Finanças: ONU promove investimento responsável

Washington, 16/05/2006 – Chega a US$ 4 trilhões as ações em poder das companhias de investimento que, em apenas um mês, aderiram a uma série de princípios de responsabilidade ambiental e social propostos pela Organização das Nações Unidas. Dezenas de investidores institucionais se comprometeram a apoiar os Princípios de Investimento Responsável, seis pautas ambientais, sociais e de governabilidade corporativa às quais deverão se ater as empresas às quais esses fundos colocarem seu dinheiro. A última leva de incorporações aconteceu em uma discreta reunião em Paris, no começo deste mês: 18 empresas uniram-se às 32 que já haviam assinado os Princípios desde que o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, os apresentou em abril.

Entre os que aderiram aos princípios figuram fundos de investimento, muitas vezes de aposentadoria, administrados em representação de educadores, pensionistas, sindicalistas e funcionários do governo. Essas companhias incluem o Sistema de Aposentadorias de Empregados da Cidade de Nova York, a Caixa Comum de Pensões do Pessoal das Nações Unidas, BNP Paribas da França, ABN AMRO da Holanda e o Fundo de Pensões do Governo da Tailândia. A Iniciativa de Finanças do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e o Compacto Global da ONU (organismo que incentiva a cooperação entre essa agência e o setor privado), dirigem o novo empreendimento.

"Os Princípios oferecem um projeto para o que rapidamente está se convertendo na única maneira de fazer negócios nos mercados globalizados do século XXI", disse Monique Barbut, diretora da Divisão de Tecnologia, Indústria e Economia do Pnuma. Os Princípios têm sua raiz na preocupação de que "a tomada de decisões em matéria de investimento não reflita de maneira suficiente considerações ambientais, sociais e de governabilidade corporativa, ou, dito de outro modo, os princípios do desenvolvimento sustentável", disse Annan ao apresentá-los. A ONU explicou que a sua não é uma campanha "desinvestimento", isto é, de redução de investimentos em empresas ou países por razões políticas ou sociais.

Esse havia sido, por exemplo, o caso da saída da África do Sul nos anos 80 de numerosas companhias em protesto contra o apartheid (regime de segregação racial institucionalizada em detrimento da maioria negra, que terminou em 1994). "Isto não é pedir aos donos de ações e investidores institucionais ou administradores de bens que não invistam nas companhias, mas que se comprometam com as empresas e as levem por um caminho de melhora contínua", disse á IPS o porta-voz da ONU Matthias Stausberg. As Nações Unidas acreditam que os grandes investidores estão tão diversificados e têm tal quantidade de ações em empresas de todo o mundo que o "desinvestimento" não seria prático.

Somente os fundos de pensão – públicos e privados – representam mais de 35% do investimento global total, e podem ter um impacto enorme. A ONU está feliz com a aprovação dos Princípios por parte de investidores até agora, que incorporaram ações à iniciativa no valor de US$ 4 trilhões. "É uma assombrosa quantidade de dinheiro", disse Stausberg. "Estabelecemos um bom impulso e tudo indica que mais instituições se unirão e subscreverão estes Princípios de Investimento Responsável. Esperamos que isto possa se converter uma poderosa iniciativa", afirmou.

No contexto do plano, os signatários esperam criar uma rede com os maiores investidores institucionais do mundo, que compartilharão exemplos de boas práticas, bem com orientação da secretaria da iniciativa. Também se prevê que essas empresas economizem dinheiro, já que a colaboração levaria à redução nos custos de pesquisa e implementação. Mas ainda restam muitas perguntas. Por um lado, a adesão aos Princípios é voluntária, e acordos anteriores do mesmo teor e propósito, com os Princípios do Equador apresentados pelo Banco Mundial em 2003, não alteraram significativamente o modo com as multinacionais conduzem seus negócios em todo o mundo, freqüentemente em detrimento dos critérios de ação mais aceitos em matéria ambiental e social.

Os Princípios carecem de detalhes e também de mecanismos para sua implementação. Até agora, a maioria dos investidores signatários procede de uns poucos círculos de investimento socialmente responsáveis. O plano não ganhou muitos adeptos novos, mas a adesão de convencidos. Os fundos de investimento socialmente responsável continuam sendo minoria em todo o mundo. Nos Estados Unidos, a maior economia do mundo com os mercados financeiros mais vibrantes, representam apenas 3,9% dos mais de US$ 4 trilhões investidos em ações, bônus e fundos mútuos.

Tradicionalmente, esses investidores compram ações em companhias que aderem a determinados critérios sociais, morais, religiosos e ambientais e investigam seu cumprimento. Entre os princípios aos quais aderem figuram o respeito pelo meio ambiente e direitos humanos e a rejeição aos testes com animais, energia nuclear e serviços e produtos como armas, pornografia, álcool e tabaco, e serviços como as apostas. Mas segundo o Fórum para os Investimentos Sociais, organização sem fins lucrativos com sede em Washington e que promove o investimento responsável, há espaço para a esperança. As considerações sociais, ambientais e de governabilidade corporativa estão em alta nas salas de diretoria das empresas, segundo o Fórum.

Considerações-chave em resoluções sociais e ambientais de acionistas incluem a redução do uso de substâncias tóxicas ou de dejeto, de emissão de gases que agravam os efeitos da mudança climática e da contaminação. A organização disse em um relatório do começo deste ano que as ações de investimento socialmente responsável aumentaram mais de 258%, passando de US$ 639 bilhões em 1995 para US$ 2,29 trilhões em 2005, deixando para trás o amplo universo das ações sob administração profissional em 10%. Os investimentos totais aumentaram cerca de 249%, de US$ 7 trilhões para US$ 24,4 trilhões em relação ao mesmo período. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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