Líbano: Devastado e endividado

Washington, 08/10/2006 – O Líbano está a caminho de se converter na terceira nação do Oriente Médio, junto com Iraque e a Autoridade Nacional Palestina, a acumular uma grande dívida externa para cobrir os gastos de reconstrução depois de sofrer uma guerra apoiada pelos Estados Unidos, afirmaram ativistas. Uma conferência de doadores realizada na semana passada em Estocolmo terminou com promessas de ajuda por mais de US$ 940 milhões para reconstruir o Líbano, depois de 33 dias de bombardeios israelenses sobre a infra-estrutura civil. Israel atacou o sul libanês em resposta ao seqüestro de dois de seus soldados por parte do movimento xiita pró-sírio Hezbollah (Partido de Deus). Mais de 1,1 mil libaneses morreram no conflito, um terço deles meninos e meninas. Mais de um milhão se tornaram refugiados.

Dados oficiais estimam que a primeira fase das tarefas de reconstrução custará US$ 2,5 bilhões. A lista de danos inclui 150 pontes destruídas e vazamento de 15 mil toneladas de petróleo que contaminaram 140 quilômetros de costa no Mar Mediterrâneo. Aproximadamente 60 mil casas foram danificadas ou destruídas na guerra, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. A Organização das Nações Unidas disse que, desde que entrou em vigor o cessar-fogo, no dia 14 de agosto, o regresso de centenas de milhares de pessoas para suas casas foi impedido pelos artefatos de artilharia sem explodir que estão no território, sobretudo pequenos explosivos espalhados pelas bombas de fragmentação. Removê-los implicará um importante gasto a longo prazo para o governo libanês.

Antes da conferência, Beirute havia informado que precisaria de, pelo menos, US$ 540 milhões para conseguir uma recuperação do país no curto prazo. Na quinta-feira, o Fundo Monetário Internacional disse que poderiam ser necessários, no mínimo, US$ 3,5 bilhões somente para reparar a infra-estrutura. “Ouvimos sobre estimativas preliminares de US$ 3,5 bilhões, aos quais se deve acrescentar o impacto do maciço deslocamento da população, o êxodo de muitos profissionais e as possíveis bancarrotas do setor privado”, afirmou o FMI em um comunicado na reunião de Estocolomo. Beirute não terá outra saída a não ser apelar para empréstimos internacionais e à ajuda de doadores por muito tempo. Isto afetará severamente sua economia no longo prazo, afirmam analistas.

Dados do Banco Mundial mostram que o Líbano já tinha uma divida elevada antes da guerra, de US$ 22,2 bilhões. Para um país com apenas 3,5 milhões de habitantes, e o menor do mundo árabe, se trata de uma quantia colossal. “O que já era uma situação difícil ficou mais precária pelo conflito. A divida do governo representava 175% do produto interno bruto no final de 2005, uma das porcentagens mais altas do mundo. O conflito fez com que as coisas piorassem ainda mais”, segundo o FMI. Os principais credores do Líbano são Arábia Saudita e França, sendo que ambos impulsionaram uma série de políticas neoliberais em Beirute que levaram à privatização de serviços públicos e, segundo críticos, fortaleceu elites locais e companhias estrangeiras às custas das classes média e baixa.

O Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (Cadtm), com sede na Bélgica, disse que, em 2004, o Líbano pagou US$ 4,4 bilhões em serviços de sua dívida externa, e alertou que os novos empréstimos significarão mais pressão por parte das nações ricas e de instituições financeiras internacionais, como o FMI. “Isso implicará outro aumento em sua dívida e novas medidas econômicas de ajustes estruturais que a acompanham”, disseram Eric Troussaint e Damien Millet, do Cadtm, em um breve estudo sobre as novas necessidades de Beirute. “Portanto, o povo libanês terá de pagar muito caro nos próximos anos pelas conseqüências desta guerra travada por Israel em violação a tratados internacionais”, acrescentaram.

É o mesmo que viveu o Iraque: Os Estados Unidos invadiram e destruíram sua infra-estrutura somente para que empresas privadas se aproveitassem dos subseqüentes esforços de reconstrução, afirmaram Troussaint e Millet. “Os libaneses primeiro pagaram com suas próprias vidas, perdendo seus entes queridos, sofrendo a destruição de suas casas, suas propriedades e sua infra-estrutura. Não devem pagar uma segunda vez sofrendo uma sangria de recursos para a reconstrução”, ressaltaram. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *