Direitos Humanos: EUA na defesa diante de acusação européia

Washington, 09/06/2006 – Organizações de direitos humanos aplaudiram na quarta-feira o informe do Conselho da Europa sobre entregas secretas de prisioneiros dos Estados Unidos a países que praticam a tortura, mas Washington semeou dúvidas sobre sua veracidade. "A Anistia Internacional aplaude o informe (…), que deixa claro que Washington teceu uma 'teia de aranha? de entregas à margem do estado de direito, e que inclui desaparecimentos, detenções arbitrárias, transferências ilegais, torturas e outros maus-tratos", disse Larry Cox, diretor da filial norte-americana da Anistia. Ao mesmo tempo, o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormick, questionou o estudo realizado pelo senador suíço Dick Marty para o Conselho, formado por 41 países europeus.

"Estamos, certamente, decepcionados por seu tom e conteúdo. Isto poderia parecer a reiteração de esforços anteriores desse grupo. Não vejo nenhum fato novo sólido ali. Parece haver muitas acusações, mas não fatos reais", afirmou o porta-voz. Mas McCormick não negou explicitamente as revelações do informe. Pelo contrário, insistiu que as "entregas extraordinárias" de prisioneiros (captura e transferência extrajudicial de suspeitos de terrorismo por parte da CIA) eram uma "prática legal internacionalmente reconhecida". Esse e outros mecanismos de "cooperação de inteligência entre Estados Unidos e outros países em todo o mundo salvam vidas na guerra contra o terror", acrescentou.

A maioria dos analistas acredita que o principal objetivo das entregas é interrogar os prisioneiros em países mais tolerantes a técnicas abusivas, incluindo a tortura, do que os Estados Unidos ou as nações onde foram capturados. Segundo funcionários norte-americanos, a Agência Central de Inteligência (CIA) nunca entrega suspeitos a agências estrangeiras sem garantias de que não serão torturados. O informe do Conselho da Europa se baseia fundamentalmente em registros de vôos de aviões da CIA desde e para esse continente, bem como sobre o testemunho de algumas das vítimas das entregas extraordinárias.

A prática ficou conhecida por uma matéria publicada em novembro passado pelo jornal The Washington Post, segundo a qual a CIA não só usava o espaço aéreo e os aeroportos europeus para o transporte dos presos, como também administrava prisões secretas em dois países da Europa oriental. Esse trabalho jornalístico ganhou o prêmio Pulitzer, o de maior prestígio da imprensa norte-americana, e levou a uma investigação criminal a cargo do Departamento de Justiça.

A organização Human Rights Watch (HRW) identificou a Polônia e a Romênia como os dois países onde a CIA instalara prisões clandestinas. Os governos das duas nações rechaçaram a acusação. A Anistia garantiu que a Agência organizou para as entregas cerca de mil vôos através de empresas de fachada. A maioria cruzou o espaço aéreo europeu e aterrissou em aeroportos desse continente em seu caminho para Egito e Jordânia, países árabes aliados dos Estados Unidos.

Os aviões também se dirigiram à base naval norte-americana de Guantânamo, em Cuba, onde Washington mantém 500 presos de sua "guerra contra o terrorismo". O suíço Marty acusou 14 países europeus de cumplicidade com as entregas. Alguns foram "responsáveis por violação dos direitos de pessoas específicas", entre eles Alemanha, Bósnia-Herzegovina, Grã-Bretanha, Itália, Macedônia, Turquia e Suécia. Outros, foram "responsáveis por conivência pacífica ou passiva", como Chipre, Espanha, Grécia, Irlanda, Polônia, Portugal e Romênia.

Todos esses países, segundo Marty, integravam a "teia de aranha" de lugares no mundo utilizados para facilitar as entregas que, apesar de McCormick, eram "profundamente distantes" das normas internacionais, incluindo a Convenção Européia de Direitos Humanos. Marty corroborou a acusação da HRW contra a Polônia e a Romênia com sedes de instalações de detenção temporária de prisioneiros suspeitos de terrorismo, e também identificou oito países não-europeus: Afeganistão, Egito, Jordânia, Marrocos, Paquistão e Uzbequistão. Os aeroportos de Timisoara, na Romênia, e Szymany, na Polônia, eram pontos de "transferência e entrega de presos", e os suspeitos eram "levantados" na Bósnia-Herzegovina, Itália, Macedônia e Suécia com o conhecimento de cada governo.

Mas o informe pareceu confirmar um ponto no qual os Estados Unidos insistiram muito: que Washington havia informado sobre essas atividades os governos dos países envolvidos. "Não está claro, embora ainda estejamos longe de estabelecer toda a verdade, que as autoridades de vários países europeus participaram ativamente com a CIA nessas atividades ilegais. Outros países ignoraram, ou não quiseram tomar conhecimento delas", diz o documento. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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