a todo município e cujos postos de trabalho vagos várias vezes oferecidos por Barata não interessaram a ninguém em quase meio milhão de desempregados portugueses. O trabalho "é facilitado por se falar a mesma língua e pela imensa simpatia que, em geral, caracteriza os brasileiros", destacou a prefeita.

Entre os repovoadores adultos há uma psicóloga, um professor de literatura portuguesa, uma cabeleireira, uma vendedora de roupas, um carpinteiro e um operador de informática. A busca por segurança foi o desejo comum dos brasileiros imigrantes, disse no último dia 14 a psicóloga Letícia Duarte à Televisão Independente. "No Brasil, chegamos a um ponto em que é perigoso para as crianças fazerem algo tão simples quanto brincar na rua, e em termos de poder aquisitivo este será praticamente igual, com a tranqüilidade de que meus filhos não serão agredidos ou até mesmo assassinados na rua", acrescentou. O mesmo argumento expôs o professor de literatura Pedro Luiz Ramos. "Talvez ganhasse mais no Brasil, mas Portugal é uma porta para a Europa e um país de boa acolhida, que abre outras perspectivas culturais", afirmou.

As famílias que chegarão mais tarde receberão a mesma remuneração por atividades na agricultura, comércio e serviços. "Deverão pagar sua alimentação e transporte, mas viverão em casas emprestadas por particulares e em outros locais, como escolas desativadas. Depois de um tempo encontrarão suas próprias casas e se lançaram à sua nova vida", explicou a prefeita. Os habitantes de São João de Peso, no geral, receberam os brasileiros como irmãos do outro lado do Atlântico. O idoso Antonio Simão recordou em entrevista ao jornal Publico que foi imigrante durante 30 anos na Venezuela, "onde sempre me trataram muito bem".

O fato de haver seis meninos e meninas no grupo "é uma alegria para as únicas cinco crianças" de São João de Peso. "Eu os recebo de braços abertos?, afirmou Simão. Na Vila de Rei "os velhos estão morrendo e os jovens partem para as grandes cidades", afirmou o comerciante Antonio Moreira. Mas não faltaram críticas. O aposentado e ex-colono Antonio Vicente lamentou à agência de notícias Lusa que ao regressar de Angola em 1975, quando esse país africano ficou independente de Portugal, "ninguém nos deu nenhum apoio" e agora o município traz estrangeiros "que vão ocupar postos de trabalho que poderiam ser de portugueses".

Mas somente os neonazistas do Partido Nacional Renovador (PNR), sem representação parlamentar, são contrários à operação. No último dia 13, o líder do PNR, José Pinto Coelho, convocou um protesto diante da prefeitura de Vila de Rei, do qual participaram 60 seguidores, segundo a polícia, mas que teve ampla cobertura da televisão. O ato foi "contra a colonização promovida pela prefeita Irene Barata com o dinheiro dos impostos dos portugueses", afirmou o PNR.

Eliana Bibas, presidente da Casa do Brasil, a principal organização dos quase 120 mil brasileiros residentes em Portugal, disse ao Diário de Notícias no dia 11 passado que a iniciativa de Barata "é positiva porque atende ao que o vimos falando e é demonstrado por vários estudos: na Europa existe necessidade de imigrantes". O presidente da Assembléia Geral da Casa do Brasil, Eduardo Tavares de Lima, disse à IPS que os municípios "também poderiam realizar uma pesquisa coordenada sobre as necessidades nas regiões mais despovoadas do país, e não apenas em Beira Baixa, e informar à comunidade brasileira já residente sobre as possibilidades existentes.

Desde que Portugal entrou para a Comunidade Européia, em 1986, os fundos comunitários de coesão se concentraram em investimentos no litoral e nas grandes cidades, iniciando o inexorável abandono do interior. Os municípios têm grande autonomia do governo central e contam com recursos próprios para realizar programas como o de Vila de Rei. Mas além disso, são determinantes os fundos para o desenvolvimento regional enviados pela União Européia e cuja distribuição cabe à Lisboa. O problema é que muitas vezes essa distribuição favorece os prefeitos de acordo com sua filiação política.

A região de Alentejo é um exemplo. "É a que mais perdeu população nos últimos 30 anos. Dois terços de seus habitantes emigraram ou se mudaram para as grandes cidades", disse à IPS o presidente da Associação de Pecuaristas de Portugal, Manuel de Castro e Brito, que aplaudiu a iniciativa de Barata. "No Alentejo, temos grandes problemas de mão-de-obra, eu tenho dificuldades para encontrar trabalhadores para minha fazenda, porque os portugueses preferem ficar desempregados e viver dos subsídios, ou, então, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras cria grandes dificuldades para conceder autorizações de residência", lamentou.

Os governos socialistas e de direita, que se alternam no governo desde 1986, aplicaram uma "política primitiva" de ignorar o Alentejo por ser majoritariamente comunista, disse Castro e Brito. Em todo o caso, para o colunista José Manuel Barroso, do Diário de Notícias, os brasileiros repovoadores poderão "transformar o interior de Portugal em algo que valha a pena". (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *