Mercosul: Reivindicações de uma integração alternativa

Córdoba, Argentina,, 05/10/2006 – Organizações sociais e partidos políticos realizaram na quinta-feira uma marcha pelas ruas desta cidade argentina e apresentaram aos presidentes dos países que integram o Mercosul uma série de propostas para construir uma integração alternativa. Trabalhadores, estudantes, ambientalistas, organizações camponesas, de mulheres e de direitos humanos caminharam junto a manifestantes de partidos de esquerda, enquanto começavam a chegar a Córdoba os primeiros mandatários que participarão nesta sexta-feira da 30ª Reunião de Cúpula do Mercosul.Os manifestantes esperam com especial entusiasmo o encontro com os presidentes Evo Morales, da Bolívia; Hugo Chávez, da Venezuela, e Fidel Castro, de Cuba. “A revolução cubana, Venezuela e Bolívia indicam o caminho aos povos da América”, dizia um cartaz carregado por um ativista durante a marcha. A manifestação marcou o encerramento de três jornadas de deliberações sobre assuntos tão diversos como combate à pobreza, reivindicações dos povos originários, defesa dos recursos naturais, investimento em educação, liberalização comercial e agenda das mulheres.

No documento final, as organizações que participaram da III Cúpula dos Povos pela Soberania e a Integração destacaram que “a Assembléia Geral transita um novo tempo” e, portanto, além de rejeitar os tratados de livre comércio querem participar da construção de projetos alternativos. “Não aos tratados de livre comércio e sim à integração dos povos. Não à dívida externa e à ingerência das instituições financeiras internacionais. Sim, à independência econômica. Não à militarização, sim à autodeterminação. Não à fome, sim à distribuição da riqueza”, resume a declaração.

Os participantes rechaçaram uma iniciativa do Senado norte-americano para criar uma organização antiterrorista na Tríplice Fonteira (zona limítrofe entre Brasil, Argentina e Paraguai), reclamaram a retirada de tropas latino-americanas do Haiti, protestaram contra a guerra dos Estados Unidos no Iraque e a ofensiva israelense no Líbano e na Palestina. Como se tivesse sido aberta a caixa de Pandora fechada por muito tempo, as reivindicações e reclamações não excluíram nenhum tema. Houve demandas de caráter regional, mas também, nacionais e até municipais.

Com cartazes escritos em árabe, participaram da marcha membros da comunidade islâmica xiita na Argentina, que protestavam pelo ataque israelense contra Beirute, protegidos por integrantes da agrupação esquerdista radical Quebracho, que tinham o rosto coberto e estavam armados com pedaços de pau. Os organizadores, da Central de Trabalhadores Argentinos, não conseguiram dissuadi-los de participar da manifestação e deixaram que ficassem no final da marcha.

A reunião de organizações sociais foi a primeira realizada paralelamente ao encontro de presidentes do Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela). Além disso, a chancelaria argentina convocou, pela primeira vez, uma reunião de organizações da sociedade civil no contexto dos encontros da Cúpula. Assim, houve duas grandes reuniões de organizações sociais do bloco. Algumas entidades tomaram parte em ambas, em locais separados por mais de 10 quilômetros. Nesse encontro com organizações não-governamentais o presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, o argentino Carlos Alvarez, defendeu que o bloco regional “seja um fórum para melhorar a distribuição da renda. Deve-se aproveitar as lideranças regionais e processos políticos afins para mudar a matriz distributiva”, afirmou.

Alvarez defendeu perante ativistas de organizações de mulheres, camponeses, empresários, cooperativistas e ambientalistas a necessidade de reunir “uma massa crítica forte que permita a cada governo progressista do bloco ter mais instrumentos para avançar no campo social”, argumentou. Este ponto de vista coincide com a cor política de vários governos da região. Na Cúpula de Córdoba participam os mandatários Luiz Inácio Lula da Silva; Néstor Kirchner, da Argentina; Nicanor Duarte, do Paraguai; Tabaré Vazquez do Uruguai, e Hugo Chávez, da Venezuela.

Também estão presentes os governantes de países associados ao Mercosul, como o boliviano Morales e Michelle Bachelet, presidente do Chile. De última hora somou-se Castro, que assinará por Cuba um acordo de complementação econômica com o bloco, que permitirá ao seu país amortizar em parte o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Os participantes da Cúpula dos Povos realizam hoje um ato para receber Chávez, Morales e Castro, uma vez encerrado o encontro dos presidentes, apesar de não haver muitos detalhes sobre isto.

“Começa outra etapa do Mercosul”, afirmou Chávez ao chegar à Córdoba. O venezuelano inaugurou a participação de seu país como membro pleno do bloco, após a assinatura do protocolo de adesão no dia 4 passado em Caracas. Em sua opinião, o Mercosul deverá ter um forte conteúdo social, expectativa alimentada por setores sociais e políticos que nos últimos dias invadiram a capital da província de Córdoba. Os governos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai afirma estar decididos a acompanhar esse rumo. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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