Coréia do Norte: Falcões dos EUA querem um Japão nuclear

Washington, 16/10/2006 – Estimular o Japão para que fabrique armas atômicas e realize operações secretas de sabotagem na Coréia do Norte são algumas das últimas receitas dos neoconservadores norte-americanos para responder aos desafios de Pyongyang. Em artigos para o jornal The New York Times, os “falcões”, a ala mais belicista do governo do presidente George W. Bush, afirmam que o teste atômico norte-coreano da última segunda-feira confirma sua posição de que as negociações com os Estados aos quais chamam de “rebeldes” são inúteis, e a única solução é uma “mudança de regime”, por meios militares, se necessário.

“Com nossa tão irregular informação de inteligência sobre a Coréia do Norte, a doutrina dos ataques preventivos deve ser retomada”, escreveu Dan Blumenthal, especialista em Ásia do Centro acadêmico conservador American Enterprise Institute (AEI), e que trabalhou para o secretário de Defesa, Donald rumsfled, no primeiro mandato de Bush. “Toda tentativa de restaurar as conversações da Seis Partes (China, Coréia do Norte, Coréia do sul, Estados Unidos, Japão e Rússia) deve encontrar resistência”, acrescentou.

O teste nuclear norte-coreano “despojou de toda verossimilhança os argumentos de que negociar com ditadores é algo que funciona”, segundo Michael Rubin, especialista em Oriente Médio do AEI, que também afirmou que o governo Bush está diante de um momento-chave das relações com países que desafiam Washington nos últimos anos. “A crise ano é apenas com a Coréia do Norte, mas, também com Irã, Síria, Venezuela e Cuba. Bush tem agora duas opções: responder energicamente e mostrar que qualquer desafio terá sua conseqüência, ou passar a imagem de que a atitude desafiadora tem seus frutos e que a vontade internacional é uma ilusão”, afirmou Rubin.

O presidente norte-americano “agora deve decidir se seu legado será a nação ou a liderança, (o ex-primeiro-ministro britânico Neville) Chamberlain ou (seu sucessor, Winston) Churchill”, afirmou, referindo-se ao debate na Grã-Bretanha nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) sobre a política de “contemporização” do primeiro e a ação enérgica do segundo. Os neoconservadores, cuja influência na administração Bush diminui desde o final de 2003, quando ficou claro que a guerra do Iraque que tanto haviam defendido era um fracasso, ainda mantêm certo poder, sobretudo através dos escritórios de Rumsfeld e do vice-presidente, Dick Cheney.

Os “realistas”, concentrados no Departamento de Estado, preferem ação multilateral e dão prioridade ao fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por sua vez, os neoconservadores são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à Organização das Nações Unidas, em particular. Seus postulados sobre política externa rejeitam o pragmatismo e apresentam os conflitos em termos morais.

A maioria destes últimos é de judeus de direita, muito ligados ao conservador partido Likuk, no poder em Israel. São políticos, analistas e acadêmicos belicistas, e defendem que a política antiterror de Washington aponte contra todos os grupos e países que consideram ameaças para os interesses israelenses. O Oriente Médio tem sido historicamente a maior preocupação dos neoconservadores, mas, ultimamente, também expressam especial temor a qualquer contemporização com a Coréia do Norte, bem como com seu principal aliado e fornecedor de ajuda econômica: a China.

Para eles, Pequim sempre teve o poder de obrigar Pyongyang a renunciar ao seu plano de desenvolvimento nuclear, e que o fato de não fazê-lo demonstra que a China é em si mesma um “rival estratégico” de Washington. David Frum, ex-redator dos discursos de Bush, escreveu uma coluna para o jornal The New York Times na qual chama o governo a tomar uma série de medidas para “castigar a China” por não ter freado a Coréia do Norte. Frum, membro do AEI e a quem é atribuída a criação do conceito “eixo do mal” (formado por Coréia do Norte, Irã e Iraque), exortou Washington a interromper toda ajuda humanitária internacional a Pyongyang, pressionar a Coréia do Sul a fazer o mesmo e obrigar a China a “assumir o custo para evitar” o colapso econômico norte-coreano.

Além disso, propôs que Austrália, Coréia do Sul, Japão, Nova Zelândia e Cingapura se somem à Otan e que Taiwan, país que a China considera uma província renegada, envia observadores às reuniões dessa organização. Também reclama que Washington “estimule o Japão a renunciar ao Tratado de Não-proliferação Nuclear e construa sua própria dissuasão atômica”. Um “Japão nuclear é o que mais temem China e Coréia do Norte, depois, talvez, de uma Taiwan ou uma Coréia do Sul nuclear”, afirmou. Ajudar Tóquio a obter armas nucleares “não seria apenas um castigo para China e Coréia do Norte, mas também contribuiria para atingir a meta de dissuadir o Irã” em suas tentativas de obter armamento atômico, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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