Bósnia-Herzegovina: Um passeio pelo passado

Sarajevo, 17/05/2006 – Um roteiro turístico anualmente leva milhares de pessoas a 19 locais da capital da Bósnia-Herzegovina, nos quais se pode ver a crueldade da guerra de secessão da década de 90. Zijad Jusufovic, de 40 anos, foi o criador deste passeio. "Os visitantes queriam saber o que havia acontecido aqui, por que e se havia um futuro", disse à IPS Jusufovic, que agora tem autorização para trabalhar como guia turístico. A guerra de secessão na antiga Iugoslávia matou, entre 1992 e 1995, mais de cem mil pessoas na Bósnia-Herzegovina, na maioria bósnio-muçulmana. A república integrava a dissolvida federação iugoslava.

Sarajevo perdeu 22 mil de seus 400 mil habitantes durante o cerco dos sérvios da Bósnia-Herzegovina, mais do que durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Os sérvios bombardearam a cidade diariamente, enquanto os franco-atiradores apontavam para civis desde as colinas que cercam a cidade. As forças muçulmanas leais ao governo de Sarajevo a defenderam. A guerra se travou na cara das forças de proteção da Organização das Nações Unidas.

A paz chegou em 1995, depois que os líderes dos dois lados assinaram os acordos de paz de Dayton, nos Estados Unidos, com patrocínio internacional. Os três líderes (Franjo Tudjman, da Croácia; Alija Izetbegovic, da Bósnia-Herzegovina, e Slobodan Milosevic, da Sérvia) agora estão mortos. Bósnia-Herzegovina se transformou em uma federação composta por duas entidades: a República Srpska, ou República Sérvio-Bósnia, e a Federação Croata-Muçulmana.

O roteiro turístico por Sarajevo, que dura cinco horas e se chama Missão Impossível, inclui o estádio do bairro de Kosevo, esplendidamente reconstruído para os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984. Durante a guerra, seu campo auxiliar de futebol foi transformado em um cemitério, hoje coberto por brancas lápides muçulmanas. Depois, o passeio inclui uma visita à colina de Trebevic, utilizada por franco-atiradores e artilheiros sérvios. Os arredores ainda estão minados, e 466 pessoas morreram vítimas dessas minas terrestres desde o fim da guerra. Desativá-las é um processo lento e caro.

O circuito turístico-bélico de Jusufovic continua com uma visita à ?ponte das primeiras vítimas? no rio Miljacka, onde duas jovens que protestavam contra o conflito foram assassinadas por franco-atiradores sérvios no dia 6 de abril de 1992. Nesse dia começou a guerra. Perto dali fica a ?ponte de Romeu e Julieta?, que se converteu na rota de fuga para casais mistos (formados por muçulmanos e cristãos) que tentavam fugir de Sarajevo. A ponte levava das áreas muçulmanas para as sérvias. Antes da guerra, 17% dos moradores da cidade integravam casais mistos.

Hoje, Sarajevo é uma cidade quase completamente muçulmana. Vivem ali apenas 35 mil cristãos e cerca de 700 judeus. A população se reduziu a 320 mil pessoas. Muitos dos que fugiram durante a guerra nunca retornaram, independentemente de sua condição étnica. Antes da guerra, a população da cidade era metade muçulmana e metade cristã, incluídos sérvios ortodoxos e croatas católicos. Também havia mais de 1.500 judeus. ?Isto é triste, mas pouco se pode fazer a respeito?, afirmou Jusufovic. ?A Bósnia é um lugar onde as pessoas não têm trabalho nem boa educação?. O desemprego neste país chega a 40%. O sistema escolar é diferente para crianças muçulmanas, sérvias e croatas, dependendo da área onde residam. O ensino de história e geografia varia de lugar para lugar?.

Entre os pontos ?turísticos? está o mercado de Markale, no centro de Sarajevo, onde 67 pessoas foram assassinadas em fevereiro de 1994 durante um ataque com morteiros. Continua sendo um mercado com muito movimento, cheio de ambulantes. Por trás de um vidro que cobre o muro dos fundos, de cor vermelha, está ressaltado o nome das vítimas. Uma lenda sobre uma pedra branca assegura que os moradores de Sarajevo nunca esquecerão. ?Mas o tempo passa e as feridas estão cicatrizando?, afirmou Munir Sabic, um verdureiro de 65 anos, sobrevivente do ataque ao mercado.

?Devemos olhar para o futuro, não para o passado. Isso é o que tento fazer, embora ter vivido aqui cada dia dos últimos 30 anos tenha sido bom e mau?, acrescentou. Jusufovic e Sabic afirmaram que a comunidade internacional ajudou na reconstrução. ?Eles nos ajudaram a reconstruir tetos sobre nossas cabeças, mas pouco se fez para a recuperação de nossas mentes e almas?, lamentou o guia turístico. ?As conseqüências ainda são sentidas, mas, apesar de tudo, as pessoas têm de acreditar que virão bons tempos?, acrescentou.

Uma investigação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sobre as conseqüências da guerra revelou que 54% dos 3,6 milhões de habitantes da Bósnia-Herzegovina ainda sentem em suas vidas diárias os efeitos da guerra. Mas também existe um turismo convencional, que não consiste em visitar becos do passado bélico. Ao cruzar a rua desde o mercado de Markale, pode-se ver repleta de turistas a antiga Bascarsija, o centro histórico de Sarajevo que remonta aos séculos do império otomano.

Ali japoneses regateiam por pratos de prata e cafeteiras decoradas. Os norte-americanos se apressaram para chegar a Isfahan, famoso comércio de tapetes persas. O tempo pára em Bascarsija, como costumava fazer em outras épocas. Uma cafeteria atrai grande quantidade de visitantes. Chama-se Tito, em homenagem ao ex-presidente da Iugoslávia, Josip Broz Tito, que morreu em 1980 após governar o país desde 1945. Objetos da era Tito cobrem as paredes do café, enquanto telefones e máquinas de escrever da Segunda Guerra Mundial descansam sobre as mesas. A parede central ilustra uma famosa batalha na qual os partidários de Tito venceram os alemães. ?Tínhamos de fazer um lugar como este para tantas pessoas que acreditam que os tempos de Tito eram definitivamente melhores?, disse à IPS o proprietário do café, Robert Vajda. ?Mas agora são os jovens que formam a maior parte da multidão, além dos turistas interessados na época de Tito, quando todos viviam felizes juntos?, afirmou. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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