Bogotá, 08/10/2006 – Recebeu uma oferta de trabalho? De ganhar muito dinheiro? De casamento ou vida nova no exterior? Informe-se antes de aceitar. Cláudia, colombiana de 28 anos, dois filhos, técnica em sistemas, foi enganada. Ofereceram-lhe trabalho em uma companhia de petróleo na Venezuela e acabou surrada, violentada e na prostituição, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), que combate o tráfico de pessoas há mais de meio século e trabalha em mais de 120 países, inclusive na América Latina. Juan, engenheiro de 30 anos, recebeu proposta para ganhar 200 euros por dia na Espanha, mas ao chegar a esse país, teve os documentos retidos e foi obrigado a cuidar de ovelhas, trabalhando de graça.
Paula, de 40 anos, separada, dois filhos, profissional com pós-graduação, foi explorada sexual e profissionalmente, apanhou e recebeu ameaça de violação contra sua filha, depois de conhecer Jorge pela Internet, viajar para a América Central e se casar. Por não se informar corretamente, não averiguar sobre pessoas, empresas, leis, obrigações e direitos, por entregar seus documentos particulares ou por não buscar ajuda a tempo, outras mulheres perderam até os filhos. Isso aconteceu com uma secretária colombiana, que conheceu na Internet um austríaco, com quem se casou e foi viver na Áustria. “Tive meu primeiro filho e ele me tirou. Consegui fugir, mas apesar de terem feito buscas, ainda não o encontraram”, contou à Fundação Esperança, uma organização não-governamental colombiana que combate o tráfico de pessoas.
Na Colômbia e no restante da América Latina são inúmeras histórias como essas. Milhares de homens, mulheres, meninas e meninos são vítimas desse mercado da infâmia, que afeta, pelo menos, 20 milhões de pessoas no mundo e rende para as máfias muito dinheiro, só ficando atrás do tráfico de drogas e de armas, segundo a Anti-Slavery (Antiescravagismo), a ONG britânica fundada em 1839. Muitos latino-americanos vivem em situação de exploração, sob violência, ameaças, cárcere privado ou trabalham sem remuneração. “ Outros são vendidos ou explorados com fins de prostituição, trabalho ou casamento servil, turismo sexual ou tráfico de órgãos”, diz Adriana Ruiz-Restrepo, coordenadora nacional anti-tráfico de pessoas do Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, em Bogotá.
Pelo menos, dez mil pessoas de aproximadamente 39 países, principalmente da América Latina, são escravizadas atualmente em mais de 90 cidades dos Estados Unidos, denunciou Jolene Smith, da ONG Free the Slaves (Libertar os Escravos), durante uma conferência internacional sobre tráfico humano realizada este ano em Bogotá. “Quarenta e seis por cento são exploradas em prostituição forçada, 27% no serviço doméstico, 10% na agricultura, 5% no setor de manufatura e o restante em outras atividades”, afirmou.
A Escravidão Moderna
A abolição da escravidão no século XIX se produziu apenas no papel, pois não acabou somente com a servidão de negros e índios, como também ampliou e produziu outros males, como o tráfico de órgãos. No século XX, a humanidade conquistou todos seus direitos e criou todas as regras de convivência, mas, por outro lado, consolidou delitos tão infames como o tráfico de pessoas, qualificada hoje de escravidão moderna. Anualmente, entre 600 mil e 800 mil pessoas são vítimas desse tipo de tráfico, e 80% delas são crianças e mulheres, a metade menor de idade e a maioria vítima da exploração sexual, segundo o VI Informe sobre Tráfico de Pessoas divulgado em julho pelo Departamento de Estado.
Mas a situação pode ser pior, porque “as vítimas não denunciam, ao não se assumirem como tal, temendo represálias contra si ou suas famílias, temem ser julgadas pelos amigos e parentes ou que as autoridades as considerem criminosas e não vítimas”, diz Mônica Peruffo, oficial do Programa de Tráfico de Pessoas da OIM, na Colômbia. A maioria dos países latino-americanos “acusa fenômenos de tráfico interno, regional ou para outros países, mas muitos não dispõem de uma legislação para enfrentá-la, apesar do problema não parar de crescer”, afirma Ruiz-Restrepo. “Portanto, não existem estatísticas precisas. É difícil quantificar os casos e complexo fazer seu acompanhamento. Não há um estudo regional detalhado, porém sabemos que o problema é grave e que nenhum país está livre dele”, acrescentou.
A Colômbia ocupa o terceiro lugar, depois do Brasil e da República Dominicana em número de casos registrados de tráfico internacional de pessoas, apesar de desenvolver numerosas campanhas de informação, dispor de diversas linhas de consulta gratuita para o emigrante e contar com uma das legislações mais avançadas da América Latina. Neste país o tráfico de pessoas é castigado com penas de 13 a 23 anos de prisão e multas entre 800 e mil salários mínimos, equivalentes a US$ 140 mil e US$ 175 mil, em média, enquanto no Brasil, Paraguai, Bolívia e em outros países não existe uma legislação precisa para combater e castigar este crime.
