Iraque: Necrotério de Bagdá, ao inferno sem escala

Bagdá, 08/06/2006 – O necrotério central da capital do Iraque recebeu mensalmente, desde janeiro, mais de mil corpos, o que evidencia a magnitude da violência neste país, nebulada por otimistas estatísticas oficiais. Antes da guerra, o necrotério localizado na área de Bab a-Mu?atham, perto do centro da cidade, recebia entre 200 e 300 corpos por mês, segundo o médico Kais Hassan. O local tem somente três salas. Há apenas dois médicos. Portanto, o necrotério está defasado. Em alguns dias chega a receber mais de cem corpos. Sua capacidade foi ampliada no período de governo de Ibrahim al-Jaafari, que assumiu o cargo de primeiro-ministro depois das eleições de janeiro de 2005 e foi persuadido a renunciar no início deste ano. O ministro do interior na época era Bayan Jabr.

As matanças em Bagdá aumentaram depois da ocupação, mas recrudesceram ainda mais o início dos enfrentamentos entre diferentes facções combatentes e a criação do que os iraquianos comumente chamam de esquadrões da morte. "A maioria dos mortos que chegam aqui foram surrados e torturados com eletricidade, ácido, torniquetes e outras formas horripilantes", contou no necrotério um iraquiano que não quis se identificar. "Agora, cada vez que a polícia prende uma pessoa significa que alguns dias depois encontraremos seu corpo nas ruas de Bagdá. Com todas as matanças que ocorrem, este necrotério não dá mais conta", afirmou.

Um cheiro nauseabundo inunda todo o prédio. Uma multidão de familiares busca, invadidos pelo pranto, seus entes queridos. A IPS não conseguiu permissão para entrar no necrotério porque as autoridades proibiram os jornalistas de informar sobre as condições do estabelecimento. "O último responsável pelo local, Faik Bakr, recebeu ameaças de morte porque disse que nos últimos meses mais de sete mil iraquianos haviam sido assassinados por esquadrões da morte. A maioria dos cadáveres chega com as mãos amarradas às costas", contou um funcionário à IPS. Em seguida, o homem recomendou ao correspondente da IPS deixar imediatamente o local.

Ahmed, que junto com sua família estava entre a multidão do lado de fora do necrotério, explicou a razão de tantas famílias aguardarem ali. "Todos buscam seus filhos, pais, mães e amigos que desapareceram há alguns dias. Procuram aqui porque foram presos por combatentes usando uniforme de policiais. No Iraque, se uma pessoa é presa por eles, sua família vem ao necrotério para encontrá-la", afirmou. Os cadáveres são levados até o local por escoltas policiais várias vezes ao longo do dia. Enquanto a IPS conversava com Ahmed, dois veículos da polícia chegaram transportando muitos corpos.

Depois de alguns minutos de confusão, um homem começou a gritar "Este é meu filho. Foi torturado e assassinado, o perdi para sempre". Muitos o cercaram para consolá-lo. O corpo apresentava muitas perfurações e estava sem um dos olhos. A IPS conseguiu falar com o pai, Ali, depois que o corpo foi levado para dentro do necrotério. "Era comerciante, na rua Al-Rashid. A polícia o deteve há três dias e o encontro aqui, morto", disse. Ali acredita que seu filho foi assassinado apenas por praticar o Islã segundo a doutrina sunita. Não era procurado pela polícia por nenhum crime, afirmou. "Todos seus amigos o queriam bem, todos o apreciavam. Era inocente, não fez nada de mau", lamentou Ali.

Perto do necrotério há um grande estacionamento. Ramadan, um guarda de 40 anos, é testemunha silenciosa do que ocorre durante todo o dia. "Há uma semana trouxeram mais de cem corpos em um dia, desde Al-Taji, ao norte de Bagdá, e outro dia foram apenas 20. Chegam, em média, de 50 a 60 por dia", contou. Ramadan nem sempre assiste a tudo desde o estacionamento. "Muitas vezes ajudei os empregados do necrotério a colocar os corpos para dentro. Lá não está suficientemente refrigerado e há corpos empilhados uns sobre outros. Há cadáveres no chão e por todos os lados", acrescentou. Os corpos pertencem tanto a sunitas quanto a xiitas. "Vejo os familiares quando vêm buscá-los. Pertencem às duas correntes, devido à guerra sectária que há no Iraque. Espero um dia poder encontrar outro trabalho e ir embora daqui", disse Ramadan. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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