Política: Rigoberta Menchú candidata à secretaria da OEA

México, 23/01/2005 – A Guatemala anunciou que apresentará a candidatura da prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú para o cargo de secretária-geral da Organização dos Estados Americanos, para acabar com as divisões regionais que a disputa pelo cargo provoca. Analistas acreditam que "é apenas um balão de ensaio", mas a ativista tem fé em chegar por consenso. "Seria uma honra para mim (ser candidata) e um fato histórico uma mulher indígena surgida das lutas sociais poder estar à frente de um organismo como a OEA", disse Menchú à IPS em entrevista por telefone de seu escritório na Guatemala.

Se for concretizada a candidatura da militante guatemalteca pelos direitos humanos, que em 1992 ganhou o Nobel da Paz, aumentará para quatro o número de aspirantes ao cargo de secretário-geral desse fórum que reúne todos os países da América, menos Cuba, que está suspenso desde os anos 60. O presidente da Guatemala, Oscar Berger, disse no final de semana que por trás da possibilidade de apresentar a candidatura de Menchú está o objetivo de superar divisões para conseguir um consenso regional, o que implicaria, pelo menos nas condições atuais, que os outros pretendentes desistissem de se candidatar.

Estes são, até agora, o ministro do Interior do Chile, Miguel Insulza, que teve a adesão expressa de Brasil e Argentina e tacitamente da Venezuela; o chanceler do México, Luis Derbez, que conta com o apoio certo de Canadá e Belize, e o ex-presidente salvadorenho Francisco Flores (1999-2004), apoiado por países centro-americanos. No entanto, para o mexicano especialista em relações internacionais, Leonel Cepeda, a possível candidatura de Menchú "é um balão de ensaio" que buscaria sacudir a disputa para alinhar os países com maior clareza, segundo explicou à IPS. A ativista, uma ex-empregada doméstica e autodidata de 46 anos, não aceita essa interpretação.

"Minha possível candidatura está voltada a romper as divisões existentes na região e apoiar os setores mais pobres da América Latina", afirmou. "Estou pronta para a candidatura, mas a possibilidade de que se torne oficial depende dos processos regionais, de como se moverão os demais candidatos e se há condições para eu entrar como uma postulante de consenso", acrescentou. Em nome da Igreja Católica salvadorenha, o bispo auxiliar de San Salvador, Gregório Rosa Chávez, já declarou que apóia a candidatura de Menchú, pois no seu entender apoiaria os indígenas e os mais necessitados do continente. Mas até o momento ela não tem o apoio declarado de nenhum governo.

Por sua vez, Insulza afirma já contar com o voto de 10 países, o mesmo que diz Flores, enquanto a equipe de Derbez fala de sete votos a favor. Se esses números forem corretos, os eleitores seriam 37, três a mais do que os 34 que de fato escolherão o novo secretário-geral da OEA. Para ocupar o cargo, o candidato deverá receber pelo menos 18 votos, entre eles o dos Estados Unidos, país que mantém histórica influência e poder sobre o organismo, cuja sede fica em Washington. A OEA ficou sem secretário-geral em outubro passado, quando o ex-presidente da Costa Rica, Miguel Angel Rodríguez teve de renunciar ao cargo por supostos atos de corrupção que teria cometido durante seu mandato, de 1998 a 2002.

O governo de George W. Bush assinala que seu principal interesse é apoiar para a OEA um "ex-presidente centro-americano", mas não descarta a possibilidade de votar a favor de Insulza ou Derbez. Nos 57 anos de vida da organização, sua secretaria esteve nas mãos de Brasil, Colômbia, Chile, Uruguai, Equador e Argentina. A América Central também teve seu momento com a fugaz passagem de Rodríguez, enquanto o México jamais ocupou esse cargo, sendo que tampouco o buscou. Em meios diplomáticos mexicanos afirma-se que Derbez tem o apoio declarado dos Estados Unidos, que continuam apostando publicamente por "um ex-presidente centro-americano" de consenso, fato que não parece se concretizar. Por sua vez, Flores conta com o apoio de Costa Rica, Guatemala, Nicarágua e Panamá, enquanto Honduras ainda não se decidiu.

Entretanto, a candidatura potencial de Menchú pela Guatemala indicaria que balança o apoio desse país a Flores. Em entrevista ao jornal mexicano El Universal, o ex-presidente salvadorenho acusou o governo do México de faltar com sua palavra de apoiar um candidato centro-americano para a secretaria da OEA."O presidente Vicente Fox compromete sua palavra com seu colega de El Salvador e com a América Central, inclusive o reiterando duas vezes, e pouco depois muda completamente de posição, ao apresentar seu chanceler Derbez como candidato", afirmou Flores. "Para um presidente, não cumprir sua palavra tem uma conseqüência perigosa, já que quando se necessitar do apoio de outras nações estas podem pagar na mesma moeda", ressaltou.

Fontes oficiais indicaram à IPS no México que Derbez tem, além do apoio do Canadá e de Belize, os da Bolívia, San Vicente e Granadinas, Paraguai e Uruguai. Também se menciona o voto potencial do Peru e a possibilidade de todos os países da América Central o apoiarem, se Flores não conseguir o consenso nessa região. Os candidatos mexicano e chileno centram grande parte de sua campanha nos países do Caribe, vários dos quais já visitaram nas últimas semanas. Nessa região há 14 dos 18 votos necessários para se chegar à secretaria-geral. Insulza, que já disputou o cargo e perdeu para o ex-presidente costarriquenho, afirmou estar "muito otimista" diante da resposta do Caribe à sua candidatura.

"A verdade é que fui muito bem (na viagem ao Caribe)", afirmou. "Fiquei muito otimista de receber dos chefes de Estados e dos chefes de governo do Caribe, quando se reunirem para isso, lá por fevereiro, pelo menos o apoio da maioria deles", afirmou Insulza. O ministro chileno destacou que os possíveis apoios do Caribe se somam ao que afirma ter da maioria dos países da América do Sul. Ao ser consultado sobre essas declarações, o chanceler peruano, Manuel Rodríguez, disse que "tal informação não é correta", depois de esclarecer que seu país ainda não decidiu qual candidato apoiará. A eleição do novo secretário-geral da OEA pode ocorrer na assembléia geral da organização, que acontecerá em junho na cidade norte-americana de Atlanta. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *