Pequim, 10/10/2006 – A emergência de uma Coréia do Norte como nova potência nuclear na Ásia-Pacífico é vista pela China como um perigo que deve ser contido, mas também aproveitado como contra-peso à influência dos Estados Unidos na região. O governo norte-coreano anunciou nesta segunda-feira que realizou com êxito seu primeiro teste nuclear subterrâneo, apesar das advertências internacionais para que não o fizesse. Os serviços sismológicos da Coréia do Sul detectaram um tremor de terra de 3,5 graus na escala Richter provocado pela explosão.
Antes de Pyongyang disparar seus primeiros mísseis na semana passada e anunciasse que se preparava para realizar um teste com bomba atômica, especialistas e analistas chineses coincidiram quanto às limitações de Pequim para pressionar o governo norte-coreano. Como velho aliado ideológico e principal sócio comercial da Coréia do Norte, a China é vista pela comunidade internacional como principal mediadora na crise nuclear na península coreana.
Pequim foi sede das negociações das seis partes (Coréia do Norte, Coréia do Sul, China, Estados Unidos, Japão e Rússia) destinadas a aliviar a tensão. A última rodada destas conversações terminou em novembro sem que se chegasse a um acordo. A Coréia do Norte, em seguida, negou-se a continuar participando, em protesto pelas restrições adotadas pelos Estados Unidos contra um banco de Macau acusado de lavar dinheiro para o regime. Washington exortou Pequim a exercer toda sua influência sobre Pyongyang, incluindo interromper o fornecimento de petróleo e a ajuda econômica, para fazer com que suspenda suas atividades nucleares e volte a negociar. Porém, a China insiste em que se exagera sua suposta influência sobre o regime norte-coreano.
Em uma visita aos Estados Unidos realizada em julho o vice-presidente da Comissão Militar Central chinesa, Guo Boxiong, afirmou que a Coréia do Norte é um Estado soberano e que Pequim não dita suas condições. Por sua vez, o analista Shen Dingli, do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade Fudan, na cidade chinesa de Xangai, disse que a Coréia do Norte prioriza seus interesses nacionais na relação com seu aliado. Pyongyang, “não renunciará à independência de sua segurança nacional conquistada através dos testes atômicos somente por causa das preocupações da China e da possibilidade de sofrer pressão”, escreveu Shen em um artigo para o site do centro acadêmico norte-americano Nautilus Institute.
O analista especulou que o programa nuclear norte-coreano poderia, inclusive, ser de utilidade para a China em seu velho objetivo de recuperar Taiwan, pois poderia distrair a atenção da presença militar norte-americana na Ásia-Pacífico. Outros especialistas chineses acusam Washington de provocar a Coréia do Norte ao se negar a participar de negociações bilaterais e por impor restrições financeiras. Embora a China tenha apoiado uma advertência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas adotada na semana passada, na qual se assinalava que um teste atômico poderia atrair uma “condenação universal”, especialistas acreditam que Pequim não irá avalizar nenhuma sanção militar contra o regime de Kim Jong-II.
A reticência da China e da Rússia é o motivo pelo qual a resolução do Conselho de Segurança não especificava possíveis castigos. “A possibilidade de uma ação militar contra a Coréia do Norte é mínima”, reconheceu o analista Li Dunqiu, especialista em península coreana do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho Estatal chinês. Já existe um precedente de discrepâncias da comunidade internacional nas respostas ao comportamento provocativo de Pyongyang. Depois que a Coréia do Norte realizou testes com sete mísseis balísticos em julho, o Conselho de Segurança adotou uma resolução unânime condenando os lançamentos, mas não chegou a um acordo sobre possíveis sanções.
A maior preocupação do governo chinês continua sendo que os testes norte-coreanos provoquem uma corrida armamentista na região e arraste o Japão, destruindo, assim, o equilíbrio de poder na Ásia-Pacífico, onde a China é a única potência nuclear confirmada até agora. A Coréia do Norte insistiu por vários anos que possuía armas atômicas, mas somente um teste como o realizado agora poderia demonstrar isso. Embora se trate de uma dura prova para a estabilidade regional, a ameaça norte-coreana ajudou os líderes chineses e japoneses a se reunirem pela primeira vez em cinco anos. Os testes nucleares de Pyongyang dominaram as conversações de domingo em Pequim entre o presidente chinês, Hu Jintao, e o novo primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.
“As duas partes expressaram profunda preocupação sobre os últimos acontecimentos na península coreana, incluindo os testes atômicos”, disseram em um comunicado conjunto após a reunião de Abe com Jintao, mais o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao. Também indicaram que as duas nações deveriam “trabalhar duro” para reiniciar as negociações das seis partes sobre o programa nuclear norte-coreano. O Japão alinhou-se com os Estados Unidos em suas demandas de sanções contra Pyongyang, enquanto a China prefere a via das negociações. (IPS/Envolverde)

