Ambiente: América Latina não está preparada para maremotos

México, 23/01/2005 – Quase nenhum país litorâneo da América Latina está preparado para enfrentar maremotos, embora especialistas alertem que no futuro poderão sofrer fenômenos semelhantes ao registrado no oceano Índico, que matou mais de 150 mil pessoas e devastou as costas de uma dezena de nações. "A ameaça de tsunamis (ondas gigantes geradas por movimentos do leito marinho) é vista com algo menor na América Latina, quando não o é. Tomara que o que aconteceu na Ásia pressione os governos a criarem redes de alerta e preparar a população", disse à IPS o diretor do Serviço Geológico de El Salvador, Carlos Pullinger.

Nas costas americanas sobre o Pacífico, desde o sul do Chile até o México, e nas praias do mar do Caribe existem placas tectônicas que no caso de se moverem com intensidade superior a oito graus na escala Richter gerariam ondas de grande capacidade destrutiva, como as do dia 26 de dezembro no sul da Ásia. Informes recolhidos pela IPS em diversos países da região indicam que no maremoto na Ásia morreram, pelo menos, dois brasileiros, dois argentinos, dois chilenos e dois mexicanos. Além disso, estão sendo procuradas na zona de desastre 138 pessoas de diferentes países da América Latina. Para apoiar os trabalhos de resgate na Ásia e a busca de seus compatriotas, os governos latino-americanos, muitos dos quais consideram que um maremoto dificilmente afetará alguma vez seus países, enviaram diferentes tipos de ajuda.

O Brasil enviou dois aviões com mais de 70 toneladas de alimentos, medicamentos e água, enquanto o Chile despachou uma missão de seis profissionais de saúde, entre médicos, dentistas e paramédicos, para cooperar na identificação de cadáveres e de ajuda às vítimas. Além disso, e como a maioria das chancelarias da região, esses países ofereceram serviços consulares extraordinários para atender os afetados pelo maremoto. O México também se fez presente com 18 pessoas entre socorristas e especialistas em controle de epidemias, engenharia civil e análise de riscos. A Venezuela anunciou uma ajuda de US$ 2 milhões para as vítimas, a ser encaminhada através da Organização das Nações Unidas. "Oxalá a América Latina não sofra algo semelhante ao maremoto de dezembro, mas, deve ficar claro para os governos que sempre existe essa possibilidade e que é preciso se preparar", advertiu Pullinger.

Com exceção de Chile e Nicarágua, que no século XX foram os mais afetados por maremotos na América Latina, os demais países costeiros não estão preparados para uma contingência desse tipo e tampouco possuem sistemas avançados para medir terremotos no leito marinho, assunto do qual depende quase completamente do Sistema de Alarme de Tsunami do Pacífico, com sede no Hawai. O Sistema de Alerme, manejado por especialistas norte-americanos, está integrado por dezenas de sensores e sismógrafos marinhos instalados no Pacífico. Quando ocorre um tremor, o sistema avalia se há perigo e envia um aviso aos possíveis afetados.

Os maremotos atravessam o oceano na forma de ondas baixas a velocidades superiores a 270 quilômetros por hora. Ao se aproximarem das praias as águas se elevam formando ondas de até 30 metros e com grande força destruidora. A história mostra que as probabilidades de maremotos na América Latina são poucas diante da proliferação de terremotos, erupções vulcânicas e furacões, mas, não podem ser descartadas devido à localização das placas no oceano Pacífico, ressaltou Pullinger. Cerca de 116 mil pessoas morreram na América Latina e no Caribe nos últimos 30 anos devido a movimentos tectônicos e geológicos, segundo estudos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Entre eles se contam o maremoto sofrido pela Nicarágua em1992, que deixou 116 mortos e mais de 40 mil afetados.

Em 1990, os países da América Central se propuseram criar uma rede regional de alerta para tsunamis. Porém, até hoje não foi concretizada, "por falta de recursos", disse o especialista de El Salvador, onde somente em julho foi instalada uma estação de monitoramento de marés ligada ao Sistema de Alarme de Tsunami do Pacífico. Depois do maremoto no oceano Índico, a iniciativa de criar a rede centro-americana parece ter sido reativada, acrescentou Pullinger. No Caribe, por outro lado, funcionários da Agência Caribenha de Resposta a Emergências e Desastres anunciaram que também poderiam instalar uma rede de alerta para tsunamis.

Eduardo Camacho, diretor do Instituto de Geociências do Sistema Nacional de Proteção Civil do Panamá, advertiu que hoje ocorresse um maremoto próximo das costas centro-americanas com as conseqüentes ondas gigantescas, "muito pouco poderíamos fazer para evitar uma desgraça de grande magnitude". No caso de um maremoto, os governos poderiam receber um aviso um tanto tardio do Sistema de Alarme de Tsunami do Pacífico, mas não poderiam aplicar nenhum plano de evacuação, pois simplesmente não o possuem, disse Camacho à IPS. Quase todos os países com litoral no Pacífico têm instalado equipamentos de detecção de movimentos do fundo marinho e a maioria está conectada ao Sistema de Alarme. Entretanto, apenas os do Chile, da Nicarágua e Costa Rica são considerados de alta precisão e efetivos quando se trata de disparar os alarmes.

Para o diretor do Serviço Geológico de El Salvador, a instalação e homologação de equipamentos de medição de sismos no mar é uma tarefa pendente sobretudo na América Central. Entretanto, não é o mais difícil de se conseguir, ressaltou. "No plano técnico podemos nos mover mais ou menos rápido, mas estamos muito atrasados, e em alguns casos nem foram iniciados, em planos de educação sobre maremotos para as populações costeiras e quanto aos sistemas de alarmes e evacuações rápidas", acrescentou o especialista. (IPS/Envolverde)

* Com as colaborações de Marcela Valente (Argentina), Mario Osava (Brasil), Patricia Grogg (Cuba), Gustavo González (Chile) e Humberto Márquez (Venezuela).

Diego Cevallos

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