Colômbia: Mortos e feridos na guerra contra o livre comércio com os EUA

Bogotá, 22/05/2006 – Os protestos indígenas e camponeses contra o acordo comercial que a Colômbia negocia com os Estados Unidos deram lugar a uma intensa resposta militar do governo do presidente Álvaro Uribe, com saldo incerto de mortos, feridos e desaparecidos. Inclusive o defensor do povo (ombudsman) do departamento de Nariño, Carlos Mario Aguirre, foi hospitalizado na noite de sexta-feira, afetado por ?gases proibidos disparados desde helicópteros?, segundo o não-governamental Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos (CPDH). Até o meio-dia do sábado, nenhuma autoridade nem organização civil havia conseguido avaliar a quantidade de mortos, feridos e desaparecidos em razão da repressão militar contra as manifestações rurais iniciadas na segunda-feira passada em 14 departamentos contra o tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), que convocou o protesto, ao qual se uniram organizações camponesas e comunidades negras, cerca de 50 mil pessoas participavam das mobilizações. Mas o governo assegurou que o protesto era promovido pelas esquerdistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), organização com 42 anos de insurgência.

A ONIC agrupa 90 etnias que somam cerca de um milhão de aborígenes neste país andino e selvático de 42,2 milhões de habitantes. A repressão ao protesto foi dura principalmente na região indígena do Cauca e em Nariño, embora também o tenha sido nos departamentos de Putumayo, limítrofe com o Equador, e Meta, ao sul de Bogotá. Em Nariño, na sexta-feira, ?a força pública agrediu não somente manifestantes, mas também funcionários que procuravam evitar o confronto?, disse à IPS o secretário-executivo nacional do CPDH, Jairo Ramírez.

Ali os protestos ?são parte da convocação de organizações indígenas e camponesas em nível nacional? contra o tratado de livre comércio com os Estados Unidos, confirmou Ramírez. Mas ?também são contra as fumigações e a erradicação forçada de cultivos de coca?, matéria-prima da cocaína, da qual a Colômbia é o primeiro exportador mundial, acrescentou. Em Nariño, recordou Ramírez, se concentram os plantadores de coca expulsos de outras regiões após operações contra-insurgentes e antidroga do Plano Colômbia e do Plano Patriota, ambos com financiamento e coordenação militar dos Estados Unidos.

As organizações camponesas temem que o prejuízo para a produção agrícola que pode causar o tratado de livre comércio com os Estados Unidos leve mais agricultores a plantar coca, de longe o cultivo mais rentável do país. A negociação sobre o tratado foi encerrada inicialmente em 25 de fevereiro, mas depois foi reaberta por diversas divergências em áreas delicadas para o setor agrícola colombiano, cujo conteúdo permanece secreto. O governo da Colômbia anunciou que estas partes do tratado serão discutidas somente depois das eleições presidenciais do próximo dia 28, nas quais o direitista Uribe aspira à reeleição.

A ação civil contra o tratado de livre comércio com Washington foi convocada desde a primeira semana de março pela ONIC, que advertiu na oportunidade que o acordo ?permite patentear nossos recursos genéticos?. Negociado durante dois anos pelo governo, o tratado, segundo os indígenas, coloca em risco suas culturas, seus povos, famílias, a dignidade e a própria vida ?pela cegueira dos que se equivocam e utilizam o maior poder da história para converter em mercadoria tudo o que existe?.

A ONIC também alertou que o tratado ?encarece os medicamentos, provocando morte, destrói a produção agropecuária e a soberania alimentar, estabelece exageradas medidas a favor dos investidores, contratistas e fornecedores estrangeiros. Além disso, impõe ao país jurisdições estranhas e a aprovação de leis sobre seus recursos e regime jurídico?. Com essa convicção, chamaram a impedir sua ratificação em um parlamento 70% oficialista.

Os indígenas iniciaram sua mobilização no último dia 15. O protesto central, chamado Grande Cúpula Itinerante de Organizações Sociais, aconteceu na localidade de La María, no município de Piendamó, departamento do Cauca. A partir de uma marcha realizada em setembro de 2004 quando se declarou La María ?território de convivência, diálogo e negociação?, o povoado é considerado sagrado de autoridade indígena. Compareceram à reunião de segunda-feira passada cerca de oito mil pessoas de todo o país, às quais somaram-se moradores locais, disse à IPS o ex-ministro Camilo González Posso, diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz, que foi à reunião. Na mesma segunda-feira o governo relacionou a cúpula com a guerrilha.

No dia seguinte, com o pretexto de garantir a circulação por estrada, a manifestação em La María e outras áreas rurais de Nariño foram atacadas por helicópteros disparando balas de borracha e gás lacrimogêneo, e, em terra, por forças combinadas do esquadrão da polícia antidistúrbios (ESMAD) e do exército. Em La María, os indígenas e camponeses haviam acertado com o governo uma reunião com três vice-ministros que foram enviados à região para essa finalidade. Mas, em lugar dos funcionários, a força pública apareceu para a reunião, atitude que os indígenas consideraram ?perversa?.

As vítimas apresentam ferimentos causados por bala de fuzil ou estilhaços, atribuídas por testemunhas a golpes desferidos por membros do ESMAD, que inclusive atacaram mulheres. Primeiro, a tropa avançou contra a emissora indígena local, destruiu totalmente seus equipamentos e deteve quatro jornalistas. ?O segundo objetivo eram os líderes?, disse à IPS Silza Arias, coordenadora de comunicações da ONIC. A força pública se comportou como ?exércitos de invasão?, segundo uma declaração emitida pelo poderoso Conselho Regional Indígena do Cauca.

Os uniformizados atacaram o centro de saúde e crianças e mulheres que recebiam cuidados médicos, destruiram a tenda comunitária e a mercadoria que havia nela, atacaram o lugar onde se realizava a cúpula, invadiram casas de civis e incendiram roupas e utensílios, acrescentou o Conselho. No ataque foi morto com um tiro Pedro Coscué, membro da Guarda Indígena, força civil integrada por cerca de 10 mil jovens armados de bastões de comando enfeitados por fitas coloridas. Na quinta-feira foi confirmada a morte de uma mulher e uma menina, também indígenas.

Desde esse dia receberam ajuda humanitária 10 mil pessoas que haviam se refugiado na parte alta de La María. Uma fonte da cooperação européia confirmou à IPS que uma missão de vários organismos da Organização das Nações Unidas e da Igreja Católica iniciou na sexta-feira uma verificação dos fatos e a avaliação dos danos. A ONIC denunciou que a ESMAD destruiu os encanamentos de um aqueduto rural em Cauca e que em Nariño ?pequenos aviões carregados de Glifosato (herbicida usado para destruir plantações de coca) fumigavam as águas que alimentam o aqueduto de El Remolino, no município de Taminango?.

?O uso de armas de fogo, helicópteros, punhais, arame farpado, proibição do acesso à água potável? foi apenas a terceira agressão contra organizações indígenas, camponesas e afro-colombianas, segundo a ONIC em um comunicado lido na quinta-feira para os jornalistas. ?A primeira agressão que sofremos foi a tentativa de tornar invisível nosso protesto?, pois a imprensa local ignorou a convocação para a cúpula, afirmou a organização. ?A segunda agressão foi a versão divulgada pelo governo de que este protesto está dirigido e imposto pelas Farc?, recordou a ONIC, ?mentira esta que preparou a bala, o assassinato e a barbárie? contra as multidões. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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