Saúde: Uma aliança pela vida materna e infantil

Genebra, 29/05/2006 – Uma das desigualdades atuais se reflete na estatística anual de mortes de quatro milhões de recém-nascidos, de mais de um milhão de grávidas ou parturientes e de seis milhões de crianças que não chegam a completar cinco anos de idade. A dimensão desses números se agiganta quando as autoridades sanitárias internacionais afirmam que a soma dessas mortes supera o total de mortes causadas, a cada ano, pela aids, tuberculose e malária. Um dado anterior confirma que a quase totalidade dessas mortes ocorre nos países em desenvolvimento, e mais da metade na África.

Mas pouquíssimas pessoas, inclusive entre o pessoal médico, estão conscientes da magnitude desse problema de saúde pública, afirmou na semana passada, em Genebra, Kjell Magne Bondevik, ex-primeiro-ministro da Noruega. Entretanto, a comunidade internacional não está alheia à questão, pois os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, adotados pela Organização das Nações Unidas, incluem metas específicas para minimizar esses males até 2015. O quarto dos oitos objetivos fixados pela ONU propõe reduzir em dois terços a mortalidade das crianças menores de cinco anos, enquanto o quinto objetivo fala em diminuir a mortalidade materna em três quartos.

Mas desde que foram estabelecidos em 2000, os avanços para concretizar os Objetivos do Milênio se mostram mesquinhos por se dar já como certo que algumas metas são inalcançáveis. Diante dessa realidade, cerca de 80 entidades, entre as quais figuram agências da ONU e organismos multilaterais, organizações não-governamentais, associações profissionais de saúde, doadores bilaterais e instituições acadêmicas e científicas, decidiram unificar esforços para aproximar o mundo dessas metas.

Assim, em setembro de 2005 surgiu a iniciativa Aliança para a Saúde da Mãe, do Recém-Nascido e a da Criança, com a missão de transformar os sistemas sanitários que atendem as mulheres e crianças, como reclamou Bondevik na Assembléia Mundial da Saúde, realizada na semana passada, em Genebra. Bondevik, atual enviado humanitário da ONU para o Chifre da África, afirmou que essa tarefa deveria ser vista "nesta era de abundância global como uma brecha maciça que divide ricos e pobres". Por isso, só o poderemos fazer se trabalharmos juntos", ressaltou à IPS.

"A Aliança era necessária porque nos encontramos diante de um progresso extremamente lento na redução do peso deste flagelo", reforçou Stewart Tyson, funcionário do Departamento de Desenvolvimento Internacional do governo da Grã-Bretanha, um dos 80 organismos que participam da iniciativa. A idéia consiste em integrar todos os esforços agora dispersos feitos a favor da saúde materna, do recém-nascido e da criança, disse Francisco Songane, ex-ministro da Saúde de Moçambique, que agora é diretor da Aliança no contexto da Organização Mundial da Saúde (OMS). "No passado tivemos muitas iniciativas de grande envergadura, porém fracassaram porque não adotaram este enfoque de integração", disse Tyson.

Os ministros da Saúde se queixavam das dificuldades e dos custos de atender ao mesmo tempo iniciativas diferentes para esses três problemas. Assim, nas segundas-feiras era dia da saúde materna, nas terças dos programas neonatais e no dia seguinte da infância, ironizou o funcionário britânico. Os investimentos da aliança se concentrarão nos países que apresenta índices mais altos de mortalidade materna e infantil. Dessa forma, a cada ano poderiam ser evitadas mortes de aproximadamente sete milhões de mulheres e crianças. Songane não acredita na possibilidade de, em conseqüência dessas atividades, surgirem sistemas de saúde paralelos nos países atendidos. "Não haverá invasão de enfoques verticais", tranqüilizou. "Ao fundir três iniciativas existentes, se está enviando um sinal muito forte de harmonização e redução de duplicações e exigências aos países", afirmou Tyson.

Todas as partes comprometidas deverão fazer esforços para reduzir as taxas de mortalidade materna, de recém-nascidos e de crianças, disse Mushtaque Chowdhury, subdiretor da Comissão de Desenvolvimento Rural de Bangladesh, a mais importante organização não-governamental desse país, conhecida pela sigla inglesa BRAC. "Nessa fase devem ter um papel primordial as comunidades, e em conseqüência, também as ONGs", disse Chowdhury á IPS. As entidades da sociedade civil acreditam neste tipo de associação e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio não poderão ser alcançados sem a união de todas as partes envolvidas, insistiu o especialista de Bangladesh.

Bondevik destacou que os programas de pesquisa e desenvolvimento por inovações em matéria de saúde materna e perinatal deverão ter um novo enfoque no futuro, diferente do que rege nos sistemas atuais de propriedade intelectual. Essas atividades terão que se orientar para as necessidades de todas as populações, especialmente as que mais urgentemente precisam de prevenção e intervenções médicas eficazes e accessíveis, afirmou. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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