Londres, 08/10/2006 – A Grã-Bretanha não investe o suficiente no Sul em desenvolvimento, mas as remessas enviadas por imigrantes que trabalham neste país estão se convertendo em um importante contrapeso à pobreza no mundo, revelou uma pesquisa encomendada pelo Departamento para o Desenvolvimento Internacional. Os imigrantes procedentes da Ásia meridional, África e do Caribe enviam, em média, US$ 1.627 por família ao ano, segundo o estudo. “Reconhecemos que as pessoas que vivem na Grã-Bretanha e procedem de outras partes do mundo geram enormes benefícios aos seus respectivos países”, disse à IPS o ministro de Desenvolvimento Internacional, Gareth Thomas.
“Damos as boas-vindas ao fato de estarem lutando contra a pobreza enviando dinheiro para suas famílias e seus amigos. Todos temos responsabilidades com nossos pais e familiares. Esta é claramente uma maneira que as pessoas daqui assumem essa responsabilidade”, acrescentou o ministro. As remessas estimadas superam, de longe, os investimentos estrangeiros diretos em quase todos os países em desenvolvimento onde a pesquisa foi feita. Em geral, investimentos diretos são fáceis de quantificar, mas o mesmo não ocorre com as remessas. “Este estudo está projetado para nos concentrar realmente nessa carência de informação sobre quanto dinheiro sai da Grã-Bretanha para a Ásia e a África”, explicou Thomas.
O Departamento para o Desenvolvimento Internacional acredita que essas remessas constituem um fator substancial no combate à pobreza no Sul. “Os fluxos de remessas internacionais são muito grandes e crescentes, e constituem uma grande quota dos fluxos financeiros internacionais e ganham uma importância ainda maior na balança de pagamentos dos países receptores”, diz o estudo. Além disso, ajudam “a complementar a renda de milhões de famílias em países em desenvolvimento”, acrescenta. O Departamento para o Desenvolvimento Internacional disse que fez o estudo como parte de “um esforço comparado por organizações internacionais, doadores bilaterais e organizações não-governamentais para compreender melhor as características das remessas, a fim de ajudar a maximizar seus impactos no desenvolvimento”.
A pesquisa, feita pela consultoria ICM Research entre fevereiro e março e divulgada no dia 27 de julho, se baseia no resultado de uma série de questionários distribuídos em lares de imigrantes em 143 áreas da Grã-Bretanha, incluindo os que haviam feito pelo menos uma remessa de dinheiro nos últimos 12 meses. No total, 1.778 questionários foram respondidos. Os resultados do estudo lançaram por terra os temores de que as novas gerações de imigrantes estivessem perdendo contato com seus países de origem. “Ao contrário, o que vemos é uma potencialização do processo”, disse à IPS Mohmud Mohamed, vice-presidente de instituições Financeiras Globais no Citigroup. “Este é um processo que evolui e continuará”, afirmou.
Muitas empresas encontraram uma nova fonte de recursos no negócio de remessas de dinheiro para o Sul. Suraj Vaghani, diretor para a Grã-Bretanha da companhia Travelex, disse à IPS que essa atividade cresce de maneira sustentada. “Antecipamos um grande crescimento a partir da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e de outros paises. Muitíssimas pessoas na diáspora ajudam suas famílias”, disse. Os lares consultados haviam enviado dinheiro para cerca de 50 países em desenvolvimento. Quatro em cada 10 destas famílias enviaram o dinheiro para a África, onde a Nigéria é a principal nação receptora, com 17% das remessas. Outros importantes receptores são Índia (14%), Paquistão (10%), Jamaica (7%) e Gana (5%).
Segundo a pesquisa, 47% dos imigrantes enviam dinheiro aos seus pais e quase um quarto a “outros familiares”, como irmãos, primos, tios ou tias. Um pequeno número declarou enviar para seus cônjuges (7%), filhos (8%) ou amigos (8%). O estudo também revelou que alguns grupos étnicos em particular tendem a enviar mais dinheiro do que outros. Mas quando se tem em conta a renda destas pessoas e outras características de seus lares e motivações, a condição étnica não parece ter forte incidência.
Assim, 31% disseram que o dinheiro seria usado para comprar alimento ou atender outras necessidades básicas, como gastos médicos (21%) e comprar roupas (19%). A educação é citada como um uso possível por 17% dos entrevistados, seguida por moradia (17%) e compra de bens duráveis (13%). Estes dados variam substancialmente entre as diferentes etnias. Por exemplo, 39% dos africanos brancos declararam que o dinheiro seria usado para comprar comida, enquanto 29% dos chineses disseram que o empregariam para comprar roupa, e 24% dos africanos afirmaram que seria destinado à educação.
Quatro em cada cinco pessoas que enviam remessas esperam que esse dinheiro represente “uma quantidade razoável” (36%) ou “uma grande quantidade” (45%) de diferença no lar. Entretanto, também há uma significativa minoria que pensa que suas remessas farão “pouco” (10%) ou “absolutamente nada” (3%) para melhorar as condições de vida dos que recebem o dinheiro. Trinta e quatro por cento dos que enviam dinheiro desde a Grã-Bretanha são de origem negra africana, 31% são do sul da Ásia e 12% são negros caribenhos. Também há maior proporção masculina do que feminina, com a notável exceção das mulheres negras africanas, que tendem a enviar mais dinheiro do que os homens de sua mesma condição étnica. A pesquisa revelou, ainda, que 15% das pessoas que enviam dinheiro usam exclusivamente métodos informais, com mandar o dinheiro através de amigos ou parentes. (IPS/Envolverde)

