Nações Unidas, 26/05/2006 – O próximo secretário-geral da Organização das Nações Unidas virá da Ásia, assegurou em entrevista à IPS seu vice-secretário-geral, o britânico Mark Malloch Brown, que, por sua vez, descartou permanecer no cargo quando chegar ao fim a administração de Kofi Annan, em dezembro. Os 192 membros da ONU seguem divididos sobre vários temas-chave, como o número de potenciais candidatos, a rotatividade geográfica com critério de seleção e mudanças no procedimento para designar o sucessor de Annan. O novo secretário-geral dever ser da Ásia ou da Europa oriental? Deveria-se eleger a primeira mulher para o cargo nos 60 anos de história da organização? A última palavra deve ser do Conselho de Segurança, como sempre ocorreu, ou esse poder deveria ser transferido para a Assembléia Geral? O que acontecerá se as discussões acabarem em um beco sem saída? Estas são algumas das dúvidas que surgem nos escritórios de Nova York. Brown foi mencionado como possível ?candidato de consenso? caso o processo de eleição fique em ponto morto.
Este funcionário já foi vice-presidente do Banco Mundial, administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e chefe da equipe da Secretaria Geral. Caracteriza-se por ser franco em suas declarações, públicas, as quais desataram controvérsias nos últimos meses com o Sindicato de Funcionários da ONU e com o Grupo dos 77, a máxima coalizão de nações em desenvolvimento dentro das Nações Unidas, com 132 membros.
Em entrevista de uma hora com a IPS, Brown qualificou de ?injustas? as afirmações de que é atualmente o ?secretário-geral de fato da ONU?, apesar de, nos fatos, dirigir as atividades diárias da organização, enquanto Annan realiza uma viagem por várias capitais antes de deixar o cargo em dezembro. ?Considero muito injusto, pois deixei um maravilhoso trabalho no Pnud para enfrentar uma crise da ONU nesse momento, que incluía o (escândalo de corrupção na administração do) programa Petróleo por Alimentos (para o Iraque) e um conflito nas relações com os Estados Unidos?, afirmou.
Trabalhei muito duro com o secretário-geral para estabilizar estas coisas. E quando me vejo satisfeito com meu trabalho é sendo leal tenente de um secretário-geral de muito êxito?, afirmou. ?Fiz isso para que Annan recuperasse sua autoridade e sua reputação. O fiz por alguém que conheço há 20 anos como um amigo muito próximo. O fiz por uma organização pela qual me preocupo e me sinto orgulhoso de servir?, acrescentou. Esta é parte da conversa que a IPS manteve com Brown:
Como ex-chefe da equipe da Secretaria Geral e agora vice-secretário-geral, por que pensa ter causado tanta controvérsia? Se a organização não é bem dirigida, não é por culpa do secretário-geral, mas do pobre chefe de equipe, que é quem sempre recebe a culpa. As pessoas ainda cravam agulhas na figura frágil do ex-chefe de equipe (Iqbal) Riza. Quando deixei o posto de chefe de equipe (abril de 2006) esperava que dessa maneira abandonaria os problemas, mas estes vieram comigo. Alguém precisa ser forte e manter o senso de humor. Não me preocupo admitir que no processo de limpar as coisas no último ano e meio estive disposto a tomar decisões muito duras. Creio que os que tomam as decisões são muito raros por aqui e atraem muita controvérsia e agressividade. Mas acredito que posso destacar o que realizei em 18 meses e dizer que, longe de ser ? para usar suas próprias palavras ? o secretário-geral de fato, fiz o nosso secretário-geral mais forte do que antes. Você discordaria disso? Ele está novamente em forma quando se aproxima o fim de um mandato de muito êxito. A organização está, no geral, bem dirigida e ele é o líder, e isto redunda em crédito para ele, e assim deve ser.
