Argélia: Mulheres inundam o mercado profissional

Argel, 07/06/2006 – As mulheres da Argélia, tradicionalmente se dedicam a tecer, à cerâmica artesanal, cozinhar e criar seus filhos. Mas isto começa a ficar para trás ao ampliar sua área de inserção trabalhista devido à conjuntura sócio-econômica e às novas leis neste país de maioria muçulmana. As argelinas, pouco a pouco, vão forjando um caminho seguro para elas mesmas em determinados setores econômicos ainda sob predomínio masculino, como o comercial, em seu sentido mais amplo.

Apesar de na atualidade as mulheres ocuparem apenas 9,1% de quase um milhão de postos de trabalho do setor comercial, o ingresso no ano passado foi de cinco mil trabalhadoras, 5,9% a mais do que em 2004, segundo o Centro Nacional de Registro Comercial (CNRC). "É alentador ver como as mulheres estão se dedicando às atividades comerciais e de negócios como os homens, sem restrições", disse Aicha Djerrar, professora de urbanismo na Universidade de Constantina, norte da Argélia. Esta mudança expõe as difíceis condições econômicas neste país.

O Escritório Nacional de Estatística situa o desemprego em 17% da população economicamente ativa. "O número de mulheres no setor comercial sempre tende a crescer em um contexto sócio-econômico caracterizado pelo desemprego", disse à IPS um diretor do departamento comercial de uma empresa de Kabylia, centro do país. "Se pensamos na situação de 10 ou 20 anos atrás, se vê que a mulher argelina preferia os trabalhos fáceis que, ao mesmo tempo, permitissem que cuidassem de seus filhos.A situação econômica não as obrigava a trabalhar", explicou.

O sociólogo Brahim Touhami, professor da Universidade de Constantina, compartilha dessa visão. "O contexto socioeconômico do país faz com que cada vez mais as mulheres tenham que satisfazer as necessidades da família. Isto está permitindo que elas ingressem nas atividades comerciais onde atuam sem complicações", acrescentou. "O desemprego e a falta de um trabalho apropriado para elas faz com que prefiram o setor comercial", disse Touhami. "Não existe nenhum tipo de restrição que nos impeça de realizar atividades comerciais", contou à IPS Fatiha Illoul, uma advogada que agora trabalha na área da construção. O faturamento anual de sua empresa em Kabylia, que constrói e vende casas, chega a US$ 150 mil.

Por sua vez, Salima Bensalem, que trabalha na área de vestimenta em Argel, capital do país, disse que "graças a Deus não tive dificuldades para realizar meu trabalho. Ao contrário, o governo incentiva as mulheres a serem empreendedoras", ressaltou. O setor financeiro trata por igual as mulheres, disse Lahcene Aziz, um diretor do Banco de Desenvolvimento Local de Kabylia. "Os bancos não seguem nenhuma lei que trate de maneira diferente as mulheres dos homens. Elas se beneficiam dos mesmos direitos deles no financiamento de seus projetos", disse à IPS.

Uma pesquisa do CNRC sobre as empresas administradas por mulheres mostra que 36% trabalham no setor de serviços, mais de 26% na produção industrial e cerca de 17% na área de importações. Outros 17% integram o setor de importações e exportações. O Centro de Pesquisa Econômica Aplicada e Desenvolvimento de Argel indicou que as mulheres não estão muito interessadas na área do transporte, indústria da cortiça, mineração, agricultura. Atividades como soldar continuam sendo desempenhadas principalmente por homens.

Enquanto algumas mulheres como Illoul e Bensalem consideram o mundo empresarial como um oásis, as mulheres das comunidades muçulmanas conservadoras pensam de outra maneira. Abdenour Larabi, vendedor de frutas e verduras no centro de Argel, é um dos que abertamente considera que as mulheres não devem trabalhar. "A mulher deve se dedicar exclusivamente às tarefas domésticas e à educação dos filhos", disse à IPS. "Mesmo quando tem de sair de casa por algum assunto urgente, deve estar acompanhada de seu tutor ou marido", acrescentou.

Esta forma de pensar persiste apesar de uma interpretação mais liberal do Islã no âmbito governamental. O Islã habilita as mulheres a trabalhar no mundo empresarial, afirmou Said Bouyzri, diretor do Departamento de Assuntos Religiosos em Kabylia e doutor em lei islâmica (sharia). "As mulheres podem realizar atividades comerciais, mas não é obrigatório, porque é dever do homem satisfazer as necessidades da família", segundo os preceitos do Islã, explicou Bouyzri. (IPS/Envolverde)

Kaci Racelma

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