Sidon, Líbano, 06/10/2006 – O ataque contra o povoado de Qana, no sul do Líbano, foi o mais grave do atual conflito armado, mas é apenas uma entre numerosas operações letais de Israel contra civis nessa região. O clamor internacional que provocou o massacre de, pelo menos, 34 crianças e 20 adultos em Qana não conseguiu arrancar do governo israelense uma ordem de trégua. Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, descartou uma interrupção dos ataques, que continuaram durante o dia. Dessa maneira, Olmert desativava os sinais emitidos por seu governo no domingo sobre uma trégua de 48 horas para permitir a retirada dos civis da área bombardeada.Grandes quantidades de libaneses abandonaram o sul do país. Muitos outros não conseguiram partir, na maior parte dos casos por falta de condições para isso. O ministro da Justiça de Israel, Haim Ramon, anunciou no dia 27 passado que “todos” os que vivem “no sul do Líbano são terroristas que estão, de algum modo, ligados ao Hezbollah”, o Partido de Deus de tendência islâmica, xiita e pró-Síria. Ao justificar o castigo coletivo da população da área, Ramon afirmou: “Para impedir baixas entre os soldados israelenses que combatem contra o Hezbolah no sul do Líbano, as aldeias devem ser arrasadas pela força aérea antes da entrada das tropas de infantaria”.
Esta política explica a grande quantidade de feridos que chegaram aos hospitais de Sidon. Os sobreviventes relatam numerosos casos de ataques indiscriminados das forças israelenses. Khuder Gazali, motorista de ambulância, de 36 anos, que perdeu um braço pelo impacto de um foguete israelense, contou à IPS que seu veículo foi atingido quanto tentava resgatar civis cuja casa acabara de ser bombardeada. “No domingo retrasado (dia 23) pediram ajuda. Encontramos um dos moradores sem as pernas, caído no jardim, e tentamos levá-lo ao hospital mais próximo”, disse Gazali. No caminho, um foguete disparado por um helicóptero israelense Apache alcançou a ambulância. O motorista e os cinco passageiros sofreram ferimentos graves, acrescentou.
“A ambulância que tentou nos ajudar também foi bombardeada por um Apache. Todos seus ocupantes morreram. Uma terceira ambulância conseguiu nos resgatar”, disse Gazali, que sofreu ferimentos de metralhadora por todo o corpo. “Isto é um crime. Quero que o público do Ocidente saiba que os israelenses não diferenciam entre inocentes e combatentes. Cometem atos perversos. Atacam os civis. São criminosos”, afirmou. Ibrahim al-Hama, de 16 anos, foi atingido por uma bomba israelense quando nadava com amigos em um rio, perto de um povoado ao norte de Tiro. “Mataram meus dois amigos e uma mulher. Por que apontaram contra nós?”, contou à IPS este jovem que se recuperar dos ferimentos no Centro Médico Labib, em Sidon.
No quarto ao lado, um homem cuja mulher e dois filhos se recuperavam dos ferimentos sofridos em um bombardeio israelense disse à IPS que sua família deixou o povoado onde viviam, perto da fronteira, aterrorizados pela dureza dos ataques e alertados pelos panfletos. “Ficamos sem comida e as crianças tinham fome, por isso subimos com minha mulher e sua irmã em um automóvel que seguia uma ambulância da Cruz Vermelha, enquanto outro carro levava minhas outras duas cunhadas. Chegaram a Kafra, onde um avião F-16 atacou o veículo. Minhas duas cunhadas morreram”, contou. Estas operações israelenses são comuns em todo o sul do Líbano.
No último dia 23, uma família deixou seu povoado depois que a força aérea israelense lançou panfletos ordenando a evacuação da área. O veículo em que estavam levava uma bandeira branca, mas mesmo assim recebeu os disparos de um avião israelense. Três dos passageiros do automóvel morreram. No mesmo dia, três dos 19 passageiros de um furgão que deixava a aldeia de Tiro morreram bombardeados por um avião de Israel. Um homem de 43 anos do povoado de Durish Zahir, ao sul de Tiro, descansava em uma cama do Centro Médico Labib com diversos ferimentos de metralhadora e a metade do corpo paralisado. “Por favor, peçam para parar de usar fósforo branco. Os israelenses devem acabar com esses ataques. Não permitam que eles continuem nos assassinando”, disse Zhair.
O homem contou que sua família está dividida entre hospitais e centros de refugiados de Sidon e Beirute. Mas, no corredor do hospital a chefe das enfermeiras, Gemma Sayer, admitiu que “toda sua família está morta. Não podemos contar a ele porque está muito mal de saúde”. As forças das Nações Unidas foram novamente alvo de ataque israelense. Dois soldados da força de paz no sul do Líbano ficaram feridos em um ataque aéreo ao posto de observação em que estavam. Na semana passada, um míssil israelense matou quatro observadores da ONU. O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, descreveu a operação como “aparentemente deliberada”.
Milhares de manifestantes se aglomeraram diante do prédio da ONU em Beirute, no sábado, depois que pelo menos 34 crianças e 20 adultos morreram em um refúgio atingido pelo bombardeio israelense no povoado libanês de Quana. Os esforços para retirar os feridos deste ataque fracassaram porque as estradas ao redor do povoado haviam sido previamente destruídas pela aviação de Israel. As forças armadas deste país se negaram a assumir a responsabilidade pelas mortes em Qana, porque, afirmaram, o Hezbollah usou o povoado para lançar foguetes.
O presidente do Líbano, Emile Lahoud, disse à imprensa no domingo que o ataque contra Qana foi uma “desgraça”, e advertiu que não havia possibilidade de conversações de paz até que as autoridades israelenses estabelecessem um imediato cessar-fogo. “Os líderes israelenses não pensam em nada que não seja destruição. Não pensam na paz”, lamentou Lahoud. Por sua vez, o primeiro-ministro libanês, Fuad Siniora, qualificou o ataque contra Qana de “crime de guerra”. Pelo menos 600 libaneses, na maioria civis, e 51 israelenses morreram desde o início do conflito. (IPS/Envolverde)

