Bangcoc, 09/10/2006 – Muitos tailandeses respiraram aliviados ao constatar que o golpe de Estado contra o governo do primeiro-ministro, Thaksin Shinawatra, não disparou um só tiro, mas agora se perguntam o que vai acontecer. Alguns demonstram alívio porque esperam que a queda de Thaksin ponha fim a vários meses de tensão política motivada por uma crescente oposição à sua administração, mas outros se preocupam com a idéia de que este país do sudeste asiático enfrente novo regime militar. Nesta quarta-feira os tailandeses não foram trabalhar, já que o comandante do Exército e líder do movimento golpista, Sonthi Boonyaratklin, declarou feriado nacional. A maioria das pessoas aproveitou para passar o dia todo diante da televisão ou navegando pela Internet para se informar sobre os últimos acontecimentos.
Pondo fim a meses de uma crise política sem precedentes, uma facção militar derrubou Thaksin na terça-feira, quando ele estava em Nova York para participar da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. Vários batalhões de soldados de diversas partes de Bangcoc e leais ao chefe do Exército foram rapidamente mobilizados para posições-chave. Tanques e soldados fortemente armados se instalaram diante da sede do governo, do parlamento e do palácio real. O Exército também assumiu o controle das emissoras de rádio e televisão, cancelando todas as transmissões e obrigando-as a divulgar música militar e mostrar imagens do Rio Bhumibol Adulyadej.
Sonthi derrubou o primeiro-ministro, suspendeu a Constituição, fechou o parlamento e declarou a lei marcial, argumentando que o fazia para impedir a desintegração do país. Nem um só tiro foi disparado em toda a operação. “Foi um típico assunto tailandês, uma revolução de seda”, disse uma fonte próxima ao Exército que pediu para não ser identificada. Analistas acreditam que o golpe foi orquestrado por funcionários próximos ao palácio real. “Os generais não teriam se movido tão rapidamente se não contassem com a aprovação do rei”, disse à IPS o ex-senador Kraisak Choonhaven.
Mas muitos analistas políticos consideram improvável que o monarca tenha avalizado o golpe. Bhumibol sempre ficou acima das diferenças políticas internas do país, e insistindo que a crise deveria ser resolvida de forma constitucional. “Tomamos o poder porque o primeiro-ministro provisório causou uma divisão sem precedentes na sociedade, corrupção generalizada e nepotismo, além de interferir nas agências independentes do país, paralisando-as e fazendo com que deixassem de funcionar de maneira adequada”, disse Sonthi em seu discurso. Espera-se a criação de uma administração civil nas próximas duas semanas para governar o país até a realização de eleições em outubro de 2007.
No momento o governo está nas mãos do Conselho de Reforma Administrativa, criado pelos militares, que já fez vários pronunciamentos relacionados aos controles da imprensa e à proibição de reuniões públicas. Sonthi prometeu um completo plano de reformas políticas e anunciou que a Constituição seria reformulada para fortalecer as instituições democráticas. Enquanto isso, Bangcoc permanece em calma. Pequenos grupos de soldados patrulhavam a cidade, o comércio abriu e o transporte público funcionava normalmente nesta quarta-feira, mas escolas, bancos e bolsa de valores estavam fechados por ordens de Sonthi.
Thaksin continua sendo popular entre os pobres, os quais sentem que tentou melhorar suas vidas com um programa de saúde pública, investimentos em aldeias e suspensão das dívidas de agricultores. Mas nem mesmo eles parecem dispostos a defendê-lo diante do golpe. “Talvez tenha ido longe de mais e começou a se converter em uma ameaça para a estabilidade do país”, disse Rung, uma jovem mãe solteira cheia de elogios para o programa de saúde pública do deposto primeiro-ministro. “Creio que este governo militar vai ficar no poder por um curto período, talvez, entre três e seis meses”, afirmou, por sua vez, Chao, de 60 anos, empregado de um pequeno hotel da capital. “Os militares só ficarão no governo por um tempo curto. Devolverão o poder ao povo e não o manterão para si”, acrescentou.
Mas para a contadora Noi, “isto não é democracia. Agora mesmo alguém pode dizer que a Tailândia não é diferente da Birmânia”, país governado por uma junta militar. Nos últimos 74 anos, a Tailândia sofreu 17 golpes de Estado, o penúltimo em 1992, e foi governada por ditadores militares durante 46 desses anos. Entre 1932 e 1997, este país teve 15 constituições. Os tailandeses vão esperar para ver o que os líderes militares farão nos próximos dias.
“Depois de duas semanas, vamos agir”, disse à IPS o ativista e ex-senador Jon Ungphakorn, que expressou sua desilusão por alguns sinais dados pelos golpistas. A proibição de reuniões políticas deve ser levantada imediatamente e é necessário, ao menos, uma Constituição interina com claras provisões a favor do processo de reformas, acrescentou. “Se tivermos um primeiro-ministro interino que defenda a democracia, se forem restauradas a liberdade de imprensa e de opinião, se forem prometidas eleições dentro de seis meses, se houver uma Constituição interina imediatamente, com todos os direitos das anteriores, então estaremos avançando para uma era de reformas sociais”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