Quando foi criado o cargo de vice-secretário-geral, em 1997, foi dito que havia um ?acordo de cavalheiros? pelo qual se o secretário-geral fosse homem, o vice deveria ser mulher. Há algo de verdade nisso? O secretário-geral não parece estar inteirado disso, e nunca tratou comigo a esse respeito. Obviamente, se o secretário-geral nomeia um vice para um período completo, seria muito sensato na sociedade de hoje ter como vice uma mulher e vice-versa. Por isso, espero que se o próximo secretário for homem escolha uma mulher para ser sua vice. Mas não cabe a mim ir além de imaginar. Espero que o novo secretário-geral siga de verdade essa norma se procura uma equipe que conte com o máximo de confiança no atual ambiente intelectual, social e político. Aqui (nos escritórios da Secretaria Geral, no 38º andar da ONU) não mudou o equilíbrio (de gênero). De fato, somos dois homens nos dois principais postos, mas pela primeira vez, temos uma chefe de equipe procedente de um país em desenvolvimento (a mexicana Alicia Barcena). O mais importante é que no 38º andar não mudou o equilíbrio em termos de gênero e representação do Sul em desenvolvimento: estão Gana, Grã-Bretanha, México, Índia e Guiné-Bissau. Sou o único ocidental neste grupo.
Especula-se que se houver um ponto morto na eleição do sucessor de Annan o senhor poderia ser um candidato de consenso. O que pensa disso? Bem, se quer saber a razão pela qual algumas pessoas afirmam que sou o secretário-geral de fato, deve ser por que estão preocupadas. Mas posso acalmá-las, porque até onde sei estou completamente seguro de que sairá um novo secretário-geral de primeira classe da Ásia muito antes de dezembro. E estou mais certo ainda de que a ONU necessita neste momento de alguém que represente o mundo emergente da Ásia e seja uma nova liderança. Por isso, como um leal funcionário das Nações Unidas, estou absolutamente comprometido com a causa de colaborar com o processo de eleição, que permita a escolha de um novo secretário-geral procedente da Ásia no próximo ano.
Está tão certo de que o próximo secretário-geral virá da Ásia? Bom, isso depende dos Estados-membros. Não tenho participação nisso. Creio que deve ser a melhor pessoa para o cargo. Mas, parte do critério, que Kofi Annan reuniu em abundância, é capturar as aspirações do mundo no momento em que a pessoa assume o cargo. E você sabe que um britânico de dentro da ONU não conseguiria isso. É um posto para um líder moderno da Ásia com experiência direta neste fenômeno extraordinário do crescimento econômico, a mudança política, os desafios ambientais e a instabilidade ocasional que enfrenta a Ásia. Alguém que tenha experiência em tudo isso captará exatamente o que a ONU necessita para os próximos 10 anos. Necessita ser um grande diplomata, um grande administrador e, também, um líder forte. Mas creio que a aposta asiática é parte crucial desta receita.
O senhor fez uma declaração pública afirmando que deixaria a ONU junto com o secretário-geral. Mas existe uma teoria conspiratória manejada por alguns diplomatas segundo a qual, sem importar que seja eleito para o máximo cargo, as grandes potências pediriam ao senhor para permanecer em seu cargo como condição para apoiá-lo. Sob estas condições, se o novo secretário-geral insistir, o senhor ficaria?
Em primeiro lugar, a razão pela qual isto funciona agora é que o secretário-geral e eu somos amigos há 20 anos. Além disso, nos entendemos bem e nossa amizade é muito longa. A situação que você descreve seria a de um caso imposto, sem uma amizade de 20 anos. Por que eu iria querer algo assim? As pessoas esquecem que sou um homem ligado a assuntos de desenvolvimento. Kermal Dervis pensa ter o melhor trabalho do mundo como administrador do Pnud. Eu pensei o mesmo, e agora quero voltar a fazer algo na área do desenvolvimento. Volte no dia 31 de dezembro e verá que terei terminado com isto. Levarei a pasta do chefe até o carro quando ele se for. (IPS/Envolverde)

