Genebra, 19/06/2006 – Um quarto das doenças sofridas por adultos e um terços da infantis têm origem em fatores ambientais que podem ser modificados, alertou a Organização Mundial da Saúde. Mas nesse quadro sanitário pode-se apreciar um ponto positivo, disse á IPS a diretora do Departamento de Saúde e Meio Ambiente da OMS, María Neira, que explicou o alcance do relatório sobre o assunto divulgado na sexta-feira por esta agência da Organização das Nações Unidas. Os especialistas "conhecem quais tipos de intervenções são necessárias para reduzir a carga das doenças e para assegurar que nossa saúde será beneficiada", afirmou.
Quando os cientistas falam de intervenções disponíveis se referem, por exemplo, à redução da contaminação do ar, tanto em locais fechados quanto no espaço aberto, afirmou Neira. Também se referem a um melhor acesso à água potável e à prevenção de infecções respiratórias crônicas agudas através do uso de combustíveis apropriados, acrescentou. A precaução pode, inclusive, se estender a determinadas doenças não-transmissíveis como o câncer, através da regulamentação da exposição a certas substâncias químicas ou da melhoria do ambiente trabalhista, com "a certeza de que todas essas ações contribuirão para nossa saúde", explicou a especialista.
Por estas razões, a OMS reclama de políticos, governantes e todos os setores, especialmente os da saúde, indústria, energia e transporte, a colaboração no sentido de realizar investimentos mais inteligentes no meio ambiente para prevenir doenças, disse a Neira. O informe preparado pela OMS descobre as desigualdades entre diversas regiões detectadas pela investigação e deduz que, ao identificar os problemas, os sanitaristas se encontram em condições de atuar. As crianças, afetadas por uma carga maior do que os adultos de doenças causadas por riscos ambientais modificáveis, sofrem tais desigualdades.
Por exemplo, as mortes relacionadas com o ambiente são 12 vezes maiores entre as crianças do mundo em desenvolvimento. O problema é mais grave quando se compara os anos de vida saudável perdidos pelas crianças das regiões mais pobres do mundo com as de áreas mais prósperas. Nas regiões menos avançadas a quantidade de feridos em acidentes de trânsito é 25 vezes superior, as doenças diarréicas são 145 vezes mais freqüentes e as infecções das vias respiratórias inferiores são 8 vezes superiores, disse o coordenador do Departamento de Saúde e Meio Ambiente da OMS, Carlos Corvalán.
Neira explicou à IPS que a saúde ambiental preconizada pela OMS mantém estreita relação com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, uma série de metas estabelecidas em 2000 pela ONU para reduzir a pobreza, o analfabetismo, as doenças e a diferença de gênero, entre outras. Para o cumprimento do primeiro objetivo (redução pela metade da proporção da população pobre do mundo até 2015, em relação a 1990) a redução ao mínimo da exposição a fatores de riscos ambientais contribui indiretamente para esses fins, disse a especialista.
Muitas doenças transmitidas através do meio ambiente determinam que as pessoas afetadas deixem de ter ganhos e também ocasionam a incapacidade ou a morte de um membro produtivo da família, que afeta todo o lar, argumentou Neira. Da mesma maneira se vincula com o segundo objetivo do milênio, voltado ao ensino primário universal. O simples ato de proporcionar água potável e latrinas para as escolas, em particular nos banheiros femininos, incentivará os alunos do curso primário a irem às aulas, acrescentou.
Por outro lado, as intervenções que assegurem aos lares o acesso a melhores fontes de água potável e de energia mais limpa também aumentarão a presença nas escolas, pois as crianças terão mais tempo, o qual antes dedicavam para recolher água e combustível. A mesma disponibilidade de água e combustível permitirá reduzir o tempo dedicado pelas mulheres a consegui-los. Esse tempo poupado pode ser investido em atividades lucrativas e na educação, contribuindo com o terceiro dos objetivos, a promoção de igualdade de gênero e a potencialização da mulher.
Neira citou o caso da África em relação à diarréia e infecções das vias respiratórias inferiores, duas das principais causas de morte infantil nessa região. E em todo o mundo, as intervenções ambientais permitiriam evitar a cada ano a morte de mais de dois milhões de menores de 5 anos. Essa seria uma contribuição fundamental ao quarto objetivo, focado na redução em dois terços da mortalidade de menores de 5 anos, acrescentou. Os oito objetivos mantêm estreita relação com o plano da OMS denominado "Ambientes saudáveis e prevenção de enfermidades". Entretanto, no sétimo objetivo, "garantir a sustentatibilidade do meio ambiente", fica evidente esse vínculo.
Os especialistas observaram que as doenças diarréicas associadas à falta de água potável e saneamento insuficiente causam cerca de 1,7 milhão de mortes por ano. Por outro lado, o uso doméstico de combustível a partir de biomassa e carvão por mais da metade da população provoca 1,5 milhão de mortes anuais por causa de doenças respiratórias relacionadas com a contaminação. A redução desses tipos de exposição ambiental favorecerá a melhoria da saúde e, também, da vida dos moradores de cidades de crescimento rápido nos países em desenvolvimento, de acordo com o sétimo objetivo de desenvolvimento do milênio.
O informe da OMS confirma que a cada ano ocorrem no mundo mais de 13 milhões de mortes por causas ambientais que podem ser prevenidas. Quase um terço da carga de mortalidade e morbidade nas regiões menos adiantadas se deve a causas ambientais, reafirmou Neira. Por outro lado, mais de 40% das mortes por malária e, segundo as estimativas, 94% das mortes por doenças diarréicas poderiam ser evitadas com uma gestão ambiental mais apropriada. Anders Nordström, diretor-geral interino da OMS, disse que a instituição nunca teve em mãos estimativas tão precisas, e que estas ajudarão a demonstrar que os investimentos racionais destinados a criar um contexto favorável podem ser uma estratégia eficaz para melhorar a saúde e conseguir um desenvolvimento sustentável. (IPS/Envolverde)

