Khaldiya, Iraque, 16/10/2006 – Uma bomba explodiu do lado de fora de uma escola da cidade de Khaldiya, no centro do Iraque, 70 quilômetros a oeste de Bagdá, no exato momento em que a IPS conversava com alunos e professores dentro do estabelecimento. O diretor sorriu e avisou: “Você ouvirá muitas destas por dia se ficar mais um ou dois dias. A resistência não acabará até que o último norte-americano tenha partido”. Os alunos tampouco prestaram atenção à explosão que sacudiu portas e janelas da escola meio destruída desta cidade próxima a Faluja. As meninas e os meninos crescem em um país ocupado e também aprendem a apoiar a resistência contra as forças invasoras.
“Os norte-americanos são maus. Mataram minha família”, disse Mustafá, de 11 anos. Seus parentes morreram na Operação Fúria Fantasma contra Faluja, em novembro de 2004, quando tentavam fugir da cidade, contaram os professores. Nos ataques, lançados pelas forças dos Estados Unidos, morreram milhares de pessoas e foi destruída grande parte dessa cidade e de outras próximas. “Deus enviará todos os norte-americanos para o inferno”, gritou outro aluno. “Como vamos ensiná-los a perdoar quando vêem que os norte-americanos matam seus familiares todos os dias?”, perguntou a professora Shyamaa. “As palavras não podem esconder o derramamento de sangue e estas demonstrações de destruição. As palavras tampouco podem esconder os ataques diários que eles vêem”, acrescentou.
Para o diretor da escola, o choque de civilizações é uma realidade diária. “A distancia entre civilizações se amplia pelos crimes contra a humanidade que o governo dos Estados Unidos comete em todo o mundo. Parecem decididos a destruir o planeta. Suas marcas não podem ser apagadas para as próximas gerações”, disse. Ao sair da escola mulheres e velhos se aproximaram do correspondente da IPS. Um deles presumiu que seu filho lutava na resistência. “Estou orgulhos de que seja um herói, que lute contra estes norte-americanos. E pensar que nos valavam em direitos humanos…”, afirmou.
Mais à frente, na mesma rua, as pessoas estavam nervosas. Pareciam prestar atenção a alguma coisa fora do comum. Um motorista explicou à IPS que os insurgentes costumam dar algum tipo de alerta codificado antes de lançar uma bomba, para avisar a população. Enquanto este correspondente fazia anotações à beira do caminho, antes de deixar Khaldiya, um jovem que passava de bicicleta gritou: “A única saída para os norte-americanos é deixar está província ou enfrentar a morte”. As forças invasoras estão abandonando algumas cidades. Dhuluiya, Talafar e Faluja, a oeste de Bagdá, estão transformadas virtualmente em zonas proibidas. Os ataques contra as forças multinacionais, encabeçadas pelos Estados Unidos, continuam aumentando.
“Continuam pedindo para que entreguemos combatentes”, disse à IPS um agricultor da região”. Assim podem torturá-los na prisão de Abu Ghraib, na base de Falcon, no aeroporto de Bagdá e em outros centros de detenção”. Mas, os insurgentes têm cada vez mais apoio, e estão longe de serem entregues. Dos ataques da resistência normalmente participa um pequeno automóvel que surge do nada. O motorista ataca tanques e caminhões norte-americanos que transportam soldados e desaparece rapidamente. A população local nunca informa de onde surgiu o atacante e nem para onde fugiu. A cada dia morrem, em média, três ou quatro soldados das forças invasoras nesse tipo de atentado.
De acordo com o Departamento de Defesa norte-americano, pelo menos 2.754 soldados morreram no Iraque e mais de 44 mil ficaram feridos ou retornaram ao seu país por enfermidade. Os efetivos estão abandonando as cidades, mas, não o país. O chefe do Estado Maior dos Estados Unidos, general Peter Schoomaker, disse na quarta-feira que será mantida a quantidade de soldados no Iraque, cerca 15 brigadas, pelo menos até 2010. “Está não é uma previsão de que as coisas estejam indo bem ou mal, simplesmente tenho de ter munição suficiente no carregador para continuar disparando enquanto eles assim quiserem”, afirmou o oficial. (IPS/Envolverde)

