Jerusalém, 06/10/2006 – Da mesma maneira que os civis libaneses assolados pelos bombardeios aéreos, dezenas de milhares de israelenses fogem do norte de seu país para o sul, por causa dos mísseis lançados pelo movimento islâmico Hezbollah desde o Líbano. Avner Pomeranetz não perde o sono por causa dos 26 mísseis Katyusha disparados no final de semana contra sua cidade, Kiryat Shmona, perto da fronteira setentrional de Israel. E tampouco por ter de ficar ali por ordem do exército, sem poder continuar sua viagem para o sul, fora do alcance dos foguetes. Este farmacêutico, e os serviços que presta, são considerados essenciais.“Isto não é nada novo”, disse à IPS. Desde que chegou, após emigrar da Argentina, em meados da década de 70, Kiryat Shmona foi alvo de mísseis disparados desde o Líbano. Mas a maioria dos moradores do norte de Israel é muito menos confiante do que Pomeranetz, de 73 anos, neste “verão dos Katyusha”. Quem vive em cidades setentrionais, como Haifa, Safed, Carmel, Acre e Tiberíades, vive pela primeira vez a experiência de ter mísseis do Hezbollah sobre suas cabeças. Dezenas de milhares viajaram para o sul, fora do alcance dos mísseis, para se alojar em casas de parentes, amigos e hotéis.
O exército israelense estima que entre um terço e a metade dos residentes do norte de Israel abandonaram suas casas e seus trabalhos. Os que ficaram em Haifa e outras cidades do norte do país passaram boa parte das últimas duas semanas em abrigos antibomba e quartos acondicionados, ou com os ouvidos gastos pelas sirenes que alertam da iminente queda de um míssil. Mas nem todos encontraram refúgio a tempo. Uma adolescente de 15 anos morreu na terça-feira quando um míssil disparado pelo Hezbollah atingiu um bairro muçulmano da aldeia de Maghar.
Em Haifa, o terceiro centro urbano mais importante de Israel, um homem morreu no domingo quando seu automóvel foi destruído por um míssil, enquanto dirigia por uma das principais ruas desta cidade portuária. Nesse mesmo dia, outro homem morreu quando um míssil alcançou a fábrica onde trabalhava, no subúrbio. Até agora, 42 israelenses morreram e mais de 300 ficaram feridos nos bombardeios. Junto com o custo humano, o prejuízo econômico é cada vez maior. Os mísseis já acabaram com a indústria turística no norte, que esperava outra temporada de sucesso após seis anos de relativa segurança, depois que Israel saiu do sul do Líbano, em meados de 2000.
Os agricultores também sofrem os prejuízos, pois as hortas estão vazias e os trabalhadores não podem colher seus frutos. Os muitos hotéis que oferecem “quarto e café da manhã” no norte de Israel estão vazios e os pequenos comércios fechados. “As pessoas não deixam suas casas, tudo está morto”, disse ao Canal 10 de televisão Shiri Gelbart, dona de uma pequena empresa em Haifa. “No fim do dia, a caixa registradora está vazia”. Mais da metade das fábricas da região setentrional de Israel fecharam ou funcionam parcialmente. O prejuízo econômico causado à indústria no norte do país desde o começo do conflito, há duas semanas, é calculado em cerca de US$ 450 milhões.
Apesar do custo, o amplo apoio interno e político à ofensiva militar de Israel contra o Hezbollah no Líbano continua forte. “A resposta do primeiro-ministro, Ehud Olmert, foi correta”, disse Avner. “Não tínhamos opção. Nos retiramos até o último centímetro. O Líbano meridional já não é território ocupado. É uma lástima que este tipo de resposta não tenha chegado antes”, disse. Avner se referia aos 12 mil mísseis de curto e médio alcances lançados contra Israel pelo Hezbollah nos seis anos transcorridos desde que as tropas israelenses abandonaram o sul do Líbano.
Chani, mulher de Avner, considera “muito dolorosa” a devastação do Líbano e a morte de civis por causa dos bombardeios israelenses, mas acrescentou que os mísseis do Hezbollah são uma “ameaça direta” para Israel que não devia ser ignorada. “Estamos tentando fazer o melhor que podemos para não ferir civis”, acrescentou Avner. “Mas o Hezbollah coloca seus lança-mísseis entre a população civil libanesa. E, ao contrário de nós, dispara diretamente contra os civis”. Como uma quantidade crescente de ex-militares que expressam seus pontos de vista no rádio e na televisão, Chani acredita que Israel não pode dominar o Hezbollah somente por meio de um ataque aéreo.
Mas alguns analistas alertaram contra uma incursão por terra, dizendo que o Hezbollah quer atrair Israel para o sul do Líbano, onde acredita que o exército convencional israelense pode ser vulnerável. Chani disse que não há mais opção a não ser realizar operações por terra, para “limpar a área próxima da fronteira” de combatentes do Hezbollah. E ela compreende plenamente qual pode ser o preço de uma operação desse tipo: Seu filho foi morto há quatro anos, quando a unidade de elite que integrava participou de uma operação militar na cidade de Ramalá, na Cisjordânia.
As pesquisas de opinião mostram que mais de 80% dos israelenses apóiam a ofensiva determinada por Olmert depois que o Hezbollah atacou um posto de fronteira israelense, no dia 12 passado, matando oito soldados e fazendo outros dois de reféns. Mas esse apoio pode mudar se a operação militar acabar e Olmert não conseguir os objetivos que propôs: a libertação dos soldados capturados, o envio do exército libanês ou de uma força internacional de paz no Líbano meridional, e que o Hezbollah se retire para longe da área de fronteira.
“O Hezbollah não pode ser eliminado”, disse Avner. “É uma parte integral do Líbano. Mas tem de ser mantido distante da fronteira e os soldados têm de ser libertados”. Os dirigentes de Israel acreditam que a guerra não será decidida somente no campo de batalha, mas que o resultado também dependerá da capacidade da população civil de suportar os ataques com mísseis e o crescente número de vítimas entre os militares. Esta é uma das razões pelas quais o exército vê como particularmente significativa a batalha que se trava em torno do povoado de Bint Jbail, reduto do Hezbollah no sul do Líbano.
Depois que Israel se retirou do Líbano há seis anos, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, fez um discurso triunfal na aldeia, declarando que a sociedade israelense era tão fraca quanto uma “teia”. Avner pensa que a resposta israelense mandou uma mensagem muito diferente a Nasrallah. “O Hezbollah não esperava que estes dois civis reagissem da maneira como o fizeram”, disse, se referindo a Olmert e ao ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, nenhum deles com carreira militar antes de entrar na vida pública, ao contrário de muitos ex-dirigentes israelenses. “Eles acreditavam que Israel dispararia alguns poucos mísseis e depois iniciaria negociações em torno da libertação dos soldados. Agora, Nasrallah está descobrindo que as coisas não são como pensava”, concluiu. (IPS/Envolverde)

