Washington, 23/01/2005 – Há um ano, os Estados Unidos tiravam de seu "ninho" o derrocado presidente iraquiano Saddam Hussein e seus comandantes anunciavam a queda da imprevista resistência que havia assolado por dois meses as forças de ocupação no Iraque. O governo de George W. Bush se mostrava jubiloso, destacando a luz no final do túnel de uma guerra iniciada em março de 2003. E com isto resolvido, os demais integrantes do "eixo do mal", Irã, Coréia do Norte e algum outro estado renegado como Síria, entenderiam bem a mensagem. Depois de tudo, o próprio líder da Líbia, Muammar Gadafi (renegado crônico por excelência), aparentemente muito impressionado pela sorte de Saddam, anunciava o desmantelamento voluntário de todas suas armas não convencionais. "Deixamos claro as opções que restam aos potenciais adversários. Espero que outros líderes sigam o exemplo" da Líbia, dizia o confiante Bush.
Depois da aparente vitória da tomada de Bagdá e da presença de Bush no porta-aviões Abraham Lincoln, no dia 1º de maio de 2003, o momento da incontida supremacia norte-americana (a chegada do "novo século americano") parecia ao alcance da mão para os que a sonhavam, com o início do novo ano. Mas, ao terminar 2004, o "mundo unipolar" tão devotadamente perseguido pelos neoconservadores e ultranacionalistas que comandam a política externa de Washington desde 2001, parece mais em dúvida do que nunca. Um ano mais tarde, as tropas norte-americanas ainda lutam contra rebeldes iraquianos, de maneira mais letal e sofisticada. E com a contínua preocupação de Washington com a guerra que não consegue ganhar no Iraque, o colosso norte-americano mostra que não está pronto para a dominação global, apesar das regulares advertências que dirige a Teerã e Pyongyang.
E não é apenas porque o Departamento de Estado admitiu implicitamente que não havia tropas suficientes no Iraque, enviando mais 12 mil soldados para integrar uma força de 138 mil efetivos. É que a debilidade de Washington se manifesta no decrescente número de países que integram a "coalizão dos dispostos" que tomou parte (nominalmente) da invasão do Iraque em março de 2003. Dos 44 países (incluídos Palau e as ilhas Salomão) que Bush mencionava com prova de seu multilateralismo quando iniciou a guerra, restam somente 28 (incluídos Palau e as ilhas Salomão). Os neoconservadores ou "falcões" proclamavam que os Estados Unidos eram tão dominantes (como se podia ver no Iraque) que aliados renitentes, como França e Alemanha, e inclusive rivais estratégicos, com Rússia e China, não teriam outro caminho a não ser alinharem-se, nem que fosse para ficar com parte do que fosse pilhado.
"A França se referirá de uma maneira muito diferente aos Estados Unidos quando um governo decente, democrático e pró-norte-americano começar a funcionar na liberada Bagdá, e forem abertas as licitações para contratos petrolíferos", previa em janeiro de 2003 o colunista neoconseervador Charles Krauthammer, no jornal The Washington Post. Particularmente daninha foi a defecção do que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, chamou de a "Nova Europa" (composta em sua maioria por repúblicas do Leste europeu) um cavalo de Tróia que Washington calculou que impedira a União Européia de se emergir como contrapeso geopolítico dos Estados Unidos. Em uma evidente ironia, o candidato favorito de Washington, Víktor Yushchenko (vencedor das eleições presidenciais na Ucrânia) prometeu retirar do Iraque centenas de efetivos de seu país.
O próprio Krauthammer diminuiu sua visão neoconservadora do início do ano em um discurso que intitulo "Realismo democrático: uma política externa norte-americana para um mundo unipolar" na comemoração anual do centro de estudos American Enterprise Institute. Os Estados Unidos "foram designados guardião do sistema internacional" em virtude de sua superioridade militar, disse na época. Mas, o que está cada vez mais sendo questionado é a idéia do governo de que sua preponderância militar (desafiada de diversas maneiras pela resistência iraquiana) lhe dá o poder e a capacidade de impor sua vontade ao resto do mundo sem o apoio de outras nações.
Como escreveu há alguns meses Francis Fukuyama, um neoconservador pragmático, a visão de Krauthammer está "incrivelmente desconectada da realidade", pois acredita que a guerra contra o Iraque ("aplicação arquetípica da unipolaridade norte-americana) foi um sucesso sem precedentes. "Não há a menor atenção aos novos dados surgidos há um ano: o fracasso em encontrar armas de destruição em massa no Iraque, o virulento e sólido sentimento antinorte-americano no Oriente Médio, a crescente insurgência no Iraque, o fato de nesse país não ter surgido nenhuma liderança democrática", enumerava Fukuyama na revista The National Interest.
E continuava: "O enorme custo humano e financeiro da guerra, o fracasso em deter o conflito e avançar na crise palestino-israelense e o fato de que os aliados democráticos dos Estados Unidos não se alinharem nem legitimarem suas ações a posteriori. A pobre estratégia para construir uma nação no Iraque envenenará o futuro de tais exercícios, reduzindo o apoio político interno para um internacionalismo visionário e generoso, do mesmo modo como fez a guerra do Vietnã", concluía Fukuyama.
O panorama se tornou mais evidente desde que esse artigo foi escrito, devido a vários fatos, como as torturas contra prisioneiros iraquianos, a crescente quantidade de baixas militares e civis e a queda do dólar, para mencionar alguns. O diagnóstico agora é amplamente aceito tanto entre os aliados dos Estados Unidos quahnto por sua própria diplomacia externa, com exceção dos falcões que continuam cercando Bush. Até que ponto Bush compreendeu esta situação é a maior pergunta que o presidente enfrenta ao chegar 2005 e seu segundo mandato. (IPS/Envolverde)

