Montenegro: Recém-nascido e de olho na UE

Podgorica, 23/05/2006 – Montenegro se converteu no primeiro novo Estado independente da Europa no século XXI depois que uma maioria decidiu, em referendo, pela separação da sérvia. Agora, o objetivo é entrar para a União Européia. De acordo com os resultados parciais divulgados pela comissão Republicana de Referendo na manhã de segunda-feira, 55,4% das 485 mil pessoas que foram às urnas no domingo votaram a favor da independência. A UE havia solicitado um mínimo de 55% de votos a favor da separação, nas conversações prévias como primeiro-ministro montenegrino, Milo Djukanovic, e com a oposição pró-Sérvia liderada por Predrag Bulatovic. "Esta votação representa a última ruptura com a antiga Iugoslávia, que começou em 1991, mas desta vez sem guerra nem derramamento de sangue", disse à IPS o analista local Srdjan Darmanovic. A Iugoslávia, antes integrada por Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia, começou a se desintegrar no começo da década de 90 por causa de uma guerra que cobrou 100 mil vidas. Somente a Sérvia, com 7,5 milhões de habitantes, e o pequeno Montenegro, com 620 mil, permaneceram unidos no que a partir de 1992 se chamou República Federal da Iugoslávia, e que desde 2002 passou a se chamar Sérvia e Montenegro.

Um acordo patrocinado pela UE estabeleceu que Montenegro poderia organizar um referendo para decidir se permaneceria unido à Sérvia. "Tudo ocorreu conforme os mais altos padrões democráticos. Nossa independência é importante para nosso futuro na Europa", destacou Djukanovic nas primeiras horas de segunda-feira. Tanto Sérvia quanto Montenegro querem integrar-se à União Européia, e para isso já estavam mantendo negociações em separado. Entretanto, não se espera que se concretize a integração como membro pleno de nenhum dos dois antes de sete ou oito anos.

Dujukanovic disse na segunda-feira que "a integração à UE e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terão máxima prioridade", e destacou seu desejo de que Montenegro seja o primeiro país balcânico a aderir ao bloco. "Votar pela independência é uma coisa, obter o reconhecimento internacional como nação independente é outra muito diferente", explicou à IPS um diplomata europeu em Podgorica. "Agora, terão de negociar com Belgrado sobre como dividir a propriedade comum, embaixadas, depósitos exteriores e também com definir as relações com a Sérvia. De qualquer maneira, todos têm de agir com muita delicadeza, pois devem manter a paz e a estabilidade na região", afirmou.

Ainda falta que observadores internacionais, como a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), confirmem os resultados do referendo. "Trata-se de desmantelar um Estado", afirmou o diplomata. A maioria dos dirigentes políticos sérvios recorreram ao nacionalismo para defender a união dos dois países. Sérvios e montenegrinos são os parentes mais próximos dos Bálcãs, já que compartilham uma longa história em comum, bem como a mesma religião: a sérvio-ortodoxa. O bloco pró-sérvio continua tendo muito peso em Montenegro.

O analista Zoran Lutovac, de Belgrado, considera que a situação agora será mais fácil para a Sérvia. "Segundo a Constituição da Sérvia e Montenegro, patrocinada pela União Européia, os sérvios herdarão o status legal, sua presença como membro da Organização das Nações Unidas e de outros organismos internacionais. Por isso, os montenegrinos têm muitas negociações pela frente. Mas primeiro devem ser reconhecidos como Estado independente. É um processo que leva tempo", disse Lutovac à IPS.

"A Sérvia tem uma clara vantagem depois do voto pela independência de Montenegro. Pode se declarar independente apenas com umas poucas emendas legais", explicou à imprensa o magistrado do Tribunal Constitucional da Sérvia Slobodan Vucetic. Entretanto, nem todos estão contentes em Montenegro. "Os problemas reais não serão solucionados com a independência. As pessoas continuarão sem trabalho, a indústria continuará parada e o nível de vida seguirá sendo baixo. Não se alimenta os filhos com independência", disse à IPS Milo Savicevic, um mecânico de 32 anos. O desemprego em Montenegro é superior aos 30%.

Outros temem que a Sérvia imponha matrículas caras para os 20 mil estudantes montenegrinos inscritos em suas instituições de ensino ou que aumente os custos para os pacientes que atende em seus hospitais. "Se não formos tratados como estranhos, tudo irá bem. Mas duvido que isso ocorra alguma vez. Afinal, somos irmãos morando em casas separadas", afirmou Mirjana Dabic, uma professora de 55 anos. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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