Lisboa, 08/10/2006 – Em apenas duas semanas do mês mais quente do verão na Europa, o fogo arrasou 36 mil hectares de florestas em Portugal e 89 mil hectares na região espanhola da Galícia. A história se repete em cada mês de agosto nestes dois territórios de língua, costumes e geografia semelhantes. Entre 31 de julho e o último dia 14, os incêndios em Portugal destruíram o equivalente a quatro vezes a área metropolitana de Lisboa e triplicaram os 13.591 hectares queimados desde 1º de janeiro até o final de julho. Nada comparável com a vizinha região da Galícia, no noroeste da Espanha, onde ao término da primeira quinzena de agosto a trágica contabilidade indica que a área queimada passou de 2.241 hectares para 88.473 hectares, isto é, 39 vezes mais do que nos sete meses anteriores.
No dia 8 de agosto, apesar da delicada situação portuguesa, Lisboa enviou várias companhias de bombeiros para colaborarem com seus colegas espanhóis e que regressaram esta semana, após defenderem com êxito aldeias encravadas nas frondosas florestas galegas. Em um balanço provisório do governo da Galícia divulgado nesta quinta-feira, dia em que os incêndios foram finalmente controlados, a província mais afetada foi Pontevedra, com 38,5 mil hectares queimados, seguida por La Coruña (28 mil), Orense (8,5 mil) e Lugo (2 mil). Foram queimados pouco mais de 2% dos três milhões de hectares que formam a superfície total da Galícia, 500 aldeias e mil casas de campo tiveram de ser defendidas das chamas, duas mulheres morreram carbonizadas dentro de um automóvel e 30 suspeitos de provocarem incêndios foram presos.
Até o momento, na área continental de Portugal e nos arquipélagos luso-atlânticos de Açores e Madeira foram queimados 50 mil hectares, segundo dados divulgados nesta quinta-feira. Apesar destes dados preocupantes fornecidos pelo Sistema de Informação sobre Incêndios Florestais da União Européia, que utiliza satélite, o governo português recorda que o total queimado até o final de julho representou menos de um sexto da média de 90 mil hectares queimados nos últimos cinco anos em igual período. Até o último dia de julho, a área total que havia sido destruída pelo fogo na comunidade européia era de 64,5 mil hectares, “bem abaixo dos 610 mil que queimaram em igual período de 2005”, diz o informe da União Européia, que, entretanto, alerta que “a época de incêndios ainda não terminou”.
“É sabido que o calor do verão surge associado aos incêndios, e há muito tempo olhamos para o fogo como uma fatalidade da época, é como se fosse mais uma estação do ano”, disse à IPS Antonio José Teixeira, diretor do Diário de Notícias, decano da imprensa lisboeta, um dos jornalistas portugueses que se destacaram por buscar as raízes dos incêndios florestais. “O fogo aparece como expressão de uma irracionalidade quase indomável”, diante da qual a cidadania começa a “ficar estupefata com sua dimensão” para, depois, “habituar-se, como se fosse uma fatalidade, e só se assustam e gritam quando surge em suas portas”, afirmou Teixeira.
De fato, sob o calor das chamas, tudo se questiona, culpa-se os sucessivos governos, lamenta-se os mortos – até agora oito, cinco bombeiros chilenos, um português e dois civis – e chega-se à conclusão de costume: falta ordenamento territorial, gestão florestal, mobilização da cidadania e fiscalização. Neste verão, o governo do primeiro-ministro socialista, José Sócrates Carvalho Pinto de Souza aumentou as expectativas e até chegou a falar de um “Portugal sem incêndios”. Entretanto, o próprio ministro do Interior, Antonio Santos da Costa, reconheceu, na segunda-feira, que a prevenção “não deu os resultados desejados”.
O ministro disse que o combate ao fogo está tendo êxito, o que explica a diferença em relação a anos anteriores, mas “é o estado geral de nossas florestas o verdadeiro problema, e se isto não mudar nos próximos anos registraremos um número crescente de incêndios e uma capacidade de resposta cada vez maior”. Entre as medidas implementadas este ano, o governo aprovou uma estratégia para as florestas, incluindo um plano de defesa que obriga sua limpeza para evitar o acúmulo de material de fácil combustão, estabeleceu zonas de intervenção florestal, mais e maiores multas e uma articulação entre os ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e Interior.
Além disso, por determinação da Procuradoria Geral da Nação, a polícia está agindo duramente contra os supostos incendiários, contando-se até agora 18 detidos sob acusação de piromania ou de fogo provocado com intenção dolosa, provavelmente por encomenda. Ao mesmo tempo, o relativo sucesso no combate ao fogo contou com a ajuda de dois hidroaviões russos Beriev BE-200, o maior modelo que existe no mundo, que comprovaram sua eficácia combatendo incêndios portugueses.
Uma antiga dívida de 63 milhões de euros contraída pela União Soviética. antes de sua dissolução em 1991, será cancelada em 90% pela Rússia com a entrega de quatro hidroaviões BE-200, que também podem ser usados em operações anfíbias de resgate. Apesar de o ministro Costa não ter dado sua palavra final, o ministério russo das Finanças, responsável pelas dívidas deixadas pela União Soviética em todo o mundo, afirmou em Moscou que já havia um acordo verbal com Portugal.
Em Lisboa, o comandante do Serviço Nacional de Bombeiros, Gil Martines, destacou a “vantagem adicional” que representa a descarga de 12 mil litros pelo Beriev sobre todos os outros aviões, especialmente do Canadá Air, seu competidor mais próximo que costuma carregar a metade dessa quantidade de água. No entanto o problema central parece não estar no combate aos incêndios já declarados, porque “a negligência generalizada continua impune, a limpeza florestal não passa de boa intenção e o abandono é a regra em uma parcela importante do país”, afirmou o jornalista Teixeira. Para ele, a solução está em “adotar um modelo que responsabilize prefeitos e vereadores por um desenvolvimento mais harmonioso do território”.
Entretanto, os jornais portugueses deram especial atenção ao estudo divulgado na terça-feira pela Universidade de Bristol, que prevê o aumento nos próximos dois séculos dos incêndios florestais, das secas e inundações por causa do aquecimento do planeta. A maioria dos cientistas atribui a mudança global do clima ao efeito causado pelo acúmulo na atmosfera dos gases expelidos pela queima de petróleo, gás e carvão, conhecidos como efeito estufa. De acordo com os cientistas dessa universidade britânica, mesmo se acabasse agora a emissão dos gases que provocam o efeito estufa, a perda da superfície florestal continuaria na América Central, Europa Oriental e Amazônia.
O estudo alerta que regiões agora parcialmente áridas, como o sul de Portugal, ficarão mais vulneráveis a incêndios florestais, e para os próximos dois séculos também se prevê uma perda significativa de água doce no sul da Europa, na América Central, no oeste da África, e leste dos Estados Unidos, com o conseqüente aumento das secas. Além disso, o Programa Operacional de Agricultura e Desenvolvimento Rural reconheceu esta semana que Portugal não cumprirá a meta de 90 mil hectares de reflorestamento definido para o período 2001-2006, para projetos com direito a financiamento comunitário, chegando a apenas 38.405 hectares. Os efeitos deste descumprimento de meta podem ser devastadores. Segundo o departamento de solos do Instituto Superior Técnico de Lisboa, o risco de erosão em áreas queimadas e não reflorestadas é particularmente elevado, ao deixar de existir a cobertura vegetal protetora da superfície. (IPS/Envolverde)

