Economia: América Latina melhor preparada para as turbulências

Santiago, 06/10/2006 – A economia da América Latina e do Caribe está em melhores condições do que na década de 90 para enfrentar uma eventual crise mundial, graças ao crescimento acumulado de quatro anos e ao superávit de conta corrente, segundo o estudo apresentado nesta terça-feira pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Ao contrário do ocorrido em ciclos anteriores de crescimento econômico, desta vez os governos da região evitam políticas fiscais expansivas, com ingressos fiscais que superam o gasto, e optam pelo cancelamento de dívidas, afirma o documento Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2005-2006, apresentado em Santiago, no Chile.O secretário-executivo da Cepal, o argentino José Luis Machinea, disse durante a apresentação que a região, no geral, está mais preparada do que em outras épocas para suportar perturbações externas, embora alertando que a situação não é igual em todos os países. Também se destaca que as nações latino-americanas aumentaram a capacidade de endividamento com os organismos multilaterais de crédito, um importante salva-vidas em caso de dificuldades. Mas a Comissão adverte que algumas nações ainda seguem com economia altamente “dolarizada” e com elevadas dívidas públicas.

Entre os países com maiores porcentagens de depósitos em divisas estão Uruguai, Paraguai, Bolívia e Nicarágua. Apesar de esta agência da Organização das Nações Unidas não vislumbrar no momento uma grande crise mundial, adverte que o cenário atual está carregado de incertezas, produto da alta constante do preço do petróleo, que “começa a causar impacto na inflação subjacente”, especialmente agora que se registra uma escalada bélica no Oriente Médio. Tampouco está claro onde chegará o aumento das taxas de juros que os Estados Unidos impõem e “em que medida a desaceleração desse país será compensada por maior crescimento da União Européia, Ásia e do Japão.

Por outro lado, a Cepal estima que a economia da América Latina e do Caribe crescerá 5% este ano, fazendo com que seja a segunda vez nos últimos 25 anos que a região gozará de um período de quatro anos consecutivos de expansão. O crescimento ficará entre 3,5% e 6,5% para a maioria dos países, com exceções de República Dominicana e Venezuela, que acumularão uma taxa de 8%, e a Argentina, cujo crescimento é estimado em 7,8%. No outro extremo encontra-se o Haiti, que margeará os 2,5%.

Entretanto, a região continua crescendo em um ritmo menor do que o conjunto do mundo em desenvolvimento. Isto se explica porque suas maiores economias, Brasil e México, se expandem menos do que a média regional. O que não ocorre, por exemplo, na Ásia com potências como China e Índia. Segundo a Cepal, a economia regional tem neste momento a oportunidade de incrementar ainda mais a taxa de crescimento e, assim, ajudar a diminuir a pobreza, mas sem esquecer que “somente com recursos naturais é difícil conseguir uma expansão sustentável e melhorar a igualdade”.

Para conseguir isto é necessário melhorar a coesão social, mediante políticas de alcance produtivo e social, bem como avançar no aperfeiçoamento da institucionalidade. Também é necessário que os países obtenham parte da renda dos setores que mais ganham (através de impostos e royalties), sobretudo das empresas que extraem produtos minerais. Machinea disse à IPS que os países da região não estão dando a importância que esse setor merece. “É preciso investir e inovar nos setores primários e para isso se requer políticas e estratégias do setor público”, destacou o secretário-executivo da Cepal, para quem os recursos deveriam ser destinados, principalmente, à inovação e à geração de valor agregado dos produtos exportados.

O economista chileno Jacobo Chatán, do Centro de Estudos de Desenvolvimento Alternativo Cenda, disse à IPS que um aspecto central para o desenvolvimento da região, e que, em geral, é esquecido por este tipo de estudo, é a distribuição da riqueza. “Os países crescem, mas isto não se reflete na renda das famílias”, afirmou. “O Chile se ilude muito com a abertura aos mercados internacionais, mas na prática os benefícios vão para um grupo muito pequeno de empresários”, disse o especialista, assegurando que o problema da distribuição da riqueza costuma aparecer como uma reivindicação de determinados setores políticos, mas que se trata de um assunto estrutural.

O estudo da Cepal também adverte que se registrou um aumento das exportações e melhora nos termos de intercâmbio para a América Latina, México e Trinidad e Tobago. No entanto, os países centro-americanos se beneficiaram junto com o México da entrada de divisas provenientes das remessas enviadas pelos trabalhadores que estão no exterior. De fato, os recursos procedentes dos envios pelos imigrantes atingiram 2,3% do produto interno bruto regional, no ano passado.

O investimento também melhorou na região, especialmente na América do Sul, embora, segundo a Cepal, as atuais taxas ainda sejam insuficientes. Além disso, o crescimento repercutiu favoravelmente na geração de empregos, já que a taxa de ocupação cresceu 0,5% em 2005, principalmente no setor formal. Apesar disso, ainda há 18 milhões de trabalhadores desempregados na região. Projeta-se para este ano que o desemprego caia de 9,6%, registrados no ano passado, para 8.8%. Para 2007, a Cepal prevê um crescimento do produto regional em torno dos 4,5%. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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