A Colômbia, mais do que qualquer outra nação latino-americana, permite uma visão mais ampla deste tráfico. “É o caso mais complexo na região porque reúne todas as características que a propiciam: conflito armado, crise econômica, refugiados, recrutamento forçado e narcotráfico, entre outras”, diz Ruiz-Restrepo. Além disso, como único país em guerra, é mais vulnerável porque “os traficantes de pessoas se alimentam, sobretudo, das crises humanitárias”, diz a pesquisadora Judith Kumin, ex-chefe de informação pública do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, com sede em Genebra.
Na América Latina
A América Latina é hoje uma das regiões do mundo onde mais se comercializa pessoas e onde este tráfico encontra um caldo de cultivo favorável. A mentalidade de emigrante do latino-americano e a convicção generalizada de que o mundo pode ser melhor em outro lugar também influem. No caso da Colômbia, quase quatro milhões de cidadãos residem no exterior, e estima-se que entre dois e dez deixam diariamente o país como potenciais vítimas de tráfico, segundo o Departamento Administrativo de Segurança (DAS), o serviço secreto colombiano, e a Interpol (Polícia Internacional). “Uma novidade recente é que existem denúncias de tráfico de colombianos em países vizinhos como Equador e Panamá”, diz Peruffo, da OIM.
No Brasil, onde ainda não existe uma legislação específica, não só se obriga homens a trabalhar como escravos em fazendas. Em Feira de Santana, na Bahia, meninas são leiloadas. “Elas são colocadas sobre um caminhão e vendidas. As virgens custam mais”, disse em uma entrevista em Bogotá a pesquisadora Jacqueline Leite, durante um encontro regional sobre tráfico de pessoas e direitos humanos. O México, em quinto lugar na lista de tráfico de pessoas e onde também proliferam os cartéis da droga, é um país de origem, trânsito e destino final de pessoas com fins de exploração sexual e profissional, segundo o documento do Departamento de Estado. Nesse país “o fenômeno está estreitamente ligado a redes e grupos criminosos organizados em nível transnacional. Muitos imigrantes ilegais se convertem em vítimas dos traficantes e são explorados durante sua viagem desde a fronteira sul com a Guatemala até fronteira norte com os Estados Unidos”, afirma.
A Argentina, por sua vez, passou a integrar o circuito mundial de tráfico de pessoas, sobretudo para exploração sexual e profissional, especialmente de crianças e adolescentes, segundo o último relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na Venezuela, o Ministério Público anunciou a detenção de dois membros da Guarda Nacional por suposto envolvimento com um grupo internacional de tráfico de cidadãos chineses, no começo de junho. Washington incluiu a Venezuela na lista de países que poderiam sofrer sanções por não enfrentar o tráfico.
Para complicar mais a situação, os latino-americanos também são vítimas do tráfico de órgãos. Hoje não é novidade encontrar corpos “saqueados”. Na Colômbia há vários exemplos. Em Bogotá, um jovem de 18 anos saiu certa manhã de sua casa rumo à universidade e, no caminho, começou a conversar com dois desconhecidos no ônibus. Ele só se lembra de que jogaram algo em seu rosto. Cinco dias depois, quando acordou no Parque El Tunal, ao sul da cidade, tinha uma enorme cicatriz e lhe faltava um dos rins, segundo contou à Fundação Esperança.
Em Bucaramanga, no departamento de Santander, foi encontrado o cadáver da jovem Johana Maritza Pinto, de 17 anos. Seu corpo estava lavado, vestido, sem manchas de sangue, mas com uma sutura desde o pescoço até o umbigo. “Ela teve retirados desde os pulmões até a bexiga”, informou a polícia. “Ficamos sabendo de mulheres grávidas que têm os bebês roubados, ou de cadáveres de jovens sem córneas, mas é muito difícil fazer a apuração destes casos”, disse Diana Cano, coordenadora nacional da Fundação Esperança.
O que fazer para combater estes crimes? Especialistas recomendam informar-se bem sobre os direitos e deveres antes de viajar, não acreditar em propostas milagrosas, afetivas ou econômicas, e nem em contos de fadas, porque a emigração hoje em dia é uma opção que exige informação, e o tráfico de órgãos é uma realidade que enluta a região. (IPS/Envolverde)
(*) Glória Helena Rey trabalha há 25 anos como correspondente estrangeira na América Latina e Europa. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Atualmente, colabora com o El Periódico, da Cataluña, e Leituras Fin de Semana, do jornal El Tiempo, de Bogotá.

