Washington, 23/01/2005 – A visão de um mundo dominado pelos Estados Unidos, no papel de uma Nova Roma sem rivais, parece cada vez mais um sonho dos neoconservadores que cercam o presidente reeleito George W. Bush, devido aos déficits comercial e orçamentário sem precedentes e à paralisação a qual levou a ocupação do Iraque. Se não se impor ao mundo a "Pax Americana" sonhada pela coalizão de neoconservadores, nacionalistas agressivos e cristãos direitistas que impulsionou a guerra no Iraque, o que acontecerá? Três possibilidades são a mais discutidas em Washington por especialistas em política internacional.
Entre as elites alheias ao governo predomina a idéia de que se voltará a uma "filosofia realista" como a do governo de George Bush pai (1989-1993), de modo que Washington manterá uma hegemonia mundial afetada por sua relativa debilidade econômica, e deverá ter em conta os interesses de outras potências quando adotar suas principais decisões em matéria de política internacional. Esta visão, que é mantida pelo ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) e foi defendida com ênfase este ano pelo candidato presidencial opositor John Kerry, derrotado por Bush em 2 de novembro, dá prioridade ao fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, em especial com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Os "realistas" preferem a ação multilateral e apóiam a "intervenção humanitária" em certas circunstâncias, sobretudo com patrocínio da Organização das Nações Unidas ou da Otan, como ocorreu nos Balcãs, no Haiti e em Timor Leste. A segundo alternativa, que é a preferida por França e China, se baseia em conceber os Estados Unidos como uma entre várias potências de um mundo que é ou tende ser "multipolar", e no qual a intervenção humanitária ou contra "Estados renegados" deve ser autorizada e coordenada pelo Conselho de Segurança da ONU, talvez com mais integrantes e mais representativo da comunidade internacional. Essa visão, como a de Bush pai, visa assegurar a estabilidade, embora à custa do predomínio de Washington.
Caso o mundo se ordene dessa maneira, uma potência não poderia exercer a violência de forma unilateral contra a vontade das demais, como fizeram os Estados Unidos no Iraque, já que seria contida através da diplomacia, de sanções econômicas ou, ainda, pelo uso da força. Quando as ações unilaterais foram cometidas por Washington, e devido à sua superioridade militar, o modo mais provável de freá-las seria o econômico, por exemplo, negando-lhe apoio econômico crucial para suas aventuras bélicas, ou de maneira ainda mais potente, através da venda de dólares para forçar sua desvalorização, embora isso colocasse em perigo a economia internacional. Este tipo de ordenamento internacional começa a tomar forma aceleradamente. Segundo indicou o colunista Fred Kaplan no jornal The New York Times há poucos dias, os bancos centrais dos países produtores de petróleo do Oriente Médio, junto com Rússia e China, estão passando maiores porcentagens de suas reservas para euros, em lugar de dólares.
Isso se deve a uma estratégia "desenhada especificamente para desafiar a hegemonia mundial do dólar", afirmou T. R. Reid, correspondente do jornal The Washington Post, em seu novo livro, intitulado "Os Estados Unidos da Europa: A nova superpotência e o fim da supremacia norte-americana". Inclusive no campo militar, desenvolve-se o que os partidários do "realismo" chamam de contrapeso do poder norte-americano, e no final do ano Rússia e China anunciaram que realizarão suas primeiras manobras conjuntas em grande escala, com participação de submarinos e provavelmente também de bombardeiros estratégicos.
Em março, a China realizou junto com a marinha de guerra da França as maiores manobras militares conjuntas de sua história, e não demorou a reação do Pentágono (Ministério de Defesa dos EUA), que lançou uma forte campanha para que a União Européia não levantasse o embargo de venda de armas imposto à China há 15 anos, pela matança de dissidentes da Praça Tiananmen de Pequim. Esta campanha foi acompanhada por forte pressão contra Israel para que cessasse a venda à China de todo tipo de equipamento militar, e inclusive a restauração de equipamentos antigos. Uma terceira possibilidade manejada pelos especialistas, não necessariamente incompatível com a segunda, é a de um caos internacional, caso as grandes potências não possam impor ordem e estabilidade em grandes áreas do planeta, e em alguns casos nem mesmo em suas próprias zonas de influência direta, como ocorreu com a União Européia na ex-Iugoslávia no início dos anos 90, nem os Estados Unidos no Haiti, em 2004.
Um grave "vazio de poder" pode levar ao "anárquico pesadelo de uma nova Idade Escura, de impérios minguantes, fanatismo religioso, saque endêmico e pilharem nas regiões esquecidas do mundo, paralisação econômica e retirada da civilização para escassos enclaves fortificados", afirmou o historiador neoconservador britânico Niall Ferguson, na edição de verão (boreal) da revista especializada norte-americana Foreign Policy. Os únicos possíveis rivais do "hiperpoder" norte-americano, União Européia e China, são muito mais débeis do que parecem, porque o envelhecimento da população e a decrescente natalidade levam a Europa a "declinar em termos de influência e importância internacionais", enquanto a China pode seguir rumo a uma grave crise devido à corrupção, falta de governabilidade, forte dependência das exportações e fraco sistema financeiro, afirmou.
Fergusson também admitiu, penalizado, que o colosso norte-americano tem "pés de barro", pelo desequilíbrio entre seu "poder duro" (coercitivo) e seu "poder brando" (de atração", real dependência de capitais externos e pela falta de experiência e paciência para construir nações e manter o império. Neste novo mandato de Bush a pergunta é para qual alternativa se inclinará, voluntária ou involuntariamente, o governo, que reviveu uma retórica multilateralista mas ainda parece desejoso de controlar um mundo unipolar. "O isolacionismo sempre é a opção por defeito" da política externa norte-americana, disse Kenneth Adelman, um destacado neoconservador que integrou a Mesa de Políticas de Defesa do pentágono no início da "guerra contra o terrorismo" lançada por Bush depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington.
De fato, nos últimos 21 meses, a frustração pela guerra do Iraque e pela ausência de apoio a essa campanha e à posterior ocupação do território iraquiano por parte dos tradicionais aliados de Washington aumentaram a hostilidade contra essas nações, incluindo as árabes e a França, bem com contra a ONU e ao multilateralismo em geral. Esse tipo de sentimento, alimentado pelas pretensões de superioridade moral da Direita Cristã e dos neoconservadores, tem uma representação mais forte do que nunca nos poderes Executivo e Legislativo. (IPS/Envolverde)

