Teerã, 08/10/2006 – Telespectadores iranianos assumem com estoicismo a campanha do governo contra as antenas parabólicas que lhes permitem ver os “decadentes” canais estrangeiros, bem como programas em persa transmitidos por dissidentes exilados. A atual campanha policial, aparada por uma lei de 1994 que proíbe a posse e o uso de antenas parabólicas, tem sido bastante suave. Os agentes de segurança evitaram entrar em residências particulares para apreender os aparelhos. As autoridades suspeitam que entre três e quatro milhões de iranianos que têm TV via satélite ignoraram as advertências do chefe de polícia feitas há mais de um mês. O jornal reformista Shargh exibiu na primeira página a fotografia de um policial destruindo uma antena parabólica.
O promotor da lei no parlamento, Saeed Aboutaleb, criticou a polícia por perseguir os particulares e não os distribuidores e fornecedores do serviço de televisão via satélite. “Os canais cujo conteúdo seja imoral ou tendencioso serão filtrados”, afirmou Shargh. Muitos distribuidores ajudaram a adulterar os decodificadores de sinais, para que seja possível receber centenas de canais, não só de forma ilegal, mas também gratuita. Por medo da prisão, os que fornecem esses serviços agora tentam se esconder e até apagaram os números de seus telefones celulares.
“Bloquearam a rua, tocaram a campainha, anunciaram que era a polícia e foram diretamente ao telhado. Acho que tinham ordem judicial para entrar nos apartamentos e apreender os aparelhos”, contou Ahmad Ramezani, do bairro residencial de Elahieh, em Teerã. “Cortaram os cabos e quebraram ou retiraram as antenas, mas sem as confiscar, como das outras vezes”, acrescentou. Em alguns casos, a polícia distribuiu notificações. Por exemplo, na cidade de Karaj, perto da capital, os moradores de um conjunto de apartamentos receberam uma carta onde lhes era solicitado desligar seus aparelhos e levá-los à delegacia, informou a agência noticiosa iraniana Fars News Agency.
“O que muda retirarmos as antenas do teto?”, perguntou Zahra Amani, uma professora aposentada. “Desde o ano passado interferem nos sinais a ponto de ser quase impossível ver alguma coisa. Nos primeiros dias da crise nuclear quase todos os canais foram afetados”, acrescentou. Amani estranhou o fato de a interferência quase não afetar os canais de pornografia e sim as redes dos dissidentes. “No começo pensei que meu receptor estava funcionando mal e chamei a operadora, mas o funcionário me disse que muitos clientes da região tinham o mesmo problema. Ele explicou que a interferência pode ser prejudicial para a saúde das pessoas”, acrescentou a mulher.
A Agência de Notícias de Estudantes Iranianos informou que os policiais dirigem sua campanha apenas contra as antenas claramente visíveis. Em alguns lugares se viu como eram retiradas do telhado. No começo da ofensiva, no início do mês, na província de Gilan e na do Curdistão, a polícia entrou em casas particulares. “Os canais de televisão iranianos são muito chatos. A música causa tédio, não tem danças e as notícias são censuradas”, disse um estudante universitário. O jovem lamentou não poder ver seus canais preferidos, os que transmitem em persa desde o exterior e que são muito mais interessantes, com música, notícias e filmes.
A maioria dos canais persas digitais é particular, com exceção dos de caráter propagandístico, como a Voz da América. Alguns pertencem a exilados opositores ao regime islâmico. Um, inclusive, promove a conversão ao cristianismo, crime castigado com a pena de morte. Os canais em persa são tão populares que se sustentam graças à publicidade, não só de produtos e serviços estrangeiros, mas também de iranianos, apesar das advertências em contrário do Ministério de Orientação Islâmica. Além disso, funcionários governamentais e acadêmicos, entre outros, receberam instruções do governo para que não dêem entrevistas nem apareçam em programas dessas redes de televisão.
“Necessitamos realmente saber o que está acontecendo no mundo. Não temos televisão ou emissoras de rádio particulares. Só o que sabemos é o que o governo decide que é bom para nós. É natural que as pessoas se sintam atraídas por outras vozes”, disse Negar, estudante de medicina na Universidade de Teerã. Sua família há anos assiste televisão via satélite, retira do telhado suas antenas e esconde os equipamentos toda vez que acontece uma campanha como a atual. Mas a tecnologia dos Sistemas de Televisão Direta por Satélite (DTH), que permite a recepção por meio de pequenas antenas de uso doméstico, dá esperanças a telespectadores como Negar. A Comissão de Cultura do parlamento iraniano, dominado por islâmicos de linha dura, redige um projeto de lei para emendar a lei de 1994 e autorizar os provedores de serviços privados a oferecerem aos clientes canais DTH.
“A campanha pode ter sua origem no aumento das transmissões em persa e na crescente diversidade de conteúdo. Podem influenciar o comportamento político e social”, disse um analista, que pediu para não ser identificado. “Em menos de três meses haverá eleições simultâneas para a Assembléia de Especialistas e o conselho da cidade. Os islâmicos da linha dura estão determinados a vencer. Não estão unidos, e, portanto, são mais vulneráveis do que em eleições anteriores. Farão todo o possível para evitar que estes órgãos caiam em mãos de conservadores mais moderados, para não falar dos reformistas”, acrescentou.
Antes das eleições presidenciais do ano passado, Mehdi Kalhor, assessor cultural do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e integrante da direção da televisão estatal, prometeu que o novo governo não acabaria com as liberdades da população, incluindo a televisão via satélite. “Ao que parece, Ahmadinejad se distancia dos assessores, que favorecem maiores liberdades, e se aproxima dos partidários de linha dura, como o chefe de polícia que, casualmente, é seu cunhado”, afirmou o analista político. “Por ora, guardei meu equipamento”, disse, com otimismo, Reza, um funcionário público de 34 anos. “Já passamos por isto. É apenas uma onda e logo passará. Centenas de milhares de casas, somente em Teerã, possuem antenas. O que a polícia pode fazer?”. (IPS/Envolverde)

