Nairóbi, 23/01/2005 – O recém-formado governo da Somália tinha como principais desafios para 2005 consolidar seu poder e pacificar o território, mas o devastador maremoto no oceano Índico apresentou novos desafios. O primeiro-ministro interino, Alí Mohammed Ghedi, anunciou uma viagem a Mogadíscio para avaliar pessoalmente os efeitos de tragédia. Ghedi integra o governo do presidente Ahmed Yusuf, instalado no dia 3 de novembro, que por razões de segurança tem sede em Nairóbi, capital do Quênia, onde desde 2002 se desenvolvem as conversações somalianas de paz.
Os tsunamis, palavra japonesa usada para se referir a grandes ondas causadas por um terremoto ou uma erupção vulcânica no fundo do mar, deixaram cerca de 120 mortos neste país do Chifre da África, há décadas vítima da guerra civil, da fome, das secas e da pobreza. A Somália, antiga colônia italiana, está em guerra civil desde 1991, quando diferentes facções derrubaram o ditador Mohammed Siad Barre para, em seguida, entrarem em lutas internas. A província de Puntland declarou sua autonomia em 1998, e a de Somalilândia, ex-colônia britânica anexada por Mogadíscio em 1960, declarou sua independência em 1991, embora não seja reconhecida pela Organização das Nações Unidas. Os clãs Hawiye, Digle-Mirifle, Dir e Darod lutam entre si, e existe um quinto clã formado por 14 grupos minoritários. A guerra civil deixou mais de 300 mil mortos, segundo agências humanitárias. A intervenção da ONU ocorreu entre 1992 e 1995.
A catástrofe causada pelo maremoto poderia antecipar a mudança do governo de Yusuf para Mogadíscio, que estava prevista para meados deste novo ano. Bangladesh, Birmânia, Indonésia, Malásia, Maldivas, Tailânida e Sri Lanka foram os países mais afetados pelos Tsunamis. O maremoto foi causado por um tremor de 9 graus na escala Richter, com epicentro perto da ilha indonésia de Sumatra, no Índeico. As ondas também atingiram Quênia, Somália e Tanzânia. O ministro do Meio Ambiente do Quênia, Kalonzo Musyoka, informou que toda a força armada do país foi colocada em alerta máximo.
Por sua vez, Ghedi disse que na Somália há cerca de 35 desaparecidos e outras 50 mil pessoas ficaram sem ter onde morar por causa das inundações. "O primeiro-ministro encabeçará uma missão integrada por autoridades somalianas e de agências internacionais para examinar o lugar" da catástrofe, disse à IPS o chefe do escritório de imprensa da presidência, Yusuf Baribari. "O número de mortos supera os cem. Ainda estamos recebendo informação sobre a catástrofe. Todas as redes de pesca, barcos e equipamentos de refrigeração na costa foram destruídos pela água. A maioria das aldeias costeiras ficou completamente submersa", acrescentou.
Baribari informou que a Somália necessitará de ajuda humanitária dos países vizinhos e de toda a comunidade internacional. "Necessitamos de todo tipo de ajuda. Pedimos aos nossos vizinhos, bem como à comunidade internacional, que venham em nosso auxílio", afirmou. Algumas agências humanitárias, como o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), já responderam ao apelo, embora enfrentem algumas dificuldades de acesso às áreas mais afetadas. "Há algumas dificuldades para entrar em Hafun, uma ilha no norte da Somália, e isso está atrasando a distribuição da comida", disse à IPS Laura Melo, porta-voz do PMA.
Laura explicou que o PMA utilizará alimentos não perecíveis que originalmente seriam enviados Puntland para ajudar as vítimas das últimas secas. "A ajuda aos afetados pelas secas continuará, mas parte destes alimentos pode ser usada também para ajudar as vítimas do maremoto?, afirmou o PMA em um comunicado. Puntland sofre há quatro anos de uma mortal combinação de secas, inundações e um incomum clima frio que quase acabou com os animais da região. Além disso, as agências internacionais advertiram do perigo de enfermidades como cólera e febre tifóide na província. (IPS/Envolverde)

