México, 22/05/2006 – Governos latino-americanos expressaram preocupação pela política dos Estados Unidos contra a imigração, ao reforçar sua fronteira sul com militares e novos muros. Por sua vez, os traficantes de pessoas esfregam as mãos, pois dessa maneira poderão aumentar suas tarifas. ?No caso de se concretizar o endurecimento dos controles, os ?polleros? (traficantes) cobrarão mais, já vimos isso antes. Mas até agora não o detectamos?, disse à IPS Luis Kendzierski, diretor do albergue Casa do Migrante na cidade mexicana de Tijuana, vizinha dos Estados Unidos. Antes de 1993, quando Washington começou a endurecer os controles migratórios em sua fronteira com o México através de operações policiais e construção de muros, contratar um traficantes de pessoas para atravessar a linha divisória e chegar a um local seguro nos Estados Unidos custava cerca de US$ 150. Atualmente, a mesma viagem custa entre US$ 2.000 e US$ 7.000. Mas não se trata de uma viagem segura, pois em muitas ocasiões os imigrantes são abandonados, roubados ou maltratados e, inclusive, morrem quando são levados por zonas desérticas ou em caminhões fechados. ?Com mais muros na fronteira, se isso acontecer, e com a chegada da Guarda Nacional, vai custar muito mais contratar um pollero?, insistiu Kendziersky.
A cada ano, cerca de 1,5 milhões de pessoas tentam entrar nos Estados Unidos burlando os rígidos controles migratórios. Aproximadamente 400 mil conseguem, e o restante fica na linha de fronteira ou é deportado. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, informou na semana passada que enviará seis mil soldados da Guarda Nacional – a mais antiga força militar desse país – ao longo dos 3.200 quilômetros de fronteira com o México para ajudar a deter a entrada de ilegais. Washington assegura que os militares estarão desarmados e somente farão tarefas de apoio aos 12 mil guardas fronteiriços que operam na região. Além disso, o Senado norte-americano aprovou na última quarta-feira a construção de 595 quilômetros de novos muros na fronteira sul.
A medida, uma das várias voltadas à imigração hoje em discussão no Congresso, se concretizará somente se também for aprovada pela Câmara de Representantes e promulgada por Bush. Cerca de 112 quilômetros de fronteira já estão divididos por muros de metal ou concreto, enquanto o restante tem barreiras naturais ou pequenas cercas, mas todas fortemente vigiadas. Delegados dos governos da Costa Rica, Guatemala, Honduras e Nicarágua se solidarizaram na sexta-feira com uma nota diplomática que o México enviou na véspera à Washington, expressando sua preocupação pela construção do muro e o envio de soldados para a fronteira.
O pronunciamento desses países aconteceu na capital mexicana, depois que representantes se reuniram para analisar a situação. O chanceler da Guatemala, Jorge Briz, afirmou que o México e seus vizinhos centro-americanos continuarão ?negociando respeitosamente junto ao governo norte-americano uma reforma migratória integral?. Tal mudança legal deve apontar para ?a regularização dos milhões de imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos e gerar um programa de trabalhadores temporários?, acrescentou.
Desde janeiro, os governos de Colômbia, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana trabalham em uma frente unida para lutar por uma reforma migratória nos Estados Unidos, onde moram 42,7 milhões de latino-americanos ou descendentes dessa origem, segundo últimos dados do censo. Deveria ser reconsiderada a construção do muro, pois essa medida ?não corresponde a uma relação de amigos, de vizinhos, de sócios?, disse na quinta-feira o presidente mexicano, Vicente Fox. ?Quero dizer-lhes (aos norte-americanos) que sejam muito respeitosos com a dignidade dos mexicanos, que não nos diminuam e não discriminem nem violem os direitos de nossos patrícios?, afirmou.
O Senado dos Estados Unidos reiniciou na semana passada os debates sobre a reforma migratória. Suas discussões seguem as realizadas na Câmara de Representantes, que aprovou normas que contemplam a construção de 1.100 quilômetros de novos muros na fronteira com o México e que criminalizam a condição de imigrante sem documentos. Embora os senadores também aprovem a construção de muros, tentam acertar normas que incluam a legalização da residência dos imigrantes. Os debates parlamentares, que deverão culminar em um acordo entre o Senado e o resolvido na Câmara de Representantes, visam a definir o futuro de entre 10 milhões e 12 milhões de estrangeiros sem papéis de residência para viverem nos Estados Unidos, em sua maioria latino-americanos.
O diretor do Albergue Casa do Migrante espera que a reforma considere os imigrantes como pessoas que só pretendem trabalhar e conseguir melhores condições de vida para suas famílias. Não se trata de criminosos, ressaltou. A Casa do Migrante é uma instituição não-governamental vinculada à Igreja Católica que fornece comida e abrigo aos que chegam expulsos dos Estados Unidos ou estão em trânsito por Tijuana e não contam com dinheiro nem apoio. Tijuana é um dos pontos principais de onde partem rumo aos Estados Unidos os imigrantes ilegais, particularmente mexicanos, mas também milhares de latino-americanos e asiáticos. (IPS/Envolverde)

