Toronto, 08/10/2006 – Apesar dos modestos êxitos ao reduzir o custo dos medicamentos anti-retrovirais contra a aids, estas fórmulas já não funcionam para um crescente número de pessoas, que agora precisam das chamadas drogas de segunda linha, ainda mais caras. Graças à competição dos medicamentos genéricos e à sustentada pressão dos ativistas, o custo anual das drogas contra a síndrome de deficiência imunológica adquirida caiu de US$ 10 mil para cerca de US$ 140 por paciente em países como a África do Sul. Entretanto, outros medicamentos devem ser tomados diariamente para manter sob controle o vírus HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids).
Na XVI Conferência Internacional sobre Aids, realizada na semana passada em Toronto, no Canadá a gigante farmacêutica norte-americana Abbott Laboratories foi a mais atacada pelos ativistas devido ao alto custo de seu remédio anti-retroviral Kaletra, cujo preço está entre US$ 500 e US$ 2 mil. “As pessoas vêm antes do lucro. Onde está, Abbott? Salve a vida das pessoas!”, gritavam manifestantes diante do edifício onde foi realizado o encontro. O Kaletra é uma terapia de segunda linha, isto é, administrada quando as drogas anti-retrovirais convencionais perderam eficácia no paciente ou causam graves efeitos secundários.
A necessidade de medicamentos de segunda linha está aumentando. Mais de 4% dos pacientes com HIV necessitam deles, segundo a Organização Mundial da Saúde. Espera-se que esse número aumente, já que cada vez mais pessoas desenvolvem resistência aos remédios de primeira linha após anos de tratamento. O Kaletra é a droga mais receitada nesta categoria e custa US$ 7,5 mil por ano nos Estados Unidos. Deve ser administrado junto com outros anti-retrovirais. Na abertura da reunião de Toronto, o Abbott anunciou que 69 países africanos e outras nações pobres poderiam comprar este remédio ao preço especial de US$ 500 por pessoa/ano. Índia, Paquistão, Vietnã e outras 40 nações terão uma tarifa de US$ 2,2 mil.
Entretanto, ativistas afirmam que mesmo US$ 500 é um preço muito alto, e que US$ 2,2 mil deixam o medicamento fora do alcance da maior parte dos habitantes do Sul. “Esta é uma droga essencial da qual muitas pessoas necessitam na África. Deve ser mais acessível”, afirmou o presidente da Sociedade Sul-africana de Médicos Clínicos contra o HIV, François Venter. A redução do preço do Kaletra foi o resultado de anos de pressão por parte de organizações da sociedade civil, como People Living with HIV/aids (Pessoas com HIV/aids) e Médicos Sem Fronteiras.
O Abbott começou a vender uma nova forma do remédio, chamada Aluvia, que não requer refrigeração. Mas embora esteja disponível na América do Norte e Europa, ainda não foi registrada para uso em outras partes do mundo, criticaram ativistas. “É o remédio perfeito para a África, por não necessitar de refrigeração, não ter de ser administrado com alimentos e apresentar menos efeitos colaterais”, disse Matthew Kavanagh, da Campanha Global de Estudantes contra a Aids. “Diante dos enormes lucros do Abbott, acreditamos que deveriam registrar a droga nos países africanos”, acrescentou. O laboratório garante que já está fazendo isso.
“Aguardamos a aprovação para usá-la em 12 países da África”, disse à IPS a diretora de assuntos públicos da companhia, Jennifer Smoter. O registro de um medicamento deve ser feito país por país, e o laboratório também procura registrá-la na América Latina, acrescentou. Smoter defendeu os preços do Kaletra. “O valor de US$ 500 é o quanto custa fazer a droga. O Abbott não ganha nada vendendo por esse preço” para a África, explicou. O processo de fabricação é muito mais complexo no caso dos medicamentos de segunda linha. É necessária uma tecnologia especial patenteada, ressaltou. Por outro lado, Smoter admitiu que “a companhia prefere intervir em aumentar sua capacidade de fabricação em lugar de trabalhar com laboratórios que fabricam genéricos”.
Mas os grandes laboratórios farmacêuticos não foram os únicos atacados pelos ativistas em Toronto. Os governos também foram. A Médicos Sem Fronteiras criticou as autoridades sanitárias de “esconder a cabeça na terra” e ignorar o fato de que aumenta a resistência aos anti-retrovirais genéricos convencionais entre os pobres, e que são necessários remédios de segunda linha. No Quênia, esse grupo paga US$ 1,4 mil por paciente ao ano para manter um regime de tratamentos de segunda linha, contra apenas US$ 200 pelos medicamentos convencionais.
Nos países de renda média, a diferença de preços é ainda maior. Na Guatemala, um tratamento de segunda linha custa US$ 6,5 mil, 28 vezes mais do que o de primeira linha. “Garantir o acesso a remédios novos é a única maneira de assegurar a qualidade a longo prazo para pessoas com HIV/aids no mundo em desenvolvimento”, disse Alexandra Calmy, da Campanha para o Acesso a Medicamentos Essenciais da Médicos Sem Fronteiras. (IPS/Envolverde)

