Pequim, 16/06/2006 – Ao convidar o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, para a reunião desta semana da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), bloco de segurança de seis países, a China deu mais um passo rumo à consolidação de sua influência na Ásia central e Oriente Médio. A OSC, criada em 2001 para promover a cooperação econômica entre as ex-repúblicas soviéticas da Ásia central, se transformou rapidamente em um bloco para fortalecer a segurança na região e agora examina a integração de Índia, Irã, Mongólia e Paquistão, entre outros.
O convite para que Ahmadinejad participasse da cúpula de quinta-feira (em reunião paralela com seu colega chinês, Hu Jintao) coincide com as pressões do Ocidente contra o Irã para que interrompa seu programa de desenvolvimento nuclear, que inclui enriquecimento de urânio. A China se opõe a que a Organização das Nações Unidas intervenha com força contra o programa iraniano, como propõem os Estados Unidos. Pequim, na sua condição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, tem poder de vetar suas resoluções, por isso seu voto é crucial para se chegar a um consenso a respeito desse assunto.
Os desacordos entre Pequim e o Ocidente com relação ao Irã fizeram com que Washington decidisse, no mês passado, uma virada em sua política de rejeitar o diálogo direto com o regime islâmico iraniano, pois concordou em participar de negociações multilaterais com seus representantes. Por sua vez, Teerã deveria aceitar um pacote de incentivos, interromper o programa de enriquecimento de urânio e congelar por tempo indeterminado o programa de desenvolvimento nuclear. O convite a Ahmadinejad para a reunião da OCS poderia incentivá-lo a adotar uma atitude desafiadora nas próximas instâncias de negociação.
O principal objetivo comum que compartilham os países que integram essa organização e o Irã é seu desejo de reduzir a influência norte-americana na Ásia central. "O Ocidente já não considera a OCS como um encontro ameno. Há algum tempo existe e se pode dizer, com alguma certeza, que seus propósitos a longo prazo deixam mais tenso o vínculo com os Estados Unidos" na região, afirmou um diplomata ocidental que trabalha em Pequim. As coisa estão a tal ponto desta maneira que Pequim teve de desmentir as acusações de que procura formar uma "Otan oriental", numa referência à ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte.
"Isto não tem nenhum fundamento. A OCS não é uma versão oriental da Otan. Nunca buscou enfrentamento com ninguém e entre seus objetivos de forma alguma figura se converter em um bloco militar", disse na semana passada o presidente chinês da organização, Zhang Deguang. A reunião de quinta-feira em Xangai reuniu os presidentes da China, do Kazaquistão, Kirguistão, Uzbequistão, Rússia e Tajiquistão e os de países observadores (Irã, Mongólia e Paquistão). O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, participará como convidado, enquanto a Índia enviará seu influente ministro do petróleo, Murli Deora.
Pequim teve de deixar de lado a idéia de que o fórum da OCS promovesse a posição do Irã em relação ao seu programa nuclear. Esse país assegura que sua única intenção é gerar eletricidade. "Devido à natureza regional da OCS, não creio que o problema iraniano será uma prioridade", disse Deguang. O alinhamento evidente com o Irã na próxima reunião da OCS ajudaria a aumentar o peso de Pequim em uma região tradicionalmente fora de sua influência e reforçaria sua posição nas negociações entre esse país e as potências ocidentais. Existe a quase certeza de que a reunião serviria para fortalecer as relações econômicas, diplomáticas e, ainda, as de segurança da China e da Rússia, os dois fundadores da OCS, e do Irã. Moscou e Pequim têm importantes interesses econômicos nesse país. Os chineses consideram suas relações com Teerã vitais para sua segurança energética. A China, segundo importador mundial de petróleo, compra 13% do óleo que esse país processa, e quer aumentar suas compras de gás natural. Nos quatro primeiros meses deste ano, sua importações de petróleo iraniano aumentaram 25% em relação a igual período do ano passado.
Ao estender o tapele para Ahmadinejad neste contexto particular, a China está demarcando suas prioridades na Ásia central e em todo o mundo. Pequim compra grandes quantidades de petróleo de seus vizinhos, apesar das críticas em todo o mundo ao desempenho da região em matéria de direitos humanos. A China fechou em 2005 um importante acordo petroleiro com o Uzbequistão apenas algumas semanas depois da sangrenta repressão de protestos de oposição nesse país da Ásia central.
Em claro contraste com as intenções "democratizadoras" dos Estados Unidos na Ásia central, a OCS já deixou claro que não se envolveria em assuntos de segurança dentro de suas fronteiras comuns. "Ao promover um modelo próprio de desenvolvimento asiático e diferente do norte-americano, a China se converte em um líder cada vez mais atraente para outros países. É um assunto que preocupa esse país", afirmou um integrante do Instituto de Estudos de Pesquisa sobre Ásia-Pacífico da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
Quando no ano passado o Irã participou da reunião da OCS como observador, Washington pediu explicações tanto a Pequim quanto a Moscou, pois os Estados Unidos entendem que "seu impulso ao terrorismo" o torna incompatível com uma organização que o combate. Nem China nem Rússia consideraram as objeções da Casa Branca. "Não o teríamos convidado se julgássemos que patrocinam o terrorismo", afirmou Deguang. (IPS/Envolverde)